Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 3 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 3

Quase uma hora mais tarde, Dom Giordano ainda não tinha conseguido convencer o menino a sair de onde estava. Lester tomou o chocolate, mas depois disso não voltou a concordar com coisa alguma. Estava sentado à mesa agora, em uma cadeira de frente para o padre. Giordano não se importou que o menino ficasse por lá enquanto ele terminava de colocar suas anotações no livro de atas do orfanato. O registro escrito não era uma obrigação, mas o ajudava a manter a agenda em dia. Sua cabeça estava cheia demais. Seu corpo tinha pouco mais de cinquenta anos, mas seus órgãos e sua musculatura não sabiam disso.

— Agora vamos ler um pouco da palavra de Deus — disse. Fechou o livro de atas e apanhou outro de dentro de uma gaveta. Era uma Bíblia, com capa de couro e detalhes dourados na capa e nas bordas das páginas. Mostrou ao menino na ilusão de que o brilho metálico despertasse seu interesse. Ciganos eram pagãos, mas se o menino ficasse no orfanato seria evangelizado. — Por que não chega mais perto e me acompanha em uma leitura?

— Seu Deus não escreveu esse livro — Lester disse.

Giordano apertou o braço direito da cadeira com os dedos. Respirou mais fundo.

— Não in persona , minha criança. Mas Ele orientou os homens para que fizessem isso. Nós os chamamos de profetas. São pessoas boas que alcançaram a iluminação e conheceram os planos do Senhor.

— Eu acho que se Deus tivesse alguma coisa para dizer não escreveria em um livro.

Outro suspiro de Giordano. Aqueles diabinhos eram espertos.

Por sorte, não eram mais espertos que um padre católico.

— Chamamos de inspiração, Lester. Diga-me, você nunca teve uma boa ideia sem que soubesse de onde ela veio? Nunca se pegou tentando resolver um problema quando de repente — estalou os dedos — a resposta apareceu bem na sua frente?

— Não sei…

— Tenho um exemplo melhor. Seus desenhos, seus quadros , como você diz. Eu não cheguei a vê-los, mas não duvido que sejam bons. De onde você pensa que vem a ideia? Elas não surgem do nada, do ar. Ideias são milagres de Deus, Lester.

— O meu povo não acredita nisso. Eles dizem que os espíritos trazem as ideias quando nós merecemos.

— O mesmo povo que deixou você aqui? — perguntou o padre.

Cristianismo não se ensina com carinhos. A religião é uma estrada reta e dura, e muitas vezes, imposta. Giordano continuou: — Eu não daria ouvidos ao que eles disseram. Nós vamos cuidar de você, Lester. E você vai amar a Deus sobre todas as coisas, vai amar mais a Deus do que a si mesmo.

— Mais do que eu amava minha mãe?

Pergunta difícil. Giordano ouvia os órfãos falando de suas mães o tempo todo, mas nunca era fácil. Acabou descarregando rapidamente o semblante.

— É muito difícil amar alguém mais do que a própria mãe. Porém, Deus nosso Senhor pede um amor diferente. Você vai aprender a amá-lo.

O menino bocejou sem tentar controlar o ruído. Os olhos pesaram um pouco.

— Não precisamos ler a Bíblia hoje. Você está cansado, teve um dia estranho, precisa dormir um pouco. Amanhã conversaremos a respeito. Quando você acordar vai tomar café da manhã e conhecer as outras crianças. Hoje você dorme no quarto número oito, o único que tem só uma cama. Fica bem perto do quarto da madre Suzana e ela estará atenta se você precisar de alguma coisa.

Lester tornou a bocejar e finalmente concordou em sair da sala. Apanhou sua mala fazendo um esforço enorme para suportar o peso sozinho e esperou junto à porta vermelha. O padre trancou suas gavetas, apagou o candelabro do teto com um longo artefato de metal com um copinho na ponta e tomou a saída. Os passos foram diminuindo pelo corredor enquanto Lester arrastava sua mala pelo chão.

Lá fora, Deus disse algo barulhento nos céus.