História de quem foge e de quem fica
Capítulo 120
De repente me redescobri invulnerável e invencível, como numa época passada de minha vida, quando me parecera que tudo me era permitido. Tinha nascido com sorte. Até quando a sorte parecia adversa, de fato estava trabalhando para mim. Claro, eu tinha meus méritos. Era disciplinada, tinha memória, trabalhava com afinco, aprendera a usar os instrumentos elaborados pelos homens, sabia conferir coerência lógica a qualquer amontoado de fragmentos, sabia agradar. Mas a sorte contava acima de tudo, e eu tinha orgulho de senti-la a meu lado como uma amiga fiel. Tê-la de novo a meu lado me dava segurança. Tinha me casado com um homem direito, não com uma pessoa como Stefano Carracci ou, pior, Michele Solara. Entraríamos em confronto, ele sofreria, mas no final chegaríamos a um acordo. Com certeza mandar pelos ares o casamento, a família, seria algo traumático. E como por motivos diversos não tínhamos nenhuma vontade de comunicar a coisa aos nossos parentes, ao contrário, certamente a manteríamos em segredo pelo maior tempo possível, não podíamos nem mesmo contar em um primeiro momento com a família de Pietro, que em todas as circunstâncias sempre sabia o que fazer e a quem recorrer para enfrentar situações complexas. Mas me sentia tranquila, finalmente. Éramos dois adultos razoáveis, teríamos um confronto, discutiríamos, nos explicaríamos. No caos daquelas horas somente uma coisa, agora, me parecia irrenunciável: eu iria a Montpellier.
Falei com meu marido naquela mesma noite, confessei que Nino era meu amante. Ele fez de tudo para não acreditar. Quando o convenci de que era verdade, ele chorou, me implorou, se enfureceu, levantou o tampo de vidro da mesinha e o arremessou contra a parede sob os olhos aterrorizados das meninas, que tinham acordado com os gritos e estavam incrédulas na soleira da sala de estar. Fiquei transtornada, mas não voltei atrás. Levei Dede e Elsa de novo para a cama, as tranquilizei, esperei que dormissem. Depois voltei a enfrentar meu marido, cada minuto se tornou uma ferida. Para piorar, Eleonora passou a nos perseguir com telefonemas, noite e dia, me insultando, insultando Pietro por não saber ser homem, anunciando-me que seus parentes achariam um meio de nos deixar, a nós e a nossas filhas, sem nem os olhos para chorar.
Mas não me abati. Estava num tal estado de exaltação que não conseguia me sentir em erro. Ao contrário, me pareceu que até as dores que eu causava, as humilhações e agressões que sofria, estivessem trabalhando em meu favor. Aquela experiência insuportável contribuiria não só para que eu me transformasse em algo de que me orgulharia, mas ao final, por vias imperscrutáveis, também serviria para quem agora penava. Eleonora compreenderia que não havia nada a fazer com o amor, que é insensato dizer a uma pessoa que quer ir embora: não, você tem de ficar. E Pietro, que com certeza já conhecia em tese aquele preceito, só precisaria de tempo para assimilá-lo e transformá-lo em sabedoria, em prática da tolerância.
Somente com as meninas percebi que tudo era difícil. Meu marido insistia em que lhes disséssemos as razões de nossas brigas. Eu era contrária: elas são pequenas — eu dizia —, o que poderiam compreender? Mas ele a certa altura me gritou: se você decidiu ir embora, precisa dar explicações a suas filhas, e, se não tiver coragem, fique — quer dizer que você mesma tem pouca segurança do que quer fazer. Murmurei: vamos falar com um advogado. Rebateu: temos tempo para os advogados. E, à traição, convocou em voz alta Dede e Elsa, que ao ouvirem nossos gritos iam imediatamente se fechar em seu quarto, muito companheiras.
“A mãe de vocês precisa lhes dizer uma coisa”, Pietro principiou, “fiquem sentadas e escutem.”
Comecei:
“Eu e o papai gostamos um do outro, mas não nos entendemos mais e por isso decidimos nos separar.”
“Não é verdade”, me interrompeu Pietro com calma, “é a mãe de vocês quem decidiu ir embora. E também não é verdade que gostamos um do outro: ela já não gosta mais de mim.”
Fiquei agitada:
“Meninas, não é assim tão simples. É possível continuar se querendo bem mesmo não se vivendo mais juntos.”
Ele me interrompeu de novo:
“Isso também é falso: ou queremos bem um ao outro, e então continuamos vivendo juntos e sendo uma família, ou não nos queremos bem, e então nos deixamos e não somos mais uma família. Se você contar mentiras, o que é que elas vão entender? Por favor, explique de verdade e com clareza por que estamos nos separando.”
Falei:
“Eu não estou deixando vocês, vocês são a coisa mais importante que eu tenho, não poderia viver sem vocês. Tenho apenas alguns problemas com o papai.”
“Quais?”, insistiu ele. “Esclareça quais são esses problemas.”
Suspirei, murmurei:
“Eu me apaixonei por outro homem e quero viver com ele.”
Elsa espiou Dede para entender como devia reagir àquela notícia e, como Dede continuou impassível, ela também permaneceu impassível. Já meu marido perdeu a calma, berrou:
“O nome: diga como se chama essa outra pessoa. Não quer falar? Tem vergonha? Então digo eu: vocês conhecem essa pessoa, é Nino, se lembram dele? A mãe de vocês que ir morar com ele.”
Então começou a chorar desesperadamente, enquanto Elsa murmurava um tanto assustada: me leva com você, mamãe? Mas não esperou que eu respondesse. Quando a irmã se levantou e deixou a sala quase correndo, ela a seguiu imediatamente.
Naquela noite Dede gritou durante o sono, acordei sobressaltada, corri para ela. Estava dormindo, mas tinha molhado a cama. Precisei acordá-la, trocá-la, trocar os lençóis. Quando a recoloquei na cama, murmurou que queria dormir na minha. Permiti, fiquei ao lado dela. De vez em quando estremecia no sono, verificava se eu continuava ali.
OceanofPDF.com