Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 32 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 12

Ninguém o viu, mas Nôa só parou de correr quando atravessou a porta ensebada da espelunca onde passaria mais uma noite. Não trocou cumprimentos com a criatura que gerenciava aquela pocilga, apenas pediu sua chave de volta e tomou as escadas. Alguém gemia no primeiro andar, desprezando o que dizem sobre o sexo ser melhor durante a noite. Para Nôa, parecia impossível fazer algo em um calor daqueles que não fosse tomar uma cerveja. O ar quente do interior do hotel o fazia respirar depressa, o oxigênio parecia diluído, consumido.

Estava no segundo lance de escadas quando seu celular tocou dentro da mochila. Nôa avançou outros dois degraus e parou de escalá-los por um instante. Não por causa da droga do celular, mas para respirar um pouco. Suas pernas estavam queimando, ele não se lembrava de ter corrido tanto desde que fugiu da polícia durante os protestos políticos de 2013. Na época, acreditava que o esforço gerava recompensas, que ele podia mudar o mundo.

Apanhou o celular e ameaçou devolvê-lo à mochila, mas não foi capaz de fazer isso ao reconhecer a dona da chamada.

— O que você quer? — falou, sem conseguir disfarçar a irritação. Entre todos os momentos do dia, Liza tinha que escolher justo aquele?…

— Nôa… — respondeu a voz chorosa do outro lado da linha. — O que aconteceu com você? Onde passou a noite?

— Tá tudo bem, Liza. Eu precisava pensar um pouco. Está difícil para mim.

— E não podia pensar aqui? Meu Deus, Nôa! Estamos juntos há anos, você não tem direito de me tratar com uma namoradinha qualquer. Quando volta para casa?

— Liza, olha só, estou no meio de uma coisa importante. Não posso voltar agora, não ainda. Prometo que quando voltar, explico tudo direitinho. Estou perto, Liza, finalmente estou perto de conseguir o que eu quero.

— Dá para ser mais claro, Nôa? Arranjou a porra de um mecenas? Foi isso?

— Você sabe do que estou falando — ele respondeu. Em seguida, tapou o microfone do celular. Um casal nada convencional estava subindo as escadas. O homem careca e desnutrido aparentava ter uns cem anos, a mulher que estava com ele — loira, alta, vinte no máximo, com seios que não nasceram com ela — movimentava a mão esquerda por dentro da calça do velho. Nôa se espremeu ao corrimão e baixou os olhos. Só devolveu o celular ao ouvido quando os gemidos roucos do velho diminuíram.

— Nôa? Tá me ouvindo? Quero saber onde você está! Agora!

— Preciso desligar. Eu estou bem, Liza, e espero que você também fique. Daqui a um tempo, eu volto para casa.

— Nôa, não desliga! Não se atreva a me deixar mais uma noite em claro! Eu vou ligar para a polícia, Nôa! Vou ligar para sua mãe e trocar a porra da fechadura!

— Tchau, Liza. Eu te ligo — disse ele e interrompeu a chamada. Antes que voltasse a tocar, desligou o aparelho no botão lateral e retomou os degraus.