Ultra Carnem
Capítulo 7
Ao passar pela porta, Lucrécia pensou estar sonhando de novo. A realidade de onde estava agora era o oposto da sala onde acordara. Nada de paredes limpas, nada de temperatura amena, nada de quadros enfeitando as paredes e nada de silêncio. Quando a porta às suas costas se fechou, Lucrécia viu-se de frente para um enorme corredor, com paredes feitas de rocha. O teto era alto e feito de cimento, havia luminárias fluorescentes chiando, algumas piscavam sem parar. Lucrécia também notou escavações nas rochas. Dentro delas, corpos humanos cinzentos pareciam hibernar a cada três, quatro metros. E essa não era a pior parte. Entre as catacumbas verticais, havia celas dos dois lados. Um cheiro de urina e suor recendia pelo ar viciado, todo o som era resumido a um homem chorando e goteiras. Lucrécia olhou para o chão, depois de falhar no primeiro passo. Bateu sobre a superfície com a nova bengala.
— Pedras. Que lugar é esse?
— Primeiro nível. Onde todo vagabundo esfarrapado acaba. O chefe não gosta muito daqui, mas ele reconhece sua utilidade. O tipinho de gente que cai nesse buraco não serve para nada. O grande interesse deles é ficar aqui remoendo o passado. Para sempre. Lar dos inúteis, querida.
Lucrécia escolheu a direita — o cheiro que vinha da esquerda era um pouco pior. No terceiro passo, mais um pouco de azar. Seu vestido farfalhou com a corrente de vento e acabou tocando em uma das poucas grades abertas. Lucrécia o recolheu depressa, mas já era tarde. Estava manchado com ferrugem. Bem, marrom como estava, era melhor pensar em ferrugem…
— Não podiam ter trocado essa porcaria de vestido? Eu ainda pareço uma garçonete.
— Faz parte do ritual de entrada. E você deveria nos agradecer. Não é todo mundo que tem uma roupa para usar no Inferno. Eu mesma, quando caí aqui, além de nua, fui colocada junto com um bando de demônios tarados, os íncubos. Acho que fiquei uns seis anos sendo rasgada e recosturada. Minha menina ainda dói quando me lembro disso. — Ela se perdeu por um breve instante, mergulhando os olhos na infinidade de celas à frente. — Mas eu mereci, sabe? Uma coisa que você logo vai aprender por aqui é que todo mundo merece o que recebe.
— Prefiro pular essa parte, Trinta. — Lucrécia caminhou mais alguns passos, a perna parecia melhor enquanto se movimentava.
O choro masculino ainda ecoava pelo corredor, entretanto, ela não via ninguém além daquela mulherzinha azeda.
— Por que tantas celas vazias? — perguntou Lucrécia quando passou pela sexta jaula. — Pensei que o Inferno fosse bem mais cheio…
— Tivemos nossa época de ouro, ou é o que dizem. Eu não estou aqui há muito tempo, então… O que eu sei vem dos demônios que soltam a língua depois de comerem um pouco da sua carne.
— Ei! — Lucrécia parou de andar. — Eu não quero ninguém mastigando minha pele!
— Garota… Não é muito diferente do que fazíamos lá em cima. Eu conheço a sua ficha, sei sobre o que você aprontou quando a grana estava curta. Não é muito diferente da prostituição, sabe? Nós damos o que eles querem, nossa pele cresce de novo, a única diferença é que ninguém aqui embaixo vai se achar melhor do que você por causa disso. Mas respondendo melhor à sua pergunta, o Inferno anda vazio, principalmente nos níveis mais rasos. Dizem que esse é um dos motivos para trazerem você para cá.
Continuaram caminhando. Lucrécia sentia a perna machucada formigar um pouco, o que por um lado era bastante útil, já que a dor deixava de incomodá-la. O choro masculino estava mais forte. Ocasionalmente, o homem urrava. Lucrécia começou a não gostar.
— Por que esse coitado grita tanto? Estão comendo a carne dele?
— De certa forma — Trinta respondeu. Havia um sorrisinho pernicioso em sua boca, daqueles que sua avó tem no rosto quando você é criança e insiste em experimentar pimenta. — Ele foi condenado ao verme que nunca morre.
Notando que Lucrécia não conhecia a história, Trinta explicou.
— Está escrito na Bíblia, o filho do homem do Céu profetizou a lenda. Lu deve ter ficado uma fera. Antigamente, ele gostava de manter segredo. Hoje em dia é o oposto, quanto mais falarem do Inferno, melhor.
— Mas as pessoas têm medo desse lugar.
— É… E o medo é bem mais produtivo que a descrença. O Inferno, queridinha, é como o que seus olhos mostram. Você precisa ver para acreditar que existe. Às vezes é como um espelho, você se move e ele se move de volta. Quando alguém não crê no Inferno, vai para outro lugar. Nem o patrão de cima ou o Lu aqui embaixo fazem questão dessas almas. Elas ficam no limbo, apodrecendo para todo o sempre, esperando a porcaria do Juízo Final que nunca vai chegar.
Caminharam mais um pouco, passando por vários daqueles entalhes humanos nas paredes. Alguns respiravam, outros estavam com os olhos abertos, nenhum deles dizia nada.
Pararam de andar quando Lucrécia viu um homem com a camisa manchada do lado do coração se apoiando nas grades. Se ele não estivesse no Inferno, estaria morto como de fato parecia. Seus olhos estavam embaçados, a parte da pele livre das roupas assumia um tom esverdeado. Ele respirava através de um tubo de caneta espetado na garganta edemaciada. Chiava um bocado. Lucrécia parou em frente à cela.
Trinta cuspiu sobre o homem, apanhou a bengala de Lucrécia e o golpeou nas mãos que se agarravam às grades para que se afastassem.
— Quem é ele? — Lucrécia perguntou, enquanto o homem tornava a se reaproximar. Ela notou que ele tinha uma mochila presa em suas costas.
— Pergunte você mesma. Ele ainda pode falar, apesar de ter furado a porcaria da garganta para conseguir respirar.
— Meu nome é Nôa.
— Por que veio parar aqui? Qual foi o seu crime?
Nôa sorriu e ajustou o tubinho de acrílico.
— Eu não devia precisar disso. Estou morto, não estou? Isso é tortura, pô! Até quando vão me manter aqui dentro?
— É só o começo, monte de lixo — disse Trinta. — Vamos, chega de perder tempo com ele. — Devolveu a bengala à Lucrécia.
— Me ajuda, moça — Nôa pediu a Lucrécia.
Trinta riu do desespero do homem e continuou caminhando. Lucrécia a seguiu. As duas avançaram, até que Nôa desistiu de chamar por elas. O som de choro continuava e Lucrécia percebeu que não vinha daquele homem. Pensava no que encontraria mais à frente. Não sentia a menor vontade de descobrir. Trinta ainda tinha algo a dizer sobre o homem chamado Nôa.
— O safado cometeu a maior injúria de todas.
Andaram mais dois passos sem que Trinta continuasse a explicação.
— Não vai me dizer o que é? — Lucrécia pressionou.
— Ele tentou enganar o chefe. Garota, Lu pode ter todos os defeitos do Universo, mas se você souber caminhar com ele, não terá problemas no Inferno. O bonitão ali atrás tentou roubar algo que pertencia ao chefe. Magia cigana, do tipo que não existe mais no andar de cima. Ele ficou furioso. Antes da cela, Nôa passou um tempinho no segundo nível, onde os demônios ateiam fogo em você a cada duas horas. Acho que o chefe só o trouxe para cá para que não desaparecesse .
— E o que aconteceu com a vida eterna?
— Nada é eterno, querida. Se uma alma for castigada demais e por muito tempo, sua essência fica tão fraca que pode desaparecer. Acho que o chefe não queria isso para o nosso amigo, Nôa. Penso que ele ainda precise sofrer alguns milhares de anos, ou quem sabe Lu tenha outros planos para ele? O Diabo sempre tem um plano, sabe? — piscou o olho que estava livre da mecha de cabelo.
O som de choro estava mais alto e mais próximo. Lucrécia calculou que depois de três ou quatro celas chegariam até sua origem. Antes, ela tinha tempo para algo que beliscava sua curiosidade.
— Vi os quadros na sala onde eu acordei. O que obras de arte têm a ver com o Inferno? Seu chefe também falou na lanchonete onde eu trabalhava sobre pinturas e esculturas. E alguma coisa sobre uma criança e uma loja cigana. Ele parecia satisfeito com alguém chamado Marcos… Marcos qualquer coisa.
— Cantão é o sobrenome dele, Marcos Cantão. Eu não sei muito sobre o que aconteceu lá em cima, mas o chefe ficou feliz como eu não via desde o Onze de Setembro. O que eu ouvi veio da “rádio peão” — sim, ela também funciona aqui no Inferno. Parece que um menino cigano criou a tal tinta, e eu sei que o chefe precisa dela para ampliar os negócios. É aí que o nosso amigo Nôa, ali atrás, entra na história. Ele tentou tomar a tinta para si. Mas o que eu não sei ainda é qual é o seu papel nesse projeto. Como eu disse, eles só me mandaram mostrar o primeiro andar. E eu não gostei nadinha disso.
— Não tenho certeza se eu quero descobrir o que tem ali. — Lucrécia disse a dois passos da cela 68. Trinta a deixou ir em frente, observando e sorvendo suas inquietações.
Enquanto se aproximavam pelo corredor, os gritos do homem abafaram um segundo som, Lucrécia podia ouvi-lo agora. Vinha de um bebezinho, uma menininha. Ela estava sem roupas, em um canto, olhando para um homem sentando que se mantinha de costas para a entrada da cela.
— Um bebê? Como ousam manter um bebê nesse chiqueiro? Crianças não tem pecado!
— Depende… Essa aí não foi batizada. Além disso, a menina foi gerada de uma maneira muito especial .
— Chega dessa merda, quero ela fora dessa jaula! Agora! — Lucrécia disse, e empunhou a bengala na direção de Trinta. A mulher se esquivou e os cabelos descobriram a parte oculta de seu rosto por um segundo. Lucrécia teria notado a deformidade se não estivesse tão furiosa.
— Eu não posso fazer isso — Trinta disse. — Mas se você quiser, a porta está aberta.
Ela pensou bem pouco antes de empurrar a grade.
Os metais chiaram, o homem que chorava ficou quieto. Quando percebeu Lucrécia ao seu lado, já dentro da cela, ele girou o pescoço em direção a ela. A mulher precisou se escorar nas grades para não desmaiar.