Ultra Carnem
Epílogo os Três Reinos
EPÍLOGO
OS TRÊS REINOS
Em nome do pai, do filho e do…
O tempo corre diferente no Inferno. Foi o que disse um demônio chamado Aim Lamé a uma mulher teimosa chamada Lucrécia Trindade.
Ele não estava mentindo e, apesar da eternidade que se seguiu nas terras quentes de Lúcifer, o tempo passou em um piscar de olhos.
Lucrécia agora comandava Aim e seu exército de Damaleds. Passava os dias treinando-os, palestrando, aprimorando seus conhecimentos já ultrapassados sobre a raça humana. Ela também assessorava Marcos e sua nova conexão infernal com a Terra e, quando tinha tempo livre, se especializava, conhecendo cada pedacinho do Inferno. Lucrécia conheceu os Infernos dos dois hemisférios, os gelados e os quentes, os selvagens e os civilizados, os primordiais e os tecnológicos. Em um deles, encontrou a morada certa para o seu pai tarado. Na verdade, era um pequeno pedaço do Limbo, onde apenas Norato e seu verme faminto habitariam por todo o sempre. A criança ela decidiu libertar. Não foi tão difícil convencer Lúcifer, não com tudo o que ela vinha conseguindo para o Inferno.
O Demônio andava ocupado. Passava a maior parte do tempo no andar de cima, usando as dicas de Lucrécia e convencendo pobres desgraçados a ingressarem em uma nova vida cheia de desafios.
No entanto, de tudo o que ela realizara em pouco tempo, ainda existia um pequeno probleminha esquentando os porões de Lúcifer. Lucrécia terminava outra sessão de treinamento quando Aim ingressou no anfiteatro, investido com uma irritação que não costumava demonstrar. Ele esperou que os 42 Damaleds deixassem a sala e se aproximou da mesa onde Lucrécia organizava suas fichas — apesar da insistência de Marcos Cantão, ela detestava os notebooks do Inferno, eles sempre aqueciam demais…
— Sua cara feia não vai me dizer o que está pensando, Aim.
— Temos um problema no primeiro andar. Nôa está influenciando o pessoal novo, dizendo que, se eles rezarem, vão conseguir sair daqui.
Lucrécia não aguentou e começou a rir.
— Sair do Inferno rezando? Por favor, Aim, nunca ouvi nada mais ridículo na vida.
— Ele não vai sair daqui, é claro, mas suas palavras imbecis estão torcendo a cabeça das almas. O chefe está preocupado. As almas estão aceitando sua sentença, se sujeitando ao pavor e agradecendo. Não preciso explicar como isso pode ser perigoso…
— Talvez precise, Aim. Eu não entendo como um punhado de orações pode atrapalhar nossos planos.
— Sofrimento é um dos pilares da nossa empresa. Um mal necessário. Se ninguém tiver medo, podem se recusar aos planos de Lúcifer. Ou pior… O que aconteceria se todos no Inferno começassem a rezar?
— Poderíamos perder almas?
— Sim, o legítimo arrependimento é capaz disso. Algo que eu nunca vi por aqui.
— Exterminem o desgraçado. Pronto. Problema resolvido.
— E torná-lo um mártir? Aqui? Suas palavras já se espalharam pelos corredores, não temos como extingui-lo sem que os outros imaginem que Nôa acendeu aos Céus. É arriscado demais, Lucrécia.
— Tá certo, grandalhão. É para isso que me pagam, não é mesmo? Apesar de detestar o cheiro daquele lugar, vou falar com nosso amigo.
— Não vai precisar descer. Conhecendo você, eu me antecipei. Nôa está do outro lado da porta.
Lucrécia não ficou muito satisfeita com a notícia. Geralmente o elemento surpresa do Inferno era ela. Mas ficou satisfeita em perceber que Aim estava aprendendo depressa. Ela sorriu complacente, acariciou o cabo de marfim de sua bengala e pediu que ele trouxesse o homem.
Antes de entrarem, ouviu um gemido doloroso, seguido por um pedido de desculpas. Aim deve ter dado uma lição no pobre coitado, mas ele bem que merecia.
O que entrou na sala era uma versão estilhaçada de Nôa. Suas roupas estavam rasgadas, a mochila em suas costas, impregnada de sujeira. O ferimento em seu pescoço vazava algo amarelado e viscoso. Lucrécia repensou aquela audiência assim que botou os olhos nele.
— Pode nos deixar a sós, Aim.
— Tem certeza? — ele perguntou (em grande parte porque não queria ser deixado de fora daquela conversa). Lucrécia assentiu e só tornou a falar quando Aim voltou a atravessar a porta.
— Soube que tem causado problemas, Nôa.
— Eu? Não sou eu o problema desse lugar. Eu fiz o que vocês precisavam lá em cima, cumpri minha parte e recuperei as porcarias do menino cigano. E então vocês me deixam apodrecendo naquela cela nojenta.
— O que você fez se tornou irrelevante agora que temos Lester. E não vamos esquecer que você tentou sacanear Lúcifer.
— Eu errei com o patrão, concordo. Mas não podem desprezar o que eu fiz. Como teriam Marcos Cantão se eu não tivesse encontrado a estatueta? Como você teria descido as escadas se eu não tivesse descoberto a tinta daquele cigano maldito? Estão sendo injustos, Lucrécia. Qualquer lugar é melhor que o principado de merda do seu chefe, mesmo o Limbo.
— Falar sobre o que não conhece pode ser perigoso, Nôa. Sugiro que tenha cuidado com o que escapa da sua boca. Podemos costurá-la, sabia? Seria a maneira mais simples de acabar com sua influência.
Nôa recuou um passo. Pelo que ouvira nos corredores, Lucrécia Trindade nunca blefava.
— Eu estou nervoso, tá bom? Olha para mim. Que droga, Lucrécia, eu estou apodrecendo naquela prisão. O que eu digo sobre o Inferno se resume ao que vocês me mostram. Poderia ser diferente se me dessem uma chance.
— E o que propõe, sr. Nôa? Alguém tão esperto e ousado como você deve ter um plano e tanto dentro da cabeça.
Nôa engoliu um pouco de saliva seca e percebeu que não precisava mais do tubinho em seu pescoço para respirar. Também notou que seu odor melhorara bastante desde que entrara na sala. Encarou como um bom sinal, o primeiro que teve no Inferno. Lucrécia explicou a ele.
— Pode tirar essa porcaria do seu pescoço. E se eu gostar de sua proposta, não vai mais precisar dele.
Nôa obedeceu e apesar da expectativa de que o sangue jorrasse do ferimento, aconteceu o oposto. Tão logo o tubinho de acrílico deixou a carne, uma pele novinha cicatrizou o ferimento.
— Quero ser um de vocês. Um dos caras que vai lá para cima e torce a cabeça dos vivos. É isso o que vocês fazem, não é?
— Fazemos bem mais que isso, Nôa. E o que me pede está fora do meu alcance. Lúcifer ainda está decepcionado com você, muito decepcionado.
— Faço o que for preciso. Podem me arrancar a pele se for necessário. Faço qualquer coisa que não seja perecer na miséria do andar de baixo.
Miséria, a ferramenta preferida do Inferno. Lucrécia vasculhou o olhar do homem à sua frente e tudo o que descobriu foi sinceridade. Isso a motivou a recuar até a mesa e procurar alguns papéis. Nôa ficou onde estava, controlando a vontade que sentia de implorar novamente. Lucrécia estudou várias folhas, só encontrou o que procurava em duas delas. Apanhou os papéis e, ainda de pé, disse a Nôa:
— Para sair do primeiro nível, você deixará de ser humano. Com isso, Lúcifer pode concordar.
— E o que eu me tornaria?
— O que me pediu. Um Damaled. Alguém que não tem mais a pele humana sobre a carcaça, pelo menos aqui no Inferno. Se você fizer tudo direito, se cumprir as missões que vou lhe oferecer, talvez tenha algo a oferecer a Lúcifer.
— Mas eles são horríveis! — disse Nôa.
— Olhe bem para você mesmo. Não está muito melhor que um Damaled. Seu cheiro é até pior que o deles.
Nôa continuava inquieto, olhava em várias direções, ainda não estava convencido.
— Não é um pós-vida ruim, Nôa. Um Damaled sempre tem um lugarzinho na Terra. Além disso, eles se especializam aqui embaixo, ganham poderes e favores. Dois ou três já conseguiram subir de cargo e retomar a forma humana. Mas não é uma tarefa fácil, você vai precisar ser inteligente e perspicaz, algo que tem demonstrado inutilmente no andar de baixo.
— Posso ver minha Liza?
— Não. Não importa o que você faça, nunca chegará onde ela está.
— Posso voltar a pintar?
— Falarei com o cigano. Se ele concordar, você poderá ajudá-lo. E Nôa, cá entre nós, isso é bem mais do que você merece.
— Vai doer?
Lucrécia não conteve o riso.
— Vai doer muito, mas só no final da transformação. Será como se arrancassem sua pele pela cabeça. — Colocou as folhas abertas sobre a mesa e as mãos sobre elas. Fechou o sorriso e disse a Nôa: — A decisão é sua, sempre foi. Tenho a saída da jaula em minhas mãos, mas não posso girar a chave por você.
Nôa gastou alguns segundos rememorando o andar inferior. Seu cheiro, o ruído incessante dos choros, os condenados que agora chegavam às centenas. Também pensou na Terra. Depois que estivesse no andar de cima, daria um jeito de se divertir, mesmo que fosse rabiscando obscenidades em um espelho.
— Eu concordo, Lucrécia. Mas quero sua palavra que existe uma chance de recuperar minha identidade.
Lucrécia deu sua palavra a ele. Em seguida, explicou o que se espera de um Damaled. Coisas como aterrorizar os vivos e prestar obediência incondicional a Aim, sobretudo a Lúcifer. Também dissertou sobre o que ele poderia fazer ou não no andar de cima, e era uma lista bem grande.
Por fim, quando Nôa absorveu o que pôde das informações, ela explicou do que se tratavam os papéis à sua frente.
— Temos dois casos, Nôa. Ou melhor, 153.342. Esse será seu nome a partir de hoje. E você ficará com ele enquanto o Inferno quiser.
— Isso não é um nome…
— É o que tem para hoje, Nôa. Aceite ou pode voltar lá para baixo.
— Tudo bem. Eu precisava tentar… O que tem nesses papéis?
— Casos mal resolvidos; chamo de oportunidades. O primeiro é um garoto. Um caso clássico de bullying. Seu nome é Serginho e ele precisa de uma forcinha para abraçar o Lu. O garoto é bom, mas ele ainda não sabe disso. Sua função, Nôa, é acelerar o processo.
— Fazer o garoto enfrentar os valentões? — perguntou. Nôa estava sorrindo, sem perceber que muitos dos seus dentes estavam indo embora. Sua pele também perdia os pelos, algo que ele descobriria em breve. Também perceberia que seu pênis perderia completamente a utilidade.
— Achei que fosse gostar. Mas é o segundo caso que o colocará entre os preferidos do Lu. Isso se fizer tudo certo. O nome do sujeito é José Bento. É um religioso e está evitando Lúcifer há anos. O chefe às vezes cisma com alguém, creio que seja apenas para provocar o senhor das nuvens. Se você convencê-lo, me dará forças para ajudá-lo a conseguir novos favores.
Havia algo novo nos olhos de Nôa. Ele estava realmente gostando do que ouvia. Talvez estivesse imaginando o que faria com os escolhidos, tecendo planos e ideias. Entretanto, quando ele olhou para a porta às suas costas, aquela expressão suave derreteu como gelo.
— Só uma coisa me incomoda, Lucrécia. O homem do outro lado da porta. Aim me detesta.
— Ele é um demônio. Vai parar de detestá-lo quando você se tornar um deles. Você vai precisar de Aim, como eu mesma precisei. Sabe, Nôa, dizem muitas coisas sobre o Inferno, mas algo que é comum nos três reinos é que, sem cooperação, ninguém chega a lugar algum. Agora, se já terminamos, tenho trabalho a fazer.
Lucrécia voltou a guardar as folhas dentro de sua pasta e Aim adentrou a sala, como se soubesse exatamente sobre o novo acordo firmado. Ele encarou Nôa e dispensou um risinho ao notar um tufo de cabelos no chão.
— Pode me esperar do lado de fora, 153.342. Já falo com você.
Nôa engoliu a vontade de fazer outras perguntas e se retirou. Seus olhos estavam bovinos, recrutados, ele começava a gostar muito de Aim, embora não soubesse bem por quê.
Quando a porta se recostou novamente, Aim tinha suas próprias inquietações. Lucrécia não deixou de notar, mesmo com o rápido olhar que dispensou a ele.
— Vai ficar me encarando ou vai dizer logo o que o está incomodando você?
Surpreso como sempre com o poder de observação daquela fêmea humana, Aim confessou a ela:
— Temo que ele abra a boca e contamine outros Damaleds com sua língua solta. E não é só isso. Lucrécia, todas essas mudanças… O Inferno não é mais o mesmo. Você tem certeza que tudo o que está sendo planejado dará certo?
Ela colocou seus papéis embaixo do braço, apanhou a bengala e parou bem perto de Aim.
— Tenho sim. Como dizem, estou tão certa quanto o Inferno é quente.