História de quem foge e de quem fica
Capítulo 114
Saímos de férias. Dei pouca atenção às meninas, deixei-as quase o tempo todo com o pai. Corria constantemente em busca de um telefone, pelo menos para dizer a Nino que o amava. Eleonora só atendeu umas duas vezes, e eu desliguei. Mas bastou sua voz para me aborrecer, achei injusto que ele estivesse dia e noite a seu lado; o que ela tinha a ver com ele, com a gente? Aquela irritação me ajudou a vencer o medo, o plano de nos encontrarmos em Florença me pareceu cada vez mais viável. Disse a Pietro — e era verdade — que enquanto a editora italiana, com toda boa vontade, não conseguiria publicar meu livro antes de janeiro, meu texto sairia na França já no final de outubro. Então eu precisava tirar algumas dúvidas com urgência, queria consultar dois livros, precisava voltar para casa.
“Eu mesmo vou buscá-los”, se ofereceu ele.
“Fique um pouco com as meninas, você nunca está com elas.”
“Eu gosto de dirigir, você, não.”
“Pode me deixar um pouco em paz? Posso ter um dia de liberdade? As empregadas têm, por que eu não?”
Saí de carro de manhã cedo, o céu estava estriado de branco, da janela vinha um vento fresco que trazia os cheiros do verão. Entrei na casa vazia com o coração aos pulos. Tirei a roupa, tomei banho, me olhei no espelho perturbada com a clareza branca da barriga e dos seios, me vesti, me despi, tornei a me vestir até me sentir bonita.
Por volta das três da tarde Nino chegou, não sei que lorota tinha inventado para a mulher. Fizemos amor até a noite. Pela primeira vez ele teve a oportunidade de se dedicar ao meu corpo, e eu não estava preparada para tanta devoção e idolatria. Tentei corresponder à altura, queria a todo custo mostrar que eu era boa. Porém, quando o vi exausto e feliz, algo de repente estragou meus pensamentos. Para mim, aquilo era uma experiência única; para ele, uma repetição. Amava as mulheres, adorava seus corpos como fetiches. Não pensei propriamente nas mulheres de que tive notícias, Nadia, Silvia, Mariarosa ou mesmo Eleonora. Em vez disso, pensei naquela que eu conhecia bem, nas loucuras que tinha feito por Lila, no frenesi que a levara à beira da autodestruição. Lembrei-me de como ela cedera àquela paixão e se agarrara a ele, aos livros complicados que ele lia, a seus pensamentos, a suas ambições, para corroborar a si mesma e se dar uma possibilidade de mudança. Lembrei-me de como estava no fundo do poço quando Nino a abandonara. Ele só sabia amar e induzir a ser amado daquela maneira excessiva, não conhecia outros modos? Aquele nosso amor louco era a reprodução de outros amores loucos? Aquele querer sem se preocupar com nada recorria a um protótipo, ao modo como ele havia desejado Lila? Até aquela visita à minha casa e de Pietro se parecia a quando Lila o levara para a casa dela e de Stefano? Não estávamos fazendo, mas refazendo?
Me retraí, e ele perguntou: o que foi? Nada, não sabia o que dizer, não eram pensamentos dizíveis. Estreitei-me a ele, o beijei e enquanto isso tentei tirar da cabeça a sensação de seu amor por Lila. Mas Nino insistiu e por fim não consegui evitar, me agarrei a um eco relativamente recente — sim, isso eu talvez possa falar — e lhe perguntei com um ar de falso deboche:
“Eu tenho algum problema com o sexo, como Lina?”
Mudou de expressão. Em seus olhos, no rosto, apareceu uma pessoa diferente, um estranho que me assustou. Antes mesmo que respondesse, me apressei em sussurrar:
“Estou brincado, se não quiser responder, não responda.”
“Não entendi o que você disse.”
“Apenas citei palavras suas.”
“Eu nunca disse uma frase desse tipo.”
“Mentiroso, você disse isso em Milão, quando estávamos indo ao restaurante.”
“Não é verdade; de todo modo, não quero falar de Lina.”
“Por quê?”
Não respondeu. Fiquei irritada, virei para o outro lado. Quando me roçou as costas com os dedos, sibilei: me deixe em paz. Ficamos imóveis por um tempo, sem dizer nada. Depois ele voltou a me fazer carinhos, me beijou de leve um ombro, e eu cedi. Sim, admiti intimamente, ele tem razão, não devo nunca mais interrogá-lo sobre Lila.
À noite o telefone tocou, com certeza era Pietro com as meninas. Fiz sinal de silêncio a Nino, saí da cama e corri para atender. Preparei na garganta uma voz afetuosa, tranquilizadora, mas sem me dar conta falei muito baixo, um murmúrio pouco natural, não queria que Nino escutasse e depois me zombasse ou até se aborrecesse.
“Por que você está sussurrando assim?”, perguntou Pietro. “Está tudo bem?”
Imediatamente levantei a voz, que dessa vez saiu alta demais. Procurei palavras gentis, fiz muitas gracinhas com Elsa, recomendei a Dede que não complicasse a vida do pai e que escovasse os dentes antes de dormir. Quando voltei para a cama, Nino disse:
“Que excelente esposa, que excelente mãezinha.”
Respondi:
“Você não fica atrás.”
Esperei que a tensão tornasse a passar, que o eco das vozes de meu marido e das meninas abrandasse. Tomamos uma ducha juntos com grande alegria, uma experiência nova, gostei de lavá-lo e de ser lavada. Depois me preparei para sair. Tornei a ficar bonita para ele, mas dessa vez sob seus olhos e de repente sem ansiedade. Parou para me olhar encantado, enquanto eu provava as roupas à procura da mais certa, enquanto me maquiava, e de tanto em tanto — embora eu lhe dissesse brincando: não ouse, isso me faz cócegas, está acabando com minha maquiagem, vou ter de recomeçar, cuidado para não rasgar o vestido, me deixe — ele vinha por trás, me beijava na nuca, enfiava as mãos em meu decote e por baixo do vestido.
Obriguei-o a sair de casa sozinho, disse que me esperasse no carro. Embora o prédio estivesse semideserto, porque todos tinham saído de férias, mesmo assim temia que alguém nos visse juntos. Fomos jantar, comemos muito, falamos muito, bebemos muitíssimo. Na volta fomos de novo para a cama, mas não dormimos em nenhum momento. Ele me disse:
“Em outubro vou a Montpellier por cinco dias, tenho um congresso.”
“Divirta-se. Vai com sua mulher?”
“Quero ir com você.”
“Impossível.”
“Por quê?”
“Dede tem seis anos, Elsa, três. Preciso pensar nelas.”
Começamos a discutir sobre nossa situação, pela primeira vez pronunciamos palavras como casados, filhos. Passamos do desespero ao sexo, do sexo ao desespero. Por fim sussurrei:
“Não devemos mais nos ver.”
“Se para você é possível, bem. Para mim não é.”
“Conversa fiada. Você me conhece há décadas e no entanto teve uma vida plena sem mim. Vai me esquecer em pouco tempo.”
“Prometa que continuará me ligando todos os dias.”
“Não, não vou mais telefonar.”
“Se você parar, vou ficar maluco.”
“Eu vou ficar maluca se continuar pensando em você.”
Exploramos com uma espécie de gozo masoquista o beco sem saída em que nos sentíamos e, exasperados por nossa própria somatória de obstáculos, acabamos brigando. Ele foi embora nervosíssimo às seis da manhã. Eu arrumei a casa, chorei longamente, dirigi por todo o trajeto torcendo para não chegar nunca a Viareggio. No meio do caminho me dei conta de que não tinha pegado um único livro capaz de justificar minha viagem. Pensei: melhor assim.
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