História de quem foge e de quem fica
Capítulo 123
Pus o fone no gancho como se queimasse. Está com ciúmes — disse a mim mesma —, está com inveja, me odeia. Sim, a verdade era essa. E se passou um longo cortejo de segundos, não me voltou mais à memória a mãe dos Solara, seu corpo se esfumou marcado de morte. Em vez disso me perguntei ansiosa: por que Nino não telefona, será possível que justo agora que contei tudo a Lila ele recue, me tornando ridícula? Por um instante me vi exposta a ela em toda minha eventual pequenez de pessoa que se arruinara por nada. Então o telefone começou a tocar. Por dois ou três longos toques permaneci sentada, fixando o aparelho. Quanto tirei o fone do gancho, tinha na ponta da língua palavras prontas para Lila: não se preocupe nunca mais comigo, você não tem nenhum direito sobre Nino, me deixe errar do jeito que eu quiser. Mas não era ela. Era Nino, e eu o cobri de frases entrecortadas, feliz de ouvi-lo. Disse-lhe em que pé estavam as coisas com Pietro e as meninas, disse que era impossível chegar a um acordo com calma e racionalidade, disse que tinha preparado a mala e não via a hora de abraçá-lo. Ele me contou suas brigas furiosas com a mulher, as últimas horas tinham sido insuportáveis. Murmurou: embora esteja muito assustado, não consigo pensar em minha vida sem você.
No dia seguinte, enquanto Pietro estava na universidade, perguntei à vizinha de porta se podia ficar com Dede e Elsa por algumas horas. Deixei na mesa da cozinha as cartas que tinha escrito e fui embora. Pensei: está acontecendo algo de grandioso, que vai dissolver completamente o velho modo de viver, e eu sou parte dessa dissolução. Alcancei Nino em Roma, nos encontramos em um hotel a poucos passos da estação. Enquanto o abraçava, me dizia: nunca me habituarei a esse corpo nervoso, é uma contínua surpresa, ossos longos, a pele de um cheiro excitante, uma massa, uma força, uma agilidade de todo estranhas ao que Pietro é, aos costumes que havia entre nós.
Na manhã seguinte, pela primeira vez em minha vida, subi num avião. Não sabia apertar o cinto, Nino me ajudou. Como foi emocionante segurar com força sua mão enquanto o ronco dos motores aumentava, aumentava, aumentava, e o avião começava sua corrida. Como foi comovente descolar-se do chão com um choque e ver as casas se transformando em paralelepípedos, e as ruas se transmudando em finas faixas, e o campo se reduzindo a uma mancha verde, e o mar se encurvando como uma chapa compacta, e as nuvens se precipitando para baixo num desmoronamento de rochas macias, e a angústia, e a dor, e a própria felicidade que se tornavam parte de um movimento único, muito luminoso. Tive a impressão de que voar submetesse todas as coisas a um processo de simplificação e suspirei, tentei me abandonar. De vez em quando perguntava a Nino: está contente? E ele fazia sinal que sim, me beijava. Às vezes tinha a impressão de que o piso sob nossos pés — a única superfície com a qual era possível contar — tremia.
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[1] Nos anos 1960 os atuais computadores eram chamados de calculadores ou cérebros eletrônicos. (n. e.)
[2] Referência ao mundo ínfero dos gregos, Hades (Ade, em italiano). (N.T.)
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Elena Ferrante
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