Ultra Carnem
Capítulo 10
— Lester? Posso entrar?
Três segundos e Giordano tornou a dizer: — Lester?
O silêncio que recebeu em resposta foi o pedido para que o padre girasse a maçaneta de bronze e atravessasse a porta. Encontrou Lester sentado no chão, embaixo da janela. Estava criando algo. O tubinho com sua tinta preferida estava ao seu lado, aberto e apoiado sobre uma meia, em cima da mala de couro. Algo avermelhado e gasoso que escapava pelo recipiente logo se recolheu com a entrada do padre.
As mãos do garoto se moviam depressa e seus olhos estavam brancos. A boca pendia para baixo alongando o rosto.
— Meu Deus, Lester! O que está acontecendo com você?
As mãos continuavam se movendo, de um lado para o outro, hábeis, colorindo o papel com muita força. Os músculos do menino retesados no pescoço, as veias estufadas bombeando sangue para o restante do corpo. Giordano avançou em direção a ele, os pelos de seu braço se eriçando. Chegar perto do menino foi como manusear um cobertor de lã por muito tempo.
— Largue o lápis, Lester! Agora! — gritou.
Os olhos brancos desviaram do papel e encaram o homem que se aproximava. A boca subiu e desceu, quem sabe tentando articular alguma frase. O que saiu, no entanto, foi um sibilo, um assovio de cascavel. Os braços não paravam, as mãos se articulavam, exigindo músculos desconhecidos. A concentração do garoto era tanta que ele chutava com os pés, em um ato praticamente convulsivo. Giordano cruzou o peito pedindo a proteção divina.
— Já chega! — gritou ainda mais alto. Emendou uma tosse seca em seguida, as cordas vocais estafadas com o esforço repentino.
Lester baixou o pescoço e deixou que o cabelo da testa pendesse sobre sua fronte. Os olhos estavam protegidos de novo; a identidade da alma, resguardada. O lápis acabou solto da mão direita e rolou pelo chão. Os pés chutaram o ar outra vez, depois mais uma. Então, o menino suspirou e sacudiu a cabeça, fazendo os cabelos esvoaçarem.
— Filho? Está tudo bem com você?
Lester apanhou o tubinho com a tinta vermelha e o tampou com a rolha. Colocou atrás de si, mantendo-o em segurança. Em seguida, secou a testa reluzente e úmida.
— Eu estava desenhando.
— Desenhando? Menino! Você estava tendo uma convulsão!
Imediatamente o rosto infantil de Lester ganhou um sorriso astuto.
— Eu não tenho convulsão. Sou criança, mas sei o que significa. Convulsão é coisa de retardado, como os velhos nojentos que não param com as cuecas limpas. Eu não pedi para estar aqui! Eu odeio esse lugar! — gritou.
— Ei! Que tal respeitar um pouco os mais velhos? E o que você acha de honrar o lugar onde vai morar, no mínimo, pelos próximos dez anos? — A voz de Giordano ainda estava rouca. Ele transpirava um pouco, não conseguia tirar de si a imagem que acabara de ver. Precisou se concentrar antes de continuar. — Quero ver o que você estava desenhando.
— Não está pronto.
— Agora!
Lester apanhou a resma de folhas e a colocou sobre o peito. Recuou até que as costas estivessem esticadas na parede e deixou os joelhos flexionados, prontos para fazer o que fosse preciso para aquele homem não chegar muito perto.
Na tribo, ele precisou aprender a se defender. Desde que seus pais morreram, Lester era surrado e provocado, tratado como uma abominação. Só não deixavam de alimentá-lo e dar-lhe um lugar para dormir porque tinham medo. Despertar temor era uma grande coisa, o medo traz a vitória sobre os fracos.
— Rapazinho, nós não precisamos ser inimigos. Só quero ver o que você tem aí. Minha obrigação é cuidar de você e da sua saúde. Se desenhar deixar você no estado que acabei de ver…
— Não é nada demais. Isso sempre acontece com os artistas da minha tribo. E não é só com gente que pinta quadros. O homem que tocava violão, por exemplo… Quando ele terminava, nem se lembrava das músicas que tinha tocado. Meu pai também, quando ele estava estudando, ou fazendo coisas com a minha mãe, ficava esquisito. Uma vez, eu…
— Chega de desperdiçar meu tempo, Lester. Quero ver seu desenho e quero agora. Ou pode esquecer seu tubinho mágico ou novas folhas para continuar fazendo arte.
Dois brotos úmidos desceram dos olhos de Lester. Seu queixo se enrugou todo e ele disse: — O senhor é como todo mundo. Não entende o meu povo e tem raiva da gente. Eu não fiz nada, padre. Só estava desenhando.
— Padre? — A voz surgiu atrás de Dom Giordano.
— Madre, não é um bom momento.
— Ágata ouviu seus gritos e correu para me chamar. O que aconteceu? Está tudo bem? Precisa de ajuda?
Giordano deu as costas a Lester e disse a Suzana: — Estou tendo uma conversa com o menino, tentando ensinar bons modos. Pode voltar para os outros; ficaremos bem.
Alguma agitação nos papéis fez o padre voltar a prestar atenção no menino. Suzana já estava indo embora. Mas só partiu de fato depois de se esticar pela abertura da porta e dar uma olhada em Lester. Ele respirava suavemente, toda a sua insegurança estava resumida nas sobrancelhas um pouco arqueadas.
— Pode olhar se quiser. Eu não ligo — Lester disse quando a freira deixou a abertura da porta. O menino colocou o tubinho sobre a mala suavemente, mas manteve consigo o lápis e os papéis.
Giordano se aproximou, recuperando o bom senso. Esperou que o menino estendesse os desenhos a ele.
Tomou os papéis nas mãos e olhou a primeira página. Precisou de um tempo, não para decifrar a arte, mas sim, para se acalmar.
— Quem é esse?
— Um homem de saia? Quem pode ser, padre?
Giordano mostrou os dentes amarelos em um sorriso retorcido.
— E o que eu estou fazendo?
O desenho mostrava um padre segurando uma cruz e olhando para o alto. Atrás dele, aos fundos, o que poderia ser uma catedral — se o menino tivesse tido tempo para terminar. Ainda assim seus traços eram claros. Os sombreados, o cuidado nos contornos, a expressão de fé nos olhos do homem que tinha muito de Giordano. Lester não se esqueceu nem mesmo de uma verruga que o sacerdote tinha logo abaixo do olho esquerdo.
— O senhor está conversando com seu Deus. Está pedindo que todas as crianças tenham comida.
Devia haver algo mais, precisava haver alguma coisa que explicasse a conversão maligna que Giordano vira há pouco.
O próximo esboço estava incompleto, mas a tentativa de reproduzir o refeitório era clara. As mesas, os rostos quadrados emergindo sobre elas, uma mulher de pé, segurando uma caneca fumegante — o padre enxergou Suzana.
— De agora em diante, você só desenha com alguém por perto. Pelo menos até entendermos o que acontece com você. — Giordano se abaixou para devolver as folhas e gemeu. Seus joelhos já não eram os mesmos de vinte anos atrás. Aliás, eles nunca ficaram bons desde que fraturou a perna direita. (Ele tentava apanhar uma fruta para sua irmã que esperava um bebê. O abacateiro não sabia disso e o chão, menos ainda, e ambos foram inclementes.) — Eu não quero mais desenhar. Esses papéis não servem, eu quero papéis de verdade, papéis de pintar quadros.
— O que está me pedindo custa caro, rapazinho. Você imagina quanto precisaremos poupar de pão e leite para um material desses? Sem contar que precisamos de roupas, remédios…
— Eu vi quando o senhor pegou o dinheiro.
Giordano tornou a se levantar, titubeando um pouco antes de retomar o equilíbrio. O joelho direito soltou um estalo. Acabou amassando sem querer duas folhas que ainda estavam em seu poder.
— Não briga comigo, padre. É que os meninos não gostam de mim, eu já percebi. E eu também não gosto deles. Só quero ficar quieto e pintar alguma coisa, quando eu faço isso fico mais perto de casa. Eu queria estar com eles, com o meu povo.
À direita de Lester estava sua cama. Giordano foi até lá e sentou-se. Tornou a olhar para as artes. A família do menino estava morta, ele logo precisaria saber disso. Mas seus olhos revirados… Eles ainda insistiam que pintar não era uma boa ideia.
— Podemos fazer um acordo — disse Giordano. — Como sabe, a partir de hoje você vai dormir com os outros meninos. Eu quero que se entenda com eles, que vocês fiquem amigos como todos os outros. Se você se esforçar e conseguir fazer isso em vez de ficar trancado o dia todo no quarto, eu providencio o que me pediu.
O menino estudou cada ruga, cada curvinha no rosto do padre.
— Um pacto?
— É… Pode chamar assim se quiser. Você se esforça com os meninos, e eu me esforço para conseguir o que quer.
Lester sacudiu a cabeça para cima e para baixo.
— Gosto de pactos.
Giordano devolveu os papéis em seguida. Pediu para que Lester não voltasse a desenhar naquele dia, disse que se os meninos o vissem torcendo os olhos ficariam assustados. Ele concordou, guardando o que faria com seu tempo livre para si. Quando o padre deixou o quarto, o menino colocou os dois esboços e o resto dos papéis dentro da mala — na parte de cima, ao lado do lápis e do tubinho de tinta que logo voltaria para o bolso da calça. Antes de deixar o quarto, conferiu a parte de baixo, onde ele escondera os outros desenhos.