Ultra Carnem
Capítulo 2
O menino continuou no canto direito da sala, em frente a uma mesa de cerejeira, enquanto o padre averiguava seus poucos pertences trazidos pela cigana. Estavam em uma mala cujo couro começava a partir. O menino não olhava para Giordano. Continuava recostado à parede, sentado, concentrado em suas mãos. Desde sua chegada, deve ter olhado diretamente para o padre uma ou duas vezes, mas não falou com ele.
Na mala havia roupas, dois pares surrados de sapatos e uma carta. Dom Giordano apanhou o envelope, colocou os óculos que estavam em seu peito, amparados por uma correntinha de prata, e leu, sem demonstrar surpresa ou comoção.
— Wladimir Lester. É esse o seu nome?
O menino suspirou um pouco do cansaço do dia e isso foi tudo.
— Nós precisamos conversar em voz alta. Não consigo ler seus pensamentos, filho.
O padre manteve a carta nas mãos e chegou um pouco mais perto do menino, que se encolheu ainda mais e ergueu os joelhos à frente do corpo.
— Não vou lhe fazer mal. Não somos selvagens como o seu povo. Mas você vai descobrir isso, certo? Sabe, Lester, existem mais crianças nessa casa, muitas delas. Serão seus amigos, seus irmãos. Somos uma grande família aqui no orfanato. — Tornou a olhar para o menino. Ele ainda estava um pouco úmido por causa da chuva. — E eu conheço algo que vai fazer você se sentir bem melhor, o que acha de um chocolate quente? Posso trazer um agora mesmo, o que me diz?
Como o menino não respondeu, Giordano tentou outra abordagem. O garoto trazia algo nas mãos e, desde que entrara, parecia interessado naquilo e em mais nada.
— Quero ver o que você tem aí.
Mais uma vez o menino se acuou. Colocou as mãos sobre o ventre e apertou o que quer que escondesse entre elas. Dessa vez, encarou Giordano. Os olhos apertados, como dois sóis eclipsados.
— Não vou tomar de você. Só quero ter certeza de que não é perigoso.
O menino relaxou os ombros, mas não muito. Giordano conhecia o motivo. Crianças abandonadas são como animais selvagens, não demonstram amor, empatia ou confiança. É só depois de alimentá-los e oferecer-lhes algum conforto que tudo muda.
— Tenha calma, meu filho. Só quero dar uma olhada.
As mãos suadas do menino deixaram o ventre e continuaram unidas. Lester as colocou em frente ao rosto, abaixo do nariz, e olhou para o padre por cima delas.
— Vai me devolver?
— Prometo que sim. Só quero ver o que é.
Lester começou a esticar os braços lentamente. As mãos seguiram firmes na direção de Giordano e depois se afastaram uma da outra. A direita logo foi aberta, mas era a esquerda que escondia o segredo que tanto valia para aquele menino. Ele olhou mais uma vez para o padre, talvez testando sua confiança. Então, abriu a mão esquerda.
— O que é isso? — Giordano não pegou o segredo , não o faria até que o menino estivesse pronto para cedê-lo a ele.
Parecia um tubo de ensaio. Cerca de sete centímetros de vidro, tapado com uma rolha de cortiça. Seu conteúdo era algo muito vermelho, e líquido como água.
— Posso ver nas minhas mãos?
Lester torceu levemente o pescoço. Ergueu um pouco a sobrancelha esquerda.
— É minha tinta — ele disse. Em seguida, esperou que o padre tomasse o tubinho.
Giordano o levou para perto dos olhos, colocou o objeto entre eles e a luz mortiça do candelabro do teto. Vergou o tubinho para checar a consistência do líquido em seu interior.
Não negaria que sua primeira impressão é de que aquilo fosse sangue. Era tão vermelho, tão atraente. Além disso, estava quente depois de tanto tempo nas mãos do menino. Foi só depois de vergar o tubo algumas vezes que mudou de ideia.
— Vinho? O que uma criança tão pequena faz com vinho?
Do lado de fora, um trovão ribombou. Alguns meninos gritaram do outro lado da porta. O som chegou bem baixinho; deviam estar todos no dormitório. Lester não demonstrou aversão alguma pelo brilho fantasmagórico que iluminou as janelas ou pelo estrondo que se seguiu. Ele só parecia preocupado com o objeto nas mãos do padre. Era quase um cão que espera seu brinquedo preferido ser devolvido pelo dono.
— Não é vinho — ele respondeu. — Eu já disse que é uma tinta, minha tinta especial.
— Presente dos seus pais?
O garoto deu de ombros. De certa forma, o padre estava certo. Mas Lester não diria isso a ele.
— Eu gosto de pintar.
— Então gosta de desenhos?
— Odeio desenhos. Isso é coisa de mariquinha. Eu gosto de pintar. Gosto de colocar as cores em um quadro, entendeu?
— Ah, claro. Sou um padre abobalhado mesmo… Quer dizer que temos um artista entre nós? Deus, eu devia estar contente! Sabe o que minha mãe dizia sobre os artistas? Sobre os pintores?
Lester fez que não.
— Mamãe dizia que eles estão mais perto de Deus. Ela acreditava que nossa alma guarda todos os talentos e que alguém capaz de produzir uma obra de arte falava diretamente com o Senhor.
— Eu gosto de pintar. Me devolve? — pediu.
Giordano apreciava o peso do tubinho. A cor dentro dele. Era bonito, mas não era só isso. Também podia ser perigoso. Mesmo que o líquido em si não fizesse mal algum, o recipiente onde estava contido era feito de vidro. Crianças assustadas costumam fazer besteiras umas com as outras. Ainda assim, ele cedeu o frasco de volta a Lester. Não era uma boa ideia quebrar um laço de confiança no primeiro contato. E de qualquer forma, nos próximos dias, seus olhos estariam sobre o menino, evitando qualquer acidente.
— Eu disse que devolveria.
Lester o apanhou e, ainda sentado, esticou as pernas. Colocou o tubinho no bolso da frente, mas não sem antes envolvê-lo com um lenço de tecido verde. Tecido cigano, brilhante demais, atraente demais.
— Meu nome é Giordano, filho. Mas se quiser me chamar de padre como os outros meninos, não me oponho. Alguns me chamam de pai — disse o padre, oferecendo a mão para Lester.
Lester estendeu a mão direita e devolveu o cumprimento. Suas mãos eram frias como aço. Ele olhou ternamente para o homem à sua frente e disse: — Acho que quero aquele chocolate.