História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 38 de 124

Páginas do PDF

História de quem foge e de quem fica

Capítulo 37

O aborrecimento de Lila tornou a explodir. Então quer dizer que, depois do trabalho, Pasquale corria para a casa daquela gente, entre mães, pais, avós, tias e crianças felizes, todos afetuosos, todos bem instruídos, todos tão liberais a ponto de acolhê-lo como um deles, embora fosse pedreiro e ainda trouxesse os vestígios sórdidos do trabalho?

Nadia a abraçou com seu jeito emocionado. Ainda bem que você veio, lhe disse, deixe o menino com minha mãe, precisamos conversar. Lila replicou agressiva que sim, precisavam conversar imediatamente, ela estava ali para isso. E, como enfatizou que só tinha mais um minuto, Pasquale se ofereceu para acompanhá-la até a casa de carro. Então deixaram a sala de estar, os meninos, a avó e se reuniram todos — inclusive Armando, inclusive a jovem loura, que se chamava Isabella — no quarto de Nadia, um cômodo amplo com uma pequena cama, uma escrivaninha, prateleiras cheias de livros, pôsteres de cantores, filmes e lutas revolucionárias de que Lila não sabia quase nada. Ali havia outros três jovens: dois que ela nunca tinha visto e Dario, bastante machucado pelas porradas que levara, escarranchado na cama de Nadia com os sapatos sobre o edredom rosa. Todos os três fumavam, o quarto estava saturado de fumaça. Lila não se fez esperar, nem sequer respondeu ao cumprimento de Dario. Disse que a tinham colocado numa enrascada, que por sua falta de consideração ela agora corria o risco de ser demitida, que o texto mimeografado tinha causado um pandemônio, que nunca mais deveriam se aproximar do portão, que por culpa deles os fascistas tinham vindo e todos agora estavam às voltas tanto com os vermelhos quanto com os negros. Sibilou para Dario: quanto a você, se não sabe dar porrada, fique em casa; sabe que podiam ter matado você? Pasquale tentou interrompê-la umas duas vezes, mas ela o rechaçou desdenhosa, como se a simples presença dele naquela casa fosse uma traição. Já os outros escutaram em silêncio. Somente quando Lila terminou, Armando interveio. Tinha os traços delicados da mãe, sobrancelhas pretas grossíssimas, a sombra arroxeada da barba bem-feita que lhe subia até os zigomas, e falava com uma voz quente, espessa. Primeiro se apresentou, disse que estava muito contente de conhecê-la, que lamentava não ter estado presente quando ela falara no comitê, mas que haviam discutido muito entre si sobre o que ela contara e, como consideraram seu relato uma contribuição importante, por fim tinham decidido colocar cada palavra por escrito. Não se preocupe — concluiu tranquilo —, daremos todo o apoio possível a você e a seus companheiros.

Lila tossiu, a fumaça do quarto lhe irritava ainda mais a garganta.

“Vocês tinham que ter me avisado.”

“É verdade, mas não houve tempo.”

“Quando se quer, sempre se acha tempo.”

“Nós somos poucos, e as iniciativas são cada vez mais numerosas.”

“Qual é o seu trabalho?”

“Em que sentido?”

“Que trabalho você faz para viver?”

“Sou médico.”

“Que nem seu pai?”

“Sim.”

“E neste momento você está arriscando seu emprego? Pode acabar no meio da rua de uma hora pra outra com seu filho?”

Armando balançou a cabeça descontente e disse:

“Disputar para ver quem se arrisca mais é um erro, Lina.”

E Pasquale:

“Ele já foi detido duas vezes, e eu tenho oito denúncias nas costas. Aqui não há quem se arrisca menos ou mais.”

“Ah, não?”

“Não”, disse Nadia, “estamos todos na linha de frente e prontos a assumir nossas responsabilidades.”

Então, esquecendo-se de que estava na casa dos outros, Lila gritou:

“E se acontecer de eu perder o emprego, venho morar aqui, vocês vão me alimentar, vão assumir a responsabilidade por minha vida?”

Nadia respondeu placidamente:

“Se quiser, sim.”

Apenas três palavras. Lila compreendeu que não era uma frase vazia, que Nadia estava falando sério, que mesmo se Bruno Soccavo demitisse todo o pessoal, ela, com aquela voz licorosa, teria dado a mesma resposta insensata. Afirmava estar a serviço dos operários e, enquanto isso, de seu quarto dentro de uma casa forrada de livros e com vista para o mar, queria controlar você, queria lhe dizer o que você deve fazer com o seu trabalho, decidia em seu lugar, tinha uma solução pronta mesmo que você fosse para o olho da rua. Se eu quiser — Lila esteve a ponto de dizer —, arrebento tudo bem melhor que você, sua mosca morta: não preciso que venha me dizer com essa voz de santinha como eu devo pensar, como devo agir. Mas se conteve e disse brusca a Pasquale:

“Estou com pressa, você me acompanha ou fica aqui?”

Silêncio. Pasquale lançou um olhar a Nadia e balbuciou: acompanho, e Lila fez que ia sair do quarto, sem se despedir. A jovem se precipitou para lhe abrir caminho e enquanto isso lhe disse que era inaceitável trabalhar nas condições que a própria Lila descrevera tão bem, que era urgente acender a chama da luta, e outras frases desse tipo. Não recue — exortou-a por fim, antes de passarem para a sala de estar. Mas não obteve resposta.

Sentada na poltrona, Galiani estava lendo, concentrada. Quando ergueu o olhar, dirigiu-se a Lila ignorando a filha, ignorando Pasquale, que acabara de chegar embaraçado.

“Já vai embora?”

“Vou, já está tarde. Vamos, Gennaro, devolva o carrinho a Marco e vista seu casaco.”

Galiani sorriu ao neto, que estava emburrado:

“Marco deu o carrinho para ele.”

Lila apertou os olhos, reduzindo-os a duas fissuras:

“Nesta casa todos são tão generosos, obrigada.”

A professora a observou enquanto pelejava com o filho para que vestisse o casaco.

“Posso lhe perguntar uma coisa?”

“Diga.”

“Que estudos você fez?”

A pergunta pareceu perturbar Nadia, que atalhou:

“Mamãe, Lina precisa ir.”

“Posso falar duas palavrinhas?”, irrompeu Galiani com um tom não menos nervoso. Então repetiu para Lila, mas com gentileza: “Que estudos você fez?”

“Nenhum.”

“A ouvi-la falar — e gritar —, não parece.”

“Mas é assim, parei depois do quinto ano fundamental.”

“Por quê?”

“Não tinha capacidade.”

“Como você se deu conta disso?”

“Quem tinha era Greco; eu, não.”

Galiani balançou a cabeça em sinal de discordância e disse:

“Se você tivesse estudado, teria se saído tão bem quanto Greco.”

“Como a senhora pode dizer isso?”

“É o meu trabalho.”

“Vocês professores insistem tanto no estudo porque é com ele que ganham a vida, mas estudar não serve pra nada, nem melhora as pessoas, ao contrário, torna-as ainda mais cruéis.”

“Elena ficou mais cruel?”

“Não, ela não.”

“E por quê?”

Lila meteu o gorro de lã na cabeça do filho:

“Desde pequenas fizemos um pacto: a cruel sou eu.”

OceanofPDF.com