História de quem foge e de quem fica
Capítulo 90
Então a coisa ia muito além de um noivado. Quis ir imediatamente para a casa de Elisa, embora minha mãe repetisse: não faça isso, sua irmã está preparando uma surpresa para você, fique aqui, vamos todos juntos mais tarde. Não lhe dei ouvidos. Telefonei para Elisa, que atendeu ao mesmo tempo alegre e constrangida. Falei: me espere, estou chegando. Deixei Pietro e as meninas com meu pais e fui a pé.
O bairro me pareceu ainda mais degradado: prédios descascados, a pavimentação das ruas esburacada, imundície. Pelos cartazetes tarjados de preto que forravam os muros — nunca tinha visto tantos —, fiquei sabendo que o velho Ugo Solara, avô de Marcello e Michele, tinha morrido. Como a data atestava, o fato não era recente, remontava a pelo menos dois meses antes, e as frases grandiloquentes, os rostos de virgens dolorosas, o próprio nome do morto se mostravam desbotados e sem bordas. No entanto os avisos fúnebres continuavam pelas ruas como se os outros mortos, por respeito, tivessem decidido sumir do mundo sem que ninguém tomasse conhecimento. Topei com muitos deles até na entrada da charcutaria de Stefano. Estava aberta, mas me pareceu uma fenda no muro, escura, deserta; Carracci apareceu ao fundo, de avental branco, e desapareceu como um fantasma.
Rumei na direção da ferrovia, passei na frente da loja que antigamente chamávamos de a charcutaria nova. A porta abaixada, parcialmente fora dos trilhos, estava enferrujada e emporcalhada por dizeres e desenhos obscenos. Toda aquela parte do bairro parecia abandonada, o branco resplandecente de antes se tornara cinzento, em certos pontos o reboco cedera e dava a ver os tijolos. Passei em frente ao prédio onde Lila tinha morado. Das arvorezinhas mirradas daquela época, poucas haviam sobrevivido. Uma fita preta para embalagens protegia a rachadura no vidro do portão de entrada. Elisa morava bem mais no alto, numa área mais conservada, mais pretensiosa. O porteiro, um homenzinho calvo com finos bigodes, pôs a cara para fora e me perguntou hostil quem eu procurava. Não soube o que dizer, balbuciei: Solara. Ele assumiu um ar deferente e me deixou entrar.
Somente no elevador me dei conta de que eu tinha deslizado como que por inteiro para trás. O que teria me parecido aceitável em Milão ou em Florença — a livre disponibilidade feminina do próprio corpo e dos próprios desejos, uma relação fora do casamento —, ali, no bairro, me parecia inconcebível: o que estava em questão era o futuro de minha irmã, não conseguia me acalmar. Elisa tinha montado uma casa com uma pessoa perigosa como Marcello? E minha mãe estava contente? Ela, que ficara furiosa porque eu me casara no civil, e não na igreja; ela, que considerava Lila uma vagabunda porque convivia com Enzo, e Ada, uma grande puta, porque se tornara a amante de Stefano; ela aceitava que sua filha caçula dormisse com Marcello Solara — uma má pessoa — sem ter se casado? Tinha pensamentos desse tipo enquanto subia para ver Elisa, além de uma raiva que eu considerava justa. Mas a cabeça — minha cabeça disciplinada — se sentia confusa, não sabia a que argumentos poderia recorrer. Aos mesmos argumentos a que minha mãe teria se apegado até uns anos atrás se eu tivesse feito uma escolha do gênero? Então eu regrediria a um nível que ela mesma já tinha superado? Ou diria: vá morar com quem quiser, mas não com Marcello Solara? Falaria assim? Mas quando que hoje, em Florença, em Milão, eu teria forçado uma garota a abdicar de seu homem, não importa qual, por quem ela estivesse apaixonada?
Quando Elisa abriu a porta, lhe dei um abraço tão forte que ela murmurou, rindo: está me machucando. Senti que ela estava alarmada enquanto me acomodava na sala de estar — uma sala pretensiosa, toda tomada de sofás e de poltronas floridas, com espaldares dourados —, e começou a falar sem parar, mas de outras coisas: como eu estava bem, que lindos brincos eu estava usando, que belo colar, como estava elegante, tinha tanta vontade de conhecer Dede e Elsa. Descrevi as sobrinhas para ela com entusiasmo, tirei os brincos, disse que os provasse na frente do espelho, dei-os para ela de presente. Percebi que ela se desanuviava, riu, murmurou:
“Tive medo de que você tivesse vindo para me recriminar, para dizer que era contrária à minha relação com Marcello.”
Fixei-a por um longo instante e disse:
“Elisa, eu sou contrária. E fiz essa viagem justamente para dizer isso a você, a mamãe, a papai e aos irmãos.”
Mudou de expressão, os olhos se encheram de lágrimas.
“Agora você me deixou triste: por que é contrária?”
“Os Solara são gente ruim.”
“Marcello, não.”
Desandou a falar dele. Disse que tudo começara quando eu estava grávida de Elsa. Nossa mãe tinha ido morar comigo, e ela se viu com todo o peso da família sobre ela. Uma vez em que tinha ido fazer compras no supermercado dos Solara, Rino, o irmão de Lila, disse que, se ela deixasse a lista das coisas com ele, mandaria alguém levá-las em casa. E, enquanto Rino falava, notou que Marcello lhe fazia um sinal de longe, como se dissesse que ele mesmo dera aquela ordem. Desde então ele passou a rondá-la, enchendo-a de gentilezas. Elisa disse a si mesma: é velho, não gosto dele. Mas ele se tornara cada vez mais presente em sua vida, sempre bem-educado, nunca houvera um gesto ou uma palavra que lembrasse as coisas odiosas dos Solara. Marcello era realmente uma pessoa direita, que passava segurança, e tinha uma força, uma presença, que o faziam parecer um gigante. Não só. A partir do momento em que seu interesse por ela ficou claro, a vida de Elisa mudou. Todo mundo, no bairro e fora dele, começou a tratá-la como uma rainha, todos passaram a lhe dar importância. Era uma sensação maravilhosa, com a qual ainda não se habituara. Antes — me disse — você não é ninguém, e logo depois até os ratos da sarjeta te conhecem: claro, você escreveu um livro, é famosa, está habituada a isso, mas eu não, fiquei de queixo caído. Tinha sido emocionante descobrir que não precisava me preocupar com mais nada. Marcello pensava em tudo, cada desejo seu para ele era uma ordem. Assim, quanto mais o tempo passava, mais ela se apaixonava. Até que finalmente lhe disse sim. E agora, se passava um dia sem vê-lo ou ouvi-lo, ficava a noite inteira acordada, chorando.
Compreendi que Elisa estava convencida de ter tido uma sorte inimaginável e vi que eu não teria condições de estragar toda aquela felicidade. Tanto mais que ela não me deixava brechas: Marcello era capaz, Marcello era responsável, Marcello era lindo, Marcello era perfeito. A cada palavra que pronunciava, tomava todo o cuidado de distingui-lo da família Solara, ou então falava com discreta simpatia ora da mãe dele, ora do pai, que estava péssimo de estômago e quase não saía mais de casa, ora da boa alma do avô, ora até de Michele, que, ele também, ao frequentá-lo, parecia diferente de como as pessoas o julgavam, era muito afetuoso. Por isso, acredite em mim — me disse —, nunca estive tão bem desde que nasci, e mamãe também — e você sabe como ela é, está sempre do meu lado —, até papai; e Gianni e Peppe, que até pouco tempo atrás passavam o dia sem fazer nada, agora Marcello os utiliza pagando super bem.
“Se as coisas estão assim, então se casem.”
“Vamos fazer isso. Mas agora não é um bom período, Marcello me disse que precisa resolver vários negócios complicados. Além disso, há o luto pelo avô, que, coitadinho, estava com a cabeça no mundo da lua, não se lembrava nem de como se andava, como se falava, Deus o libertou ao levá-lo. Mas assim que as coisas se ajeitarem vamos nos casar, não se preocupe. De resto, antes de partir para o casamento, é melhor ver se a vida juntos dá certo, não é?”
Passou a usar palavras que não eram as dela, palavras de garota moderna aprendidas nos jornalecos que lia. Comparei-as com as que eu teria dito sobre aqueles mesmos assuntos e me dei conta de que não eram muito diferentes, apenas as palavras de Elisa soavam um pouco mais toscas. Rebater com quê? Não sabia desde o início daquele encontro, e continuava não sabendo agora. Poderia ter dito: não há muito que discutir, Elisa, já está tudo claro, Marcello vai consumi-la, vai se habituar a seu corpo e abandoná-la. Mas eram frases que soavam velhas, nem mesmo minha mãe se arriscaria a pronunciá-las. Por isso me resignei. Eu tinha ido embora, Elisa tinha ficado. O que eu seria se também tivesse ficado? Que escolhas teria feito? Eu não gostava também dos jovens Solara quando era menina? De resto, o que eu tinha ganhado indo embora? Nem sequer a capacidade de achar palavras sábias para convencer minha irmã a não se arruinar. Elisa tinha um rosto bonito, muito delicado, e um corpo sem excessos, uma voz macia. Eu me lembrava de Marcello alto, bonito, o rosto quadrado de uma tez saudável, musculoso, capaz de sentimentos de amor intensos e duradouros: dera demonstrações disso quando se apaixonara por Lila, e não se tinha notícias de que desde então tivesse tido outros amores. Sendo assim, o que dizer? No final ela foi buscar uma caixa e me mostrou todas as joias que Marcello lhe dera de presente, objetos diante dos quais os brincos que eu tinha dado a ela eram o que eram, ninharias.
“Tome cuidado”, disse a ela, “não se perca. E se precisar, me telefone.”
Fiz que ia me levantar, e ela me interrompeu, rindo.
“Aonde você vai? Mamãe não lhe disse? Todo mundo está vindo jantar aqui. Preparei um monte de coisas.”
Demonstrei contrariedade:
“Todo mundo quem?”
“Todos: é uma surpresa.”
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