Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 5 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 5

Perto das sete da manhã, Giordano estava pronto para encarar o dia. O sono não veio, como era de se esperar, e ficou ainda mais difícil com a conversa interminável que o padre precisou ter com Suzana para convencê-la de que não havia nada de errado no refeitório.

Contudo, a vida de um padre se resume ao trabalho e não às horas que ele passa na cama.

Na manhã seguinte à chegada do menino cigano, o sol não teve ânimo para aparecer entre as nuvens carregadas. O dia mantinha bem pouca diferença para a noite, exceto pelo barulho da cidade que continuava crescendo e pelo som das crianças que se agitavam com a curiosidade sobre o novo morador. Giordano esbarrou em uma delas enquanto dava os primeiros passos pelo corredor que levava ao refeitório.

— O que conversamos sobre correr feito uma mula pelos corredores?

— Cadê ele? Onde está o menino novo? — perguntou Ágata. Seus cabelos lisos estavam tão alvoroçados quanto ela, os olhos arregalados e aflitos.

Giordano estufou o peito para tentar aumentar a autoridade sobre a menina, mas já sabia que era inútil.

Quando Ágata chegou à instituição, já tinha quatro anos. O padre tentou de tudo para acalmá-la. A menina não parava de gritar e chamar pela tia que a trouxera de outra cidade e a deixou amarrada às portas do orfanato. Depois de horas de choro, Ágata cismou com um crucifixo de prata que Giordano trazia no peito — um presente do pai dele pela sua ordenação. Ágata só se calou depois que o amuleto pesou em suas mãos. Ela ainda o guardava em um dos bolsos do vestido.

— O menino ainda está no quarto, Ágata. Eu estava indo acordá-lo para o desjejum.

— Ele é esquisito? Tem dentes pontudos? É verdade que os ciganos odeiam crianças da cidade, padre?

O padre dispensou um sorriso e tocou os cabelos claros de Ágata.

— Vá tomar seu café da manhã, sim? O que dizem sobre os ciganos é invenção do povo. Ninguém os conhece direito.

— Então o senhor também não sabe, não é?

No final do corredor, Suzana apareceu para salvar a manhã. Notando que o padre estava finalmente acordado — com uma hora e meia de atraso —, caminhou até ele com passos firmes e olhos cravados em Ágata. Só desviou dela quando chegou bem perto do padre.

— O senhor dormiu? Está com uma cara horrível.

— Obrigado por notar, madre.

— Posso ir com vocês? — insistiu Ágata.

— Você vai com a madre tomar seu café da manhã. Eu vou acordar seu novo amigo para que nos acompanhe.

— Deixa eu ir junto! Eu quero ver ele!

— Já chega, Ágata. O padre falou que quer você no refeitório.

— Mas…

A conversa chegou ao fim com Suzana apanhando o braço da criança com força. Giordano as observou enquanto as duas atravessavam o corredor, Ágata sendo arrastada e olhando para trás, como se fosse perder o maior acontecimento de seus oito anos. Em seguida, deu os passos que o separavam do quarto número oito.

Ajustou a batina no pescoço e tocou a porta com os nós dos dedos.

— Lester? Está acordado?

Como não houve resposta depois de uma nova tentativa, Giordano usou a chave presa em sua cintura para destrancar a porta — sempre que uma criança chegava, dormia de portas fechadas nas primeiras noites. O padre aprendeu a fazer isso quando uma delas tentou fugir, um menino chamado Ernesto. Ele entrou no quarto e manteve a porta aberta atrás de si.

— Deus, como está frio aqui! Por que abriu a janela?

O menino estava em frente à abertura, olhando para a grade que o separava do lado de fora. Um vento forte entrava no quarto e atirava seus cabelos finos para os lados. Já estava vestido. Calça de tergal, camisa branca de mangas compridas, um sapato velho protegendo os pés. Ele não pareceu notar a entrada do padre.

Giordano chegou mais perto e observou a cama esticada. Se ele mesmo não tivesse colocado o menino em cima dos tecidos, apostaria que ninguém se deitara sobre eles.

— Há quanto tempo está acordado? — perguntou ao garoto.

— Não sei. Ciganos acordam bem cedo.

Quer tivesse acordado há cinco minutos ou às cinco da manhã, o melhor a fazer agora era fechar aquela janela e tirar o menino da corrente de vento. Teriam tempo para conversar sobre seu ritmo circadiano depois que ele estivesse novamente aquecido e de barriga cheia.

— Está com fome? Já estão todos no refeitório, as crianças estão ansiosas para conhecê-lo. Uma delas quase me obrigou a trazê-la comigo. Você vai adorá-las, Lester. São meninos e meninas de ouro. Assim como você, nenhuma delas merece o azar de viver sem uma família. Mas nós vamos fazer valer a pena, sim? Você vai adorar nossa casa, nossa família.

Dessa vez, o menino olhou para trás. Seus olhos estavam um pouco vermelhos e inchados. O rosto corado era provavelmente culpa do vento frio que entrava pela janela.

— Se tiver comida, eu como.

Giordano passou por ele e caminhou em direção à janela. Precisou se esforçar um bocado para alcançar as divisórias de vidro que se abriam para fora do casarão.

— Acho melhor não levar isso para o refeitório — disse o padre. Lester estava com o tubinho de tinta nas mãos. — O frasco pode quebrar ou aguçar a curiosidade dos outros meninos. Eles podem querer ficar com sua tinta.

Ouvindo aquelas palavras, Lester colocou as mãos sobre o peito e protegeu o tubinho. Recuou um passo e olhou para a janela que o padre acabara de fechar.

— Tudo bem, filho. Pode levar com você. Mas mantenha escondido, sim? Coloque no seu bolso até que os outros se acostumem com você.

O garoto obedeceu. Apanhou o lenço verde do bolso de trás da calça e envolveu com todo o cuidado o tubinho de vidro. Enfiou no bolso da frente o mais fundo que pôde. Assim que terminou, seus olhos relaxaram um pouco. Ele passou por Giordano em direção à porta e o esperou do outro lado.