História de quem foge e de quem fica
Capítulo 48
Naquela mesma noite, fiz da casa de meus pais uma longa ligação a Pietro, contando-lhe tim-tim por tim-tim todos os problemas de Lila e como eu queria ajudá-la. Ficou me escutando com paciência. A certa altura até mostrou espírito de colaboração, lembrou-se de um jovem helenista de Pisa
que estava fixado em calculadores[1] e fantasiava que eles revolucionariam a filologia. Me deu ternura que, mesmo sendo alguém que estava sempre com a cabeça no trabalho, naquela ocasião, por amor a mim, se esforçasse para ser útil.
“Tente localizá-lo”, pedi, “fale de Enzo com ele, nunca se sabe, poderia surgir uma possibilidade de trabalho.”
Prometeu que o faria e acrescentou que, pelo que se lembrava, Mariarosa tinha tido um breve caso amoroso com um jovem advogado de Nápoles: talvez pudesse localizá-lo e perguntar se poderia me ajudar.
“Ajudar em quê?”
“Recuperar o dinheiro de sua amiga.”
Me entusiasmei.
“Ligue para Mariarosa.”
“Tudo bem.”
Insisti:
“Não prometa apenas, ligue mesmo, por favor.”
Ficou em silêncio por um segundo e então disse:
“Você acabou de usar o tom de minha mãe.”
“Em que sentido?”
“Parecia ela quando está muito empenhada numa coisa.”
“Sou diferente demais dela, pena.”
Calou-se de novo.
“Ainda bem que é diferente. De todo modo, nessas coisas ela é incomparável. Conte a ela sobre sua amiga e pode ter certeza de que vai ajudar.”
Telefonei para Adele. Estava um tanto embaraçada, mas venci a vergonha ao recordar todas as vezes em que a vi em ação, seja por meu livro, seja pela procura da casa em Florença. Era uma mulher que gostava de se ocupar das coisas. Se precisava de algo, pegava o telefone e, peça por peça, montava uma corrente que alcançava seu objetivo. Sabia pedir de um jeito que era impossível de negar. E superava com desenvoltura fronteiras ideológicas, não respeitava hierarquias, ia atrás de faxineiras, empregados, industriais, intelectuais, ministros, a todos se dirigindo com cordial distanciamento, como se o favor que estava prestes a pedir na realidade ela mesma o estivesse fazendo a eles. Entre mil desculpas envergonhadas pelo incômodo que lhe estava causando, contei também a Adele sobre minha amiga, detalhadamente, e ela ficou curiosa, se entusiasmou, se indignou. Por fim me disse:
“Deixe-me pensar.”
“Claro.”
“Enquanto isso, posso lhe dar um conselho?”
“Claro.”
“Não seja tímida. Você é uma escritora, use seu papel, experimente-o, lhe dê peso. Estamos vivendo tempos decisivos, tudo está indo pelos ares. Participe, esteja presente. E comece por essa gentalha de suas bandas, coloque-os contra a parede.”
“Como?”
“Escrevendo. Deixe Soccavo e gente como ele morrendo de medo. Promete que vai fazer isso?”
“Vou tentar.”
E me passou o nome de um redator do Unità.
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