Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 38 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 18

Nôa caminhou os primeiros quinhentos metros olhando para trás a cada vinte ou trinta segundos. Parecia impossível que alguém o estivesse seguindo, mas seu estômago estava cada vez mais fundo. Se o padre Dimitri também tivesse percebido a nota no rodapé do diário de Giordano, a próxima cena seria o “dois mais dois” dos livros medíocres de mistério. Quando chegasse à igreja de São Matias haveria policiais, cães e uma viatura ansiosa para dar-lhe um carona de volta.

Além disso, Acácias era um lugar bem pouco aprazível.

A avenida principal que tomara estava esquecida pela civilização. Não havia casas ou pontos comerciais às suas margens. Terrenos e pastos abandonados pelos animais eram tudo o que se via. Cem metros atrás de onde estava agora, Nôa passou por duas crianças, um menino e uma menina. Ele acenou para os dois, que empinavam pipa em um parquinho com grama crescendo entre as placas de concreto. O menino parou de comandar a pipa e ficou observando. A menina o puxou pelo braço e o levou para longe, para perto de um cachorro poodle com os pelos encardidos. Só voltaram a se aproximar quando Nôa estava longe.

Carros então, nem pensar. O que viu foi um homem em uma charrete, carregando móveis usados, que fingiu não notá-lo no acostamento.

Porém, o que mais incomodava Nôa era outra coisa.

Acácias estava cinzenta, quente, mas também havia no ar uma espécie de sensação . Nôa sentia o peito apertado, uma opressão silenciosa que fazia seus pés se moverem mais depressa do que realmente precisavam para avançar. Não era cansaço o que sentia, era desalento.

Claro que o fato de ele estar fazendo uma estupidez sem classificação na escala das burradas contribuía para sua angústia. Perseguir uma lenda como Wladimir Lester, roubar velhotes e igrejas, rejeitar um relacionamento estável com uma garota que era um prêmio de loteria… No fundo, Nôa sabia que depois de tudo que fizera, Liza o detestaria para sempre, com ou sem dinheiro no banco.

— Até que enfim — falou, notando a estátua do tal posto de gasolina mencionado por Lúcio.

A coisa tinha quase dez metros. Pelo estado do concreto usado para construí-la, era bem velha. Algumas partes, como as mãos, os antebraços e as pernas, estavam verdes, impregnadas por lodo e mofo. Era mesmo um índio, um pobre homem livre enganado, agora condenado a segurar uma Bíblia nas mãos e olhar para o céu por toda a eternidade — ou pelo tempo que aquele concreto durasse. Nôa logo trocou a estátua pelo posto de gasolina ao seu lado.

Uma mulher loira esperava do lado de fora do carro, enquanto o frentista, que nunca teria uma mulher como aquela, enchia o tanque do Chevrolet Cruze. Era um rapaz novo, que não tinha a menor noção de como estava perdendo sua vida atrás daquelas bombas. Graças aos céus, Nôa não era um desses. Sua ambição, sua perfeita compreensão de que um homem não deve — e não pode — viver preso ao calcanhar de outro garantiriam que não morresse na merda. Poderia morrer, sim, mas estaria tentando sair dela. Nôa esperou que o rapaz terminasse o serviço para depois falar com ele. A moça loira deixou o posto lentamente enquanto sintonizava alguma porcaria moderna no rádio.

— Bom dia — disse Nôa.

O rapaz não devolveu o cumprimento, mas girou o corpo em direção a ele. Olhou nas mãos de Nôa, procurando um possível galão vazio. O que alguém tão cansado desejaria quando chega a pé em um posto de gasolina? Ou era gasolina, ou era assalto. Talvez por isso o rapaz tenha concentrado os olhos na mochila logo depois.

— Preciso chegar na igreja de São Matias. Fica seguindo em frente, certo? Estou muito longe?

— Não tá longe, não, moço. Mas o senhor vai perder seu tempo. Tão reformando a igreja. Bom, eu acho que ainda nem começaram, mas o prédio tá interditado. Faz quase seis mêis que ninguém pode entrá lá — o rapaz disse, cheio de sotaque.

— Meu pai dizia que um povo esperto preserva sua história.

— O povo daqui? Moço, eu duvido muito que seu pai ia falar isso se conhecesse alguém de Acácias. Eles tão reformando aquela porcaria para não cair na cabeça de algum coitado. Mas se quiser mesmo chegá nela, é só seguir em frente. O senhor vai passá pela igreja do centro, a de São Matias fica logo depois.

— Onde encontro comida por aqui?

— Tem uma lanchonete aqui mesmo no posto. Não é grande coisa, mas serve para matar a fome. Ou, se o senhor preferir, pode comer no centro da cidade. O pessoal que trabalha na Concor prefere comer por lá. Só os pobres comem aqui.

— Acho que vou arriscar.

O rapaz, que se chamava Hugo — estava escrito em um crachá no seu peito —, apontou a lanchonete. Nôa foi até lá.

Não era mesmo grande coisa, mas parecia bem melhor que o bairro onde acordara pela manhã. O banheiro exalava um pouco de cheiro de urina, mas Nôa escolheu um lugar distante depois de se aliviar — perto da cozinha, onde a chapa e os bacons mantinham a gordura predominante no ar. Pediu um lanche rápido e uma Coca-Cola. Quando terminasse, perguntaria sobre a rota dos ônibus ao rapaz. Suas pernas já começavam a doer de novo.