História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 34 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 33

 

Ameaças de denúncia por furto. Corte de salário, multa. E ofensas de Filippo a ela, dela para Filippo. Bruno não deu as caras, no entanto com certeza ainda estava na fábrica, o carro dele estava no pátio. Lila intuiu que, a partir daquele momento, as coisas piorariam ainda mais para ela.

Voltou para casa mais cansada que de costume, se irritou com Gennaro, que queria ficar com a vizinha, preparou o jantar. A Enzo disse que ele estudasse as apostilas sozinho, e se deitou cedo. Como não conseguia se esquentar debaixo das cobertas, levantou-se e vestiu uma malha de lã sobre a camisola. Estava se deitando de novo quando de repente, sem uma razão evidente, o coração lhe subiu à garganta e começou a bater tão forte que parecia o coração de um outro.

Já conhecia aqueles sintomas, eles acompanhavam aquilo que, em seguida — onze anos mais tarde, em 1980 —, batizou de desmarginação. Mas nunca ocorrera de se manifestar de modo tão violento, e além disso era a primeira vez que acontecia estando ela sozinha, sem pessoas ao redor que, por um motivo ou por outro, desencadeassem aquele efeito. Depois, com um movimento de horror, se deu conta de que não estava sozinha de fato. De sua cabeça atordoada estavam saindo figuras e vozes do dia, a flutuar pelo quarto: os dois rapazes do comitê, o vigia, os colegas de trabalho, Bruno na sala da maturação, Nadia, todos muito velozes, como num filme mudo, até os sinais da luz vermelha da triagem tinham intervalos brevíssimos, até Filippo, que arrancava a linguiça de suas mãos e lhe gritava ameaças. Tudo um truque da mente: no quarto, com exceção de Gennaro na caminha ao lado, com sua respiração regular, não havia pessoas e sons verdadeiros. Mas isso não a acalmou, ao contrário, multiplicou seu assombro. As batidas do coração agora eram tão fortes que pareciam capazes de explodir a engrenagem das coisas. A tenacidade do aperto que encerrava as paredes do quarto se enfraquecia, os choques violentos na garganta sacudiam a cama, abriam rachaduras no reboco, descolavam a calota craniana, talvez estraçalhassem o menino, sim, o estraçalhariam como a um boneco de plástico, abrindo-lhe o peito, o ventre e a cabeça para revelar seu interior. Preciso afastá-lo daqui, pensou, quanto mais perto ele estiver, mais provável que se desfaça. Mas se lembrou de outro menino que tinha afastado de si, o menino que não conseguira formar-se em sua barriga, o filho de Stefano. Eu o expulsei, ou pelo menos era o que diziam Pinuccia e Gigliola às minhas costas. E talvez de fato eu tenha feito isso, o expulsei de mim de propósito. Por que nada, até agora, realmente deu certo comigo? E por que eu deveria me agarrar ao que não deu certo? As batidas não davam impressão de serenar, as figuras de fumaça a perseguiam com um zumbido de vozes, saiu de novo da cama, sentou-se na borda. Estava coberta de um suor grudento, pareceu-lhe óleo gelado. Apoiou os pés nus contra a caminha de Gennaro, o empurrou devagar, para afastá-lo, mas não muito: temia destruí-lo se o mantivesse por perto, e perdê-lo, se o distanciasse muito. Foi à cozinha com passos curtos, apoiando-se nos móveis, nas paredes, mas olhando sempre para trás, com medo de que o piso cedesse arrastando Gennaro para baixo. Bebeu água da torneira, lavou o rosto e o coração parou de repente, arremessando-a para a frente como depois de uma freada brusca.

Acabara. O encaixe das coisas recuperou a aderência, o corpo lentamente voltou aos eixos, e ela se enxugou. Lila agora tremia e estava tão cansada que as paredes giravam à sua volta; teve medo de desmaiar. Preciso ir até Enzo, pensou, recuperar calor: entrar na cama dele agora, me apertar contra suas costas enquanto ele dorme, recuperar eu mesma o sono. Mas desistiu. Sentiu no rosto o pequeno trejeito gracioso que fizera quando disse a Bruno: confie em mim, eu tenho um filho pequeno para criar, realmente não fiz isso aí, uma expressão cativante, talvez sedutora, o corpo de fêmea agindo autonomamente apesar do asco. Sentiu vergonha: como pudera se comportar daquela maneira sabendo o que Soccavo lhe fizera na secagem? E no entanto. Ah, pressionar os machos e impeli-los como bichinhos obedientes para finalidades que não eram as deles. Não, não, chega, no passado ela agira assim por vários motivos, quase sem se dar conta, com Stefano, com Nino, com os Solara, talvez também com Enzo; agora não queria mais isso, se viraria sozinha: com o vigia, com os colegas de trabalho, com os estudantes, com Soccavo, com a própria cabeça cheia de pretensões que não conseguia se resignar e, desgastada pelo choque com pessoas e coisas, começava a ceder.

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