Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 18 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 18

Lester beijou o rosto da estátua e deixou que Suzana tentasse derrubar a porta. A Ciganinha estava pronta. Sua mãe, sua melhor amiga e os desejos que ainda teria. Ele a repousou sobre a cama. Deu um passo à frente e apanhou a obra sangrenta que estava quase finalizada no cavalete. Colocou-a ao seu lado no colchão.

— Já vou abrir — falou a Suzana.

Não pretendia encará-la agora, seria mais fácil pegar todos eles juntos, mas já que a mulher estava com tanta pressa…

Lester apanhou o pincel caído no chão e olhou para suas cerdas vermelhas de tinta.

Em seus materiais também havia uma lâmina que Lester usava para afiar o carvão que servia para traçar o primeiro rascunho de seus quadros. Ele apanhou o metal e fez o que precisava com o pincel. Suas mãos prodigiosas não encontraram dificuldades. Suzana começou a forçar a madeira de novo. Lester caminhou até a porta e a abriu com uma leve torção do punho direito na maçaneta.

A freira praticamente mergulhou no quarto, o hábito esvoaçando em atrito com o ar. Antes de notar Lester ou procurar por Ágata, ela pousou os olhos naquela estátua abominável sobre a cama. Ah, sim. E a estátua também a viu.

— Mãe de Deus! — Levou as mãos ao peito. Pressionou uma contra a outra com força. Os pulmões respiravam depressa, dando ao corpo o conhecimento de que seria atacado. Mas o corpo, idiotizado e carnal, não conseguia vencer a curiosidade. Suzana manteve os olhos na estátua e deu um passo à frente. Pelo canto dos olhos, sabia que o menino estava ao seu lado. Trataria com ele logo depois de ver de perto aquela indecência blasfema. Não bastasse a imagem da cigana, que agora parecia uma mulher de verdade em miniatura, a coisa ainda piscou os olhos.

Antes que decidisse se afastar e desaparecer daquele quarto imundo, algo ainda mais assustador a tomou de assalto. Suzana sentiu uma pressão pontiaguda nas costas. Suas forças drenaram em segundos. Confusa, tentou respirar. O diafragma rejeitou o esforço e expeliu algo líquido de volta. A mulher caiu de joelhos e molhou suas mãos com o que saiu da boca. Olhou para a mancha vermelha e densa. Então, sentiu outro golpe, miseravelmente preciso em acertar o outro pulmão. Sem fôlego, ela ainda conseguiu girar o corpo e agarrar seu agressor pela camisa. Lester continuou empunhando o pincel transformado em agulha. Suas mãos continuaram subindo e descendo, perfurando e lacerando, até Suzana implorar clemência aos anjos do Céu. Se ela soubesse que Lester tinha um canivete no mesmo quarto, talvez se perguntasse por que motivo ele preferiu usar a madeira, e ele talvez explicasse que o metal vulgar não serviria ao oculto com a mesma pureza da madeira. Em seu último fio de vida, a freira deixou o menino amaldiçoado e tentou alcançar a estátua. Lester a trouxe de volta com uma perfuração na nuca.