Ultra Carnem
Parte I: O Abandono
PARTE I
O ABANDONO
“De todos os lados somos pressionados, mas não
desanimados; ficamos perplexos, mas não
desesperados; somos perseguidos, mas não
abandonados; abatidos, mas não destruídos.”
2 C ORÍNTIOS 4:8-9
1
Dom Giordano não gostava do que via. Ele amava crianças, Deus sabia que sim, mas aquele menino… Aquele garoto e seus pequenos olhos verdes não refletiam juventude. Giordano sacudiu levemente a cabeça, encontrando um quadro de Jesus Cristo preso à parede. A função de um padre não era julgar, nunca foi. Sua missão era fazer o melhor que pudesse com aqueles pobres desafortunados.
Encontrou o menino recolhido a um canto mais escuro da sala, a cabeça colada no queixo, os olhos fixos em algo que trocava entre as duas mãos pequenas e sujas. À distância segura de dois metros, a velha cigana que o trouxera estudava as expressões do padre. Como feito desde sua chegada naquele lugar, ela evitava pousar seus olhos no menino.
A casa sob a responsabilidade de Dom Giordano ficava em uma cidade interiorana chamada Três Rios, em um tempo em que bestas movidas a gasolina começavam a aparecer e causar os primeiros acidentes, enquanto substituíam as velhas carroças enferrujadas que circulavam pelo centro. No casarão, outras nove crianças faziam companhia ao padre — além de Suzana, uma boa alma que aceitara o emprego e levava o celibato a sério.
Com um suspiro, Giordano acenou brevemente a cabeça para sua estranha visitante. Mais estranho ainda era o fato de ela trazer-lhe uma criança. Ciganos eram reconhecidos como enigmáticos, ladrões e perigosos, mas sua maior característica era a arrogância. Portanto, não era natural que trouxessem um dos seus até o seio de uma instituição católica, mesmo um órfão, como provavelmente aquele garotinho era. Em um sinal de paz, Dom Giordano estendeu a mão para a velha cigana. Ela ergueu o braço sacolejando suas joias. Apertou seus olhos enrugados e os dedos do padre.
— Iolanda — disse ela, se apresentando.
— O que a traz aqui em uma noite de tanta chuva?
Perguntas redundantes, tão necessárias quanto as palavras em latim recitadas durante as missas e a educação que aqueles pequenos esqueceriam assim que deixassem o orfanato. Rituais: porque disso o mundo também era feito.
— Ele me traz aqui. É meu irmão. Pensei que a mulher tinha dito ao senhor.
Dom Giordano tornou a olhar para a criança. Em vez de considerar aquilo uma piada e sorrir, decidiu perguntar: — Poderia me responder, em nome de Deus, como uma criança tão pequena possa ser seu irmão? Não quero ofendê-la, mas a senhora já passou dos sessenta, o que coloca sua mãe na casa dos… Oitenta? Noventa? Nunca ouvi falar em alguém que gerasse um filho nessa idade.
A cigana baixou o queixo e sorriu entredentes.
— Padres… Existe muita coisa por aí que o senhor não conhece. Mas eu não vim até aqui para discutir sua fé ou a minha. Preciso que fique com a criança. Preciso que faça isso ou eles vão matá-la.
Giordano chegou mais perto sem perguntar muito. Ciganos não costumavam dizer a verdade, então…
Apanhou o queixo do menino e forçou a subida dos olhos até que eles o encarassem. O garoto não relutou. Giordano aproximou seu rosto do dele e se concentrou na mancha azulada, contornada por um verde-lodo, que pendia sob o olho esquerdo do menino.
— Quem fez isso com o pobrezinho?
— Eu não sei, pode ter sido qualquer um. Ninguém quer o menino entre nós, ele está com um djin dentro dele.
Terminada a sondagem do menino, Giordano chegou mais perto da mulher.
— Eu não sei o que é um djin , mas os responsáveis por isso devem responder às autoridades. Entendo que educar uma criança exija certa força física, mas isso? Ele poderia ter ficado cego.
— Garanto que ele enxerga coisas que eu e você jamais sonharíamos em ver. É isso o que um djin permite. Ele abre os seus olhos. Vai ficar com o garoto ou não?
— Não é tão simples, sra. Iolanda. Preciso consultar nossa sede em São Paulo, a paróquia… Existem procedimentos. Eu não posso simplesmente acolher uma criança sabendo que ela possui uma família. Essa é uma casa para órfãos, para os abandonados e desgraçados.
— Ele é um desgraçado. E acabou de ser abandonado.
— Você disse que ele é seu irmão.
— Ele tem uma doença ruim, padre. Não quero mais conviver com isso.
O menino sorriu de soslaio, com uma sutileza que deixava dúvidas se aquilo era mesmo um sorriso. Giordano meneou a cabeça. Como um ser humano — mesmo uma cigana velha e mal-humorada — era capaz de abandonar uma criança indefesa?
— Vai ficar com ele ou não? — Iolanda repetiu.
— E eu tenho escolha?
Em vez de responder, Iolanda olhou para a porta fechada da sala. Do outro lado, os sons das crianças brincando começavam a atrapalhar a seriedade da conversa. O padre pediu um instante a ela e caminhou até a porta. Girou a maçaneta e colocou apenas meio corpo para fora.
— Suzana? — chamou. Precisou repetir outras duas vezes até que a freira vencesse o corredor e chegasse até o padre. Estava um pouco ofegante, seu rosto avermelhado e úmido escapava pelo hábito negro mostrando todos os seus quarenta anos. — Faça esses meninos ficarem quietos. Pelo amor de Deus, o que deu a eles no jantar? Açúcar? Já passa das nove da noite.
— Estão agitados por causa da chuva. As crianças têm medo. E… — esticou o corpo até conseguir avistar o menino — estão curiosas. Nós vamos ficar com ele? — perguntou, observando o menino que permanecia acuado desde que chegara. Suzana foi a primeira a recebê-lo, ele e aquela mulher.
— Cuide para que fiquem quietos, sim?
Suzana obedeceu. Retomou o corredor e foi juntando as crianças que encontrou pelo caminho. Duas estavam a três metros dela, tentando ouvir a conversa. Suzana apanhou a primeira pelo braço — um garoto de cabelos vermelhos — e sem muita resistência a arrastou até o dormitório. Não teve tanta sorte com a seguinte. Ágata resistiu, correu, disse que não iria dormir até que a bruxa fosse embora. Iolanda deve ter ouvido do lado de dentro, mas não ganhou novas rugas por isso. A freira acabou subornando Ágata com um pedacinho de paçoca que trazia consigo. Doces eram úteis com as crianças, tão ou mais que a palmatória.
— Desculpe — Giordano disse, recostando a porta. — Não sei o que deu nelas.
— São crianças, padre. Elas sabem quando alguma coisa não funciona direito no mundo. E eu preciso de uma resposta. Meu povo está deixando a cidade, eles não vão me esperar por muito tempo.
— Existem muitas crianças nessa casa. Temo que não vou conseguir alimentá-lo. Como deve saber, nossa paróquia ainda é pequena, e os órfãos não são benquistos pela gente da cidade.
— Percebo… — disse Iolanda. Em seguida, apanhou algo preso à cintura do vestido verde e brilhante. — Vamos facilitar nossa conversa, padre. Tenho uma quantia razoável aqui comigo, vai pagar os gastos com o menino até que ele tenha idade para decidir por si mesmo.
— Eu não…
Antes que Giordano terminasse a frase, havia uma sacola de couro estendida a ele.
— Pegue, não vai morder.
O tilintar das moedas continuou por algum tempo. Giordano apanhou o volume pesado, avaliou seu conteúdo e sentiu um leve tremor nos joelhos.
— Isso é…?
— Ouro. E tenho mais se precisar.
Uma das crianças escapou de Suzana e chorou do outro lado da porta. Um menino dessa vez. Reclamava que estava com fome e que um dos outros — Leonardo — tinha roubado seu jantar. Logo o padre não o ouvia mais. Todo aquele ouro… Ninguém precisaria ter fome por um bom tempo.
— O que a senhora trouxe é o bastante. Mas não podemos ficar com a criança até que eu tenha autorização da paróquia.
— Estou indo embora, padre. Trouxe dinheiro suficiente para que ele não dê custos ao seu orfanato. Isso é mais que esse menino merece.
Pela primeira vez desde que chegaram, Iolanda olhou para o irmão; seu rosto ficou mais velho e triste quando fez isso. Ela tomou a direção da porta, passou pelo homem de batina e tocou a fechadura. Então, ouviu às suas costas: — Onde posso encontrá-la? Caso aconteça alguma coisa com o menino… Ou pode me dar o endereço dos pais verdadeiros, se não se importar em dizer.
— Você não me encontra. A mim ou ao meu povo. Meus pais também estão longe dessa cidade, no lugar onde o menino os colocou. — Ela já estava virando a maçaneta, apressada em seguir seu caminho.
— Por favor, me diga onde estão!
Iolanda parou de caminhar. Olhou para o teto do casarão e disse, ainda de costas: — No Inferno, padre. No Inferno.