Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 16 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 16

Havia uma regra de ouro entre os meninos da cidade que Lester jamais respeitou: se você é minoria, melhor manter a boca fechada. Assim, tão logo Buba e os outros fecharam a porta do quarto, ele começou a falar: — Não podem entrar aqui, o padre vai ficar sabendo, ele vai bater em vocês, em todos vocês!

Buba tomou distância, puxou o joelho para trás e o chutou na barriga, com mais força do que calculara. Lester se dobrou e manteve o estômago no lugar, um dos braços protegendo o rosto, esperando novos golpes.

— Reage se for homem! — Vermelho disse.

Mas Buba deixou o cigano em paz. Seus olhos estavam arregalados, absortos com dois quadros. O primeiro era de uma velha segurando um gato, uma pintura estúpida e cretina, mas que mesmo assim agarrava seus olhos pelos humores. O que ainda estava em andamento chamava ainda mais atenção. No cavalete, ele não parecia grande coisa, mas era o desenho mais horrível que Buba vira em toda sua vida. A tela tinha um tom bege, um pouco apodrecido. Imersos no que devia ser lama, dezenas de riscos do que pareciam esboços de rostos em sofrimento. Também havia uma espécie de raiz vermelha entrando e saindo deles, como se o sangue estivesse sendo drenado e compartilhado. De tão impressionante, Buba quis tocá-lo.

— Eu não faria isso — disse Lester. Ainda estava no chão.

— Eu não faria isso — replicou Japonês, fazendo o possível para defecar pela boca. Vermelho riu e deu um bote para cima de Lester. Ele tornou a se encolher, e o ruivo preferiu parar pouco antes de tocá-lo.

— Covarde! Não é à toa que seu povo desistiu de você — disse.

Buba se aproximou da tela, porém não chegou a tocá-la. Em vez disso, deu as costas ao cavalete.

— De pé, retardado.

Lester precisou de tempo para obedecer. O ar ainda parecia rarefeito. Mantinha as mãos na barriga que pulsava de dor.

— O que é toda essa merda? O que alguém tem na cabeça para desenhar isso? — Ele apontou para o quadro em andamento.

— O que você tem na cabeça? — Lester perguntou de volta. — Quando bate nos outros, quando tenta fazer todo mundo chorar, de onde vem o mal que inspira sua alma?

— Falou bonito — Japonês provocou. Vermelho ameaçou outro riso esganiçado. Mas Buba secou seu ânimo com os olhos.

— Sou dono de mim, renegado de bosta. E o mundo é um lugar duro e cruel. O que eu faço com os outros é o mesmo que vão fazer com eles lá fora, talvez até pior. Agora solta essa língua e me diz o que é tudo isso.

Mancando um pouco, Lester se levantou e caminhou até o quadro. Apanhou um dos pincéis, deixou o excesso de tinta escorrer no aparador. Apontou o pincel para Buba.

— Saia daqui enquanto pode. Eu preciso trabalhar.

— Acho que não — Buba riu. — Lembra que a gente falou que você precisava pagar para não se machucar?

— Você tem meu retrato e meu caderno, já paguei muito mais do que você merecia.

— Acho que não, desgraçado. Na verdade, estava pensando… Já que você gosta de desenhar todo esse lixo, eu quero um quadro para mim. E não me pergunte o que vou fazer com eles, talvez use para limpar meu cu.

Lester sacudiu a cabeça.

— Se não me der, vou rasgar todos. — Buba sacou do bolso um canivete de dobrar. Deixou a lâmina cuspida para fora, o brilho refletido da luz da janela acertou os olhos de Lester. Ele manteve a expressão calada e deixou que Buba e seus macacos continuassem sonhando. Lester ainda não tinha certeza se poderia morrer, se o seu patrocinador apareceria para ajudá-lo na hora exata, mas aqueles três não valiam o risco.

Buba foi até o outro cavalete. Esse estava coberto por um tecido verde e brilhante. Claro que aquele escroto fedorento protegeu o que tinha de melhor. O que tinha de valioso. É sim, porque o padre não permitiria aquela nojeira a menos que trouxesse algum dinheiro.

Percebendo que Buba não desistiria, Lester tentou partir em direção a ele quando se distraiu. No entanto, os outros bastardos continuavam atentos, Vermelho chutou suas pernas por trás, Lester desabou. Seu corpo ainda se arrastou no chão, o lábio inferior se partiu e sangrou. Lester tornou a se levantar, mas Japonês e Vermelho o agarraram.

— Me solta!

Buba apanhou o pano verde e brilhante, pela beiradinha de cima. Olhou para Lester para reafirmar quem é que mandava naquela porcaria de orfanato. Então puxou o tecido.

O que viu foi algo muito estranho. A pintura retratava uma cadeira, bem, parecia uma cadeira. Porém, era feita de um material dourado. Seu assento era ainda mais esquisito. Com tantos pregos, quem se aventurasse morreria com buracos extras na bunda e também por causa de outro detalhe daquela cadeira. Bem no meio do assento erguia-se um ducto dentado, semelhante à boca de um verme. Ninguém sobreviveria àquilo, a cadeira era uma porcaria de instrumento de tortura. No apoio dos braços, braceletes de couro confirmavam a suspeita, o mesmo para as pernas. Buba nunca chegou a ver os outros quadros, estava com a boca aberta, fascinado pelo que acabara de descobrir.

— O que é isso? — perguntou.

— Não vou dizer até me soltarem. E se você não sabe o que é, também não sabe para que serve — disse ele, jogando uma isca maior.

Buba estudou Lester. Ele era pequeno, fraco, não seria uma ameaça mesmo que tivesse uma arma de fogo escondida dentro dos trapos que usava. Assim, fez um movimento com o pescoço para que os outros o deixassem.

Assim que os lacaios se afastaram, Lester limpou o sangue que escorria do lábio inferior. Olhou para as mãos sujas. Em seguida meteu o dedo na boca e sorveu a mancha. Colocou a parte de baixo da camisa para dentro da calça.

— É um Fazedor de Milagres — disse a Buba. — Alguém com coragem suficiente pode conseguir o que quiser com uma máquina dessas.

— Pode conseguir arrebentar a bunda, isso sim — disse Vermelho.

— Deixa o filho do diabo continuar, eu tô curioso. — Buba se afastou do quadro, para a direita. Lester caminhou na direção oposta.

— Meu pai sabia sobre o oculto, ele vivia aqui e do outro lado. Mas vocês, brancos da cidade, não entendem desses assuntos. Eu poderia dar esse quadro para você, sabe? Mas ele é amaldiçoado. Você teria pesadelos até os cem anos, todas as noites. Seus filhos nasceriam com o pescoço torcido e o leite da mãe deles viraria sangue.

— Cala essa boca — Japonês disse. Estava recuando sem perceber, ficando o mais perto da porta que podia.

— Se depois de saber disso ainda quiser ficar com ele, é seu.

Buba colocou os dedos perto da imagem, sua pele parecia sugada por ela, sua força de vontade, até mesmo a força física que julgava ter. Os pelos de seu braço se arrepiavam, os olhos estavam tão secos que coçavam.

— Não tenho medo dessa porcaria. Só não gostei dele. Mas eu ainda quero meu pagamento do mês.

— Buba? — chamou o menino ruivo. Estava perto do oratório, erguendo as mãos para colocá-las na estatueta da cigana. Japonês deu outro passo em direção à porta. O quarto ficou frio de repente; o dia, mais escuro. E caso tudo isso não bastasse, ainda havia um cheiro azedo no ar, como o feijão que apodrece dentro da panela.

— Não toca nela! — Lester gritou. — Não põe a mão nela!

Buba havia encontrado seu presente. Ele tornou a socar Lester na barriga e foi para perto de Vermelho.

Vermelho nem chegou a botar as mãos na estatueta. Em vez disso, Buba o empurrou e resolveu tomar a obra para si. Lester estava recuado, tentando respirar de novo. Aquela baleia nojenta tinha a força de um adulto. Por mais que soubesse que ele se arrependeria amargamente do que estava fazendo, Lester queria ser mais forte. Seria tão bom arrancar seus olhos do crânio, tão doce apreciar seu sangue escorrendo no chão de cimento.

— O que essa puta faz?

— Não é uma puta. Ela é minha mãe — Lester gemeu. — O nome dela é Ciganinha.

— Nome de vagabunda — Buba afirmou e sacudiu a estatueta. No segundo movimento brusco, ela escapou de suas mãos. O gordo conseguiu apanhá-la a tempo de se divertir com o pavor de Lester.

— Se me der isso, devolvo seu retrato. E também não encho você de pancada até o Natal. — Voltou e olhar para a estatueta. — Sabe, fedido, você caprichou nessa aqui. Estou sentindo alguma coisa dentro da cueca. Olha só essas tetas — disse enquanto acariciava o gesso. Seus hormônios falavam tão alto que a boca do menino estava cheia de cuspe. Lester podia ver o brilho no esmalte dos dentes. O resto, podia imaginar.

— Ela nunca vai ser sua. Ela é do padre. Se você não me devolver, se você lascar um tiquinho da tinta, ele vai ficar sabendo. A estátua é uma encomenda do prefeito, ele vai pagar um dinheirão por ela.

— Por esse lixo? Eu duvido.

— Os avós dele eram ciganos — Lester explicou. — Foi o que o padre disse.

Buba estava com os dedos fechados ao redor do pescoço da estátua. Aquele cigano desgraçado… Ele não poderia arriscar uma encrenca dessas com o padre, ainda mais se tratando do prefeito que poderia muito bem cuidar da casa e do que eles precisassem por muito tempo. Mas engolir um desaforo daquele merdinha? Não, nem pensar.

A estátua voltou para o seu posto. Lester respirou, deixando um pouco de ar novo aliviar seus pulmões retraídos. Japonês e Vermelho se entreolharam. O ruivo deu de ombros, e Japonês procurou Buba para saber o que fazer. A porta à sua frente parecia o melhor caminho agora, e ele teria a atravessado se não houvesse um Buba logo atrás.

Buba-Baleia enfiou a mão na parte da frente da calça e retirou o papel já amassado, o único retrato da mãe de Lester. Ele cuspiu sobre a folha e a rasgou ao meio.

— Nãããooo!

Ainda não estava bom, o cigano indecente poderia remendar a porcaria ou copiá-la em outro quadro. Mas Lester não conseguiria fazer isso se o canivete picotasse o papel até que ele virasse uma peneira. Buba empurrou para o chão o que havia sobre o aparador de tintas. Colocou as duas metades do retrato sobre ele e as fez virarem oito partes. Voltou a empilhá-las sobre a madeira. Empunhou o canivete e o fez subir e descer. Continuou golpeando, furando, desfigurando. Só parou quando seus braços começaram a ficar dormentes. O cigano estava chorando.

— Pode ficar com a sua mãe agora.

Japonês sacudiu a cabeça de onde estava. Vermelho foi para perto da porta. O menino estava no chão, sentado, olhando para cima, para o que restou do único retrato de sua mãe.

Depois de assoprar as tiras de papel retorcido atirando fragmentos para todos os lados, principalmente sobre Lester, Buba guardou a lâmina e foi para perto dos comparsas. Seu rosto estava vermelho, a camisa suada grudando no peito. Sorrindo, ele colocou as mãos na maçaneta e disse a Lester: — Ainda não acabou.

Do meio do corredor, os três ouviram a porta se fechando com uma pancada. A janela fez o mesmo sem que ninguém a tocasse. A escuridão da noite tomou conta de tudo. Os quadros, mesmo empalidecidos pelo negrume, pareciam animados aos olhos de Lester, como se a tinta que os formou estivesse viva. Da estatueta, olhos luminosos compunham dor, ódio e sofrimento. Lester se deixou banhar sob as asas do oculto.

Buba-Baleia estava certo. Ainda não tinha terminado.