História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 6 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 5

Adele distribuiu os lugares: eu ao lado de Nino e em frente a Tarratano, ela ao lado de Tarratano e em frente a Nino. Fizemos os pedidos e rapidamente a conversa resvalou para o homem de óculos grossos, um professor de literatura italiana — pelo que entendi — colaborador assíduo do Corriere della Sera, democrata-cristão. Dessa vez, nem Adele nem o amigo dela conseguiram se conter. Fora do ritual da livraria, falaram todo o mal possível sobre o sujeito e elogiaram Nino pelo modo como o enfrentara e desconcertara. Riram sobretudo ao lembrar as palavras com que ele o atacara enquanto abandonava a sala, frases que eles tinham escutado, e eu, não. Perguntaram a ele qual tinha sido a formulação precisa, mas Nino se esquivou, disse que não recordava. Mas depois as palavras vieram à tona, talvez reinventadas para a ocasião, algo do tipo: para tutelar a Autoridade em toda sua expressão, o senhor estaria disposto a suspender a democracia. E a partir daquele momento os três conversaram apenas entre si, com um entusiasmo crescente, sobre os serviços secretos, a Grécia, a tortura nas prisões daquele país, o Vietnã, a inesperada insurgência do movimento estudantil não só na Itália, mas na Europa e em todo o mundo, sobre um artigo do professor Airota na revista Ponte — com o qual Nino disse ter concordado palavra por palavra — a propósito da condição da pesquisa e do ensino nas universidades.

“Vou dizer a minha filha que você gostou”, disse Adele, “ela o considerou ruim.”

“Mariarosa só se apaixona pelo que o mundo não pode dar.”

“Perfeito, é justamente isso.”

Eu não sabia nada sobre esse artigo de meu futuro sogro. Aquilo me deixou mal, e fiquei escutando em silêncio. Primeiro as provas finais, depois a tese de conclusão de curso, depois o livro e sua publicação apressada absorveram grande parte de meu tempo. Estava superficialmente informada sobre os acontecimentos do mundo e não tinha ouvido quase nada sobre estudantes, manifestações, confrontos, feridos, prisões, sangue. Como já estava fora da universidade, tudo o que eu de fato sabia sobre aquela agitação eram os resmungos de Pietro, que se lamentava do que definia numa carta de “a besteirada pisana”. Assim me sentia imersa em um cenário de traços confusos. Traços que, no entanto, meus comensais pareciam capazes de decifrar com extrema precisão, sobretudo Nino. Eu estava sentada ao lado dele, o escutava, tocava de leve meu braço no dele, um contato apenas de tecidos, mas que mesmo assim me emocionava. Tinha conservado sua propensão para as cifras: listava números de inscritos na universidade, uma verdadeira multidão, e sobre a capacidade real dos edifícios, sobre as horas que os medalhões de fato trabalhavam, sobre quantos, em vez de pesquisar e ensinar, ocupavam cadeiras no parlamento ou em conselhos de administração, ou se dedicavam a consultorias remuneradíssimas e a atividades privadas. Adele concordava, o amigo, também, e às vezes intervinham mencionando pessoas cujos nomes eu nunca tinha ouvido. Me senti excluída. A comemoração pelo meu livro já não estava em seus pensamentos, minha sogra parecia até esquecida da surpresa que me anunciara. Sussurrei que sairia da mesa por um instante, Adele fez um sinal distraído, Nino continuou falando entusiasmado. Tarratano deve ter pensado que eu estava me aborrecendo e disse solícito, quase num murmúrio:

“Volte logo, conto muito com sua opinião.”

“Não tenho opiniões”, respondi com um meio sorriso.

Ele sorriu por sua vez:

“Uma escritora sempre inventa uma.”

“Talvez eu não seja uma escritora.”

“Claro que é.”

Fui ao toalete. Nino sempre tivera a capacidade de mostrar minhas deficiências assim que abria a boca. Preciso estudar mais, pensei, como pude ficar para trás desse jeito? Claro, quando quero, sei simular com as palavras um pouco de competência e paixão. Mas não posso continuar assim, aprendi muitas coisas que não servem para nada e pouquíssimas que importam. Terminado meu caso com Franco, perdi o pouco de curiosidade pelo mundo que ele me transmitira. E o noivado com Pietro não me ajudou, o que não interessava a ele parou de interessar a mim. Como Pietro é diferente do pai, da irmã, da mãe. E como ele é diferente de Nino. Se fosse por ele, eu nem teria escrito meu romance. Ele o aceitou quase com fastio, como uma infração à etiqueta acadêmica. Ou talvez eu esteja exagerando, foi só culpa minha. Sou uma jovem limitada, só consigo me concentrar em uma coisa por vez, o resto eu elimino. Mas agora vou mudar. Logo depois deste jantar tedioso vou arrastar Nino comigo, vou obrigá-lo a passear a noite inteira, vou lhe perguntar que livros eu devo ler, que filmes devo ver, que músicas devo ouvir. Vou pegá-lo pelo braço e dizer: estou com frio. Propósitos confusos, proposições incompletas. Me escondi na ansiedade que sentia, disse apenas a mim mesma: poderia ser a única ocasião que temos, viajo amanhã, não o verei mais.

Nesse meio-tempo eu me observava no espelho com raiva. Estava com o rosto cansado, pequenas espinhas no queixo e olheiras roxas prenunciavam a menstruação. Sou feia, baixinha, peitos muito grandes. Deveria ter entendido há tempos que ele nunca me quis, não por acaso preferiu Lila a mim. Mas com que resultado? Ela tem problemas até no sexo, ele disse. Errei ao me esquivar. Deveria ter me mostrado curiosa, deixá-lo continuar. Caso volte a tocar no assunto, serei mais desinibida: quando é que uma mulher tem problemas no sexo? Estou perguntando — lhe direi, rindo — porque também quero me corrigir, se achar necessário. Admitindo-se que seja possível se corrigir, quem sabe. Recordei com asco o que tinha acontecido com o pai dele na praia dos Maronti. Pensei nas relações com Franco sobre a cama estreita de seu quarto em Pisa. Naquelas ocasiões eu teria feito algo errado que tivesse sido notado, mas que, por tato, ele não me dissera? E se naquela mesma noite, suponhamos, eu fosse para a cama com Nino, voltaria a errar de novo, a ponto de ele pensar: tem problemas que nem Lila, e falaria às minhas costas com suas amigas da Estatal, talvez até com Mariarosa?

Percebi quanto aquelas palavras tinham sido desagradáveis, eu o deveria ter censurado. Desse sexo errado — deveria ter dito a ele —, de uma experiência sobre a qual você agora expressa um julgamento negativo, nasceu um filho, o pequeno Gennaro, que é muito inteligente: não é nada bonito que você fale assim, a questão não é redutível a quem tem problemas e a quem não tem, Lila se arruinou por você. E decidi: quando me livrar de Adele e do amigo dela, quando ele me acompanhar até o hotel, retomarei a conversa e lhe direi tudo.

Saí do toalete. Voltei ao salão e descobri que a situação tinha mudado durante minha ausência. Assim que minha sogra me viu, agitou uma mão e disse alegre, com o rosto aceso: finalmente a surpresa chegou. A surpresa era Pietro, sentado ao seu lado.

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