Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 50 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 30

A primeira peça a subir foi a estatueta cigana. Liza não sentiu vontade ou teve coragem de desembrulhá-la. Não era segredo o que Nôa descobrira sobre o menino antes de sair de casa; portanto, aquelas coisas deviam ser perigosas. Nôa voltou a descer para o porão e trouxe consigo o quadro da mulher segurando o gato. A abertura era justa, se o quadro tivesse três centímetros a mais não atravessaria. Em seguida trouxe o outro, que reproduzia o suposto Fazedor de Milagres descrito no diário da mulher cigana chamada Sarah. Por último, Nôa entregou a Liza o quadro que teria arruinado com a vida de João Paulo Portas e o deixado mais parecido com uma samambaia.

Terminado o transporte, Nôa convocou Liza para devolveram a coluna e a estátua ao seu lugar.

— Para que isso? — Liza perguntou. — Já não conseguiu o que queria? Nós devíamos sair correndo daqui antes que alguém apareça.

— Quero evitar perguntas. O padre me conhece, ele pode não saber o que tinha lá embaixo, mas vai se interessar se a igreja for roubada. Não esqueça que ele ainda pretende terminar a reforma desse lugar, Liza. Agora, preste atenção — disse, apanhando a coluna. — Eu vou erguer a estátua, você só precisa direcioná-la sobre essa coisa.

Liza subiu no confessionário tombado e apanhou São José pelos ombros. Nôa estava segurando a estátua pelos pés, a peça tremia um pouco.

— Anda logo, Liza! Não vou conseguir segurar por muito tempo.

Ela fez mais força do que julgava ter e conseguiu colocar a estátua no lugar. A coluna balançou um pouco, assustando os dois outra vez, mas enfim se estabilizou. Nôa se jogou de costas no chão, exausto. Ele sorria.

— O que é tão divertido?

— Nós conseguimos, Liza. Estamos com tudo o que restou de Wladimir Lester.

— Encontrou a tinta? — ela perguntou, descendo do confessionário.

— A tinta seria um prêmio, mas depois de tudo isso… Eu estou inspirado Liza, totalmente. Minha cabeça está fervendo de novo. Vou pintar alguma coisa assim que chegarmos em casa. Quer dizer, se você ainda tiver um lugarzinho para mim lá dentro.

Liza acabou sorrindo.

— Você não tem um lugar dentro de mim, mas pode usar a casa por enquanto. Pelo menos até negociarmos essas coisas com um comprador. Tenho alguém que pode ajudar, um cliente. Ele trabalha para um expositor em São Paulo.

— Tudo bem. — Nôa tornou e ficar de pé e espanou o bumbum. — Vamos cair fora daqui.

Nôa caminhou até a estátua cigana e a apanhou. Liza colocou sobre o braço livre dele as duas primeiras molduras.

— Eu levo esse aqui — ela disse e tirou o embrulho do chão. Em seguida: — Ai, droga!

O pacote que segurava era o tal quadro que não deveria ser visto por ninguém. Agora tinha um rasgo nos fundos — e Nôa se esqueceu do maldito plástico bolha. A moldura foi para o chão e quicou, Liza ficou segurando papéis vazios. Com a queda, o tecido verde que cobria o quadro farfalhou, e alguma luz escapou da moldura. Nôa colocou o que estava em suas mãos no chão e correu até o quadro.

— Que merda, Liza! Não consegue segurar um quadro?

— Desculpa, tá bem? Eu não queria ter vindo até aqui de madrugada para ajudá-lo com seus planos de grandeza.

Nôa começou a rodar o quadro, avaliando se alguma parte da moldura fora danificada. Em um dos giros lentos — sempre tomando cuidado para não olhar diretamente para ele — ouviu um barulho vindo do interior da moldura.

— Tem alguma coisa aí dentro — disse Liza. — Devem ser pilhas, porque nunca vi um quadro brilhar desse jeito.

Ele girou o quadro ao contrário, Liza cuidava da lanterna.

Não demorou até descobrirem um pequeno compartimento na parte de trás — uma portinha de madeira, presa por um parafuso. Já estava um pouco frouxo, e Nôa conseguiu desatarraxá-lo com as mãos.

— O que tem aí? — Liza perguntou, enquanto ele mergulhava as mãos dentro da abertura. Nôa pensava em todas as teias de aranha do porão. Talvez houvesse uma delas ali, ou um escorpião. Ou quem sabe alguma antiga magia cigana que comeria seus dedos.

Sem picadas, Nôa conseguiu retirar o que havia dentro do quadro. O posicionou entre seus olhos e a luz da lanterna. Ele e Liza viram ao mesmo tempo.

— Eu não acredito! Nôa! É a tinta que você procurava, não é?

Ele não tinha palavras. O que esperava encontrar era um vidro encardido e vazio, mas aquilo? O tubinho em suas mãos brilhava como cristal, o conteúdo parecia vivo, pulsante, tinha a cor do sangue, mas a maneira como se comportava? O líquido não chegava a macular as paredes de vidro, era como se a superfície do tubinho fosse hidrorrepelente.

— Está acabando — disse ele, por fim. — O que tem aqui não vai durar muito.

Encantado com o que via, Nôa sentou-se no chão. Continuou a avaliar o recipiente. Era exatamente como diziam. A textura de lágrima, o brilho quase fluorescente, a vontade de tocá-la e mesmo de enfiar aquilo goela abaixo. Como seria colocar aquela tinta em um quadro? Havia tão pouco dentro do tubinho, três mililitros, talvez menos. Mas ele poderia diluí-la, é claro. Algo com tamanho poder…

Ainda pensava em seus planos quando a luz da lanterna ganhou uma tonalidade verde. Nôa girou o pescoço e sentiu as pernas fraquejarem.