Ultra Carnem
Capítulo 6
— Mamãe? Mãe, acorda! — ela gritou, ainda presa em sua infância. Diante de seus olhos, sua mãe estava deitada sobre a cama grande onde à noite dormia com papai. Seu rosto estava enorme, seu peito não se movia para cima e para baixo. Havia um cheiro ruim dentro do quarto — mais tarde, alguém diria que aquilo era éter. Lucrécia apanhou o braço que caía para fora da cama e começou a sacudi-lo. Alguém a arrastou dali e disse que era tarde demais. Ela resistia e mantinha os pés no chão; tinha tanto para dividir com a mãe… Ela ainda era nova demais para viver sem mãe, era nova demais para qualquer coisa!
Lucrécia sentiu uma leve tontura, depois perdeu o corpo em queda livre. Abriu os olhos e tornou a fechá-los. Não conseguiu mantê-los abertos em um primeiro instante. Havia uma luz amarelada muito forte ameaçando cegá-la. Na segunda tentativa, a luz havia ido embora. Em seu lugar, reconheceu penumbra e um cheiro defumado que tomava conta de tudo.
— Até que enfim está acordada, pensei que fosse dormir para sempre — disse uma voz feminina. Lucrécia não tentou reconhecê-la, seria inútil com o torpor que a tomava por completo.
— Que lugar é esse? Ainda estou sonhando? — perguntou. Tentou se levantar do que parecia uma poltrona de couro, mas o peso do próprio corpo a trouxe de volta.
— Nada de sonhos, queridinha. Você está sã e salva. No Inferno .
Dessa vez, a adrenalina fez sua parte e Lucrécia conseguiu se sentar. Sentiu uma fisgada na musculatura da perna. Cambaleante, deixou a poltrona e se apoiou na parede mais próxima. Começou a andar em frente, em passos sofridos, seguindo na direção de um pequeno facho de luz que escapava pela soleira da porta do lugar ao qual estava confinada. Sua perna não ajudava em nada. Alguém fez um curativo e enfaixou, mas, a cada passo, o osso parecia tentar voltar para fora da carne.
— Que merda está acontecendo aqui? Quem é você? — Lucrécia estava confusa. Tinha avançado pelo menos seis passos, mas a luz da soleira continuava se afastando dela. E havia algo de errado com aquelas paredes.
— Pode me chamar de 150.030. Sou sua melhor amiga a partir de agora.
As luzes voltaram a brilhar em seguida. Nada muito forte, apenas um lustre de três lâmpadas, fracas como velas, preso no teto. A claridade iluminou o rosto da mulher. Aparentava ter mais ou menos a idade de Lucrécia. Era mais alta e mais loira. Metade do rosto estava coberto por mechas de seu cabelo comprido.
— Eu não sei quem você é, e para ser sincera, estou me lixando. Quero saber quem foi o babaca que me trouxe para cá. E também quero falar com o responsável.
A mulher loira suspirou. Deu dois passos em direção a Lucrécia e, enquanto polia as unhas com algo que tirou do bolso da calça social cinza que vestia, respondeu: — Não abuse da sorte, querida. Quem trouxe você até aqui foi o dono desse lugar. Não consigo imaginar o que ele viu em você, mas aprendi há muito tempo a não discutir com o Lu.
— Então… Foi de verdade? O que aconteceu no bar e…
— Tão de verdade quanto a ferida em recuperação em sua perna. Acredite, Lucrécia, existem muitas maneiras de vir parar aqui em baixo, você deveria estar agradecida — meneou a cabeça, torcendo os lábios vermelhos. — Algum espertinho me encarregou de mostrar o lugar a você. Pelo menos a parte que eu conheço, porque ninguém conhece tudo do Inferno.
— Luzes — disse em seguida. E a luz se fez, tornando as três lâmpadas tímidas bem mais potentes.
Lucrécia recuou um passo quando notou a parede onde estava encostada. Não exatamente a parede, mas o que estava pendurado nela.
A primeira moldura mostrava uma criança chorando. Lucrécia já havia visto aquele quadro antes, como muita gente que nasceu e cresceu nos subúrbios. Eram bem populares até os anos 1990. Ao lado dele, havia outras quatro pinturas. Na parede da frente, outras cinco, e às costas de Lucrécia, bem atrás da poltrona de couro vermelha onde acordara, havia uma obra que ocupava toda a parede. Essa chamou mais a sua atenção — não é todo dia que se vê um quadro constituído de insetos formando um escaravelho.
— Que horror — disse ela, por fim.
— Não, querida. Esse aqui é um dos oásis da realeza. Mas você vai ter tempo de conhecer as outras instalações.
Lucrécia recuou alguns passos, não conseguiria ficar em pé por muito tempo. Voltou até a poltrona de couro e deixou o corpo cair sobre ela. Aproveitou para erguer a perna e avaliar como estava indo seu ferimento — seu vestido largo de garçonete permitiu o movimento. Puxou a atadura de gaze e deu uma boa olhada.
— Caramba, olha só o tamanho dessa cicatriz! E como foi que conseguiram fechar o corte tão rápido?
— Ouça, querida; e ouça bem para não esquecer nunca mais; nada no Inferno é o que parece ser. Você acordou depois de alguns meses, ok? Enquanto isso, o pessoal daqui deu um jeito de recolocar seu osso no lugar. Mas eu não sairia correndo se fosse você.
— Correr? Eu mal consigo andar!
— Eles também pensaram nisso.
A 150.030 deu as costas a Lucrécia e caminhou até a porta. Havia uma bengala negra apoiada na parede. Parecia novinha, até brilhava. Não havia um cabo decente, mas tudo bem; era melhor que andar se escorando nas paredes. E pelo menos tinha um cabo de madeira onde poderia apoiar as mãos.
— Pode usá-la, é sua. Eu até ajudaria você a andar, mas precisamos manter a fama ruim desse lugar. Aliás, você não está aqui para ganhar favores. Pelo que entendi, seu trabalho será oferecê-los.
Lucrécia apanhou a bengala, apoiou-a no chão, testou se resistiria ao seu peso.
— Não pode pelo menos se apresentar direito? Qual o seu verdadeiro nome?
— Não estou autorizada. Se ficar mais fácil para você, pode me chamar de Trinta .
Sem alongar o assunto, Trinta caminhou até a porta e a abriu. Esperou que Lucrécia se acostumasse com a nova bengala. Ela não demorou muito. Depois de dois ou três passos desencorajados, começou a andar com alguma segurança.
Adaptação , pensou Trinta. A vadia é boa nisso.