Ultra Carnem
Capítulo 8
Nôa atravessou o caminho de concreto seguindo a figura robusta do frei. Não devia ser tão ruim ser padre. A maior parte deles era bem nutrido, bebia vinho duas vezes por semana e não precisava aguentar o mau-humor de uma mulher. Mas dessa parte ele não abriria mão — já estava com saudade de Liza.
Quando se conheceram em um barzinho da cidade — o Mosca-Morta —, ela o tratou como um papel higiênico sujo dos dois lados. Nôa não cortava os cabelos, estava dez quilos mais magro e gaguejava quando tentava falar com uma garota bonita. No entanto, ele descobriu que Liza adorava cachorros. Então, no aniversário dela, ele apareceu no estúdio de tatuagem onde Liza trabalhava trazendo um poodle que chamou de Encardido. Ficaram com Encardido seis anos. O cãozinho acabou morrendo, tinha uma doença crônica no coração. Mas Liza ficou com Nôa.
Antes de entrarem, o frei pediu alguns minutos e tornou a fechar a porta. Devia estar organizando os outros homens de batina para que não vissem o maluco que passou a manhã gritando do lado de fora. Quando voltou, o clérigo estava com o rosto menos corado. Falou calmamente com Nôa: — Venha comigo, vamos até minha sala.
Depois da porta, o cheiro de antiguidade atingiu Nôa em cheio. Algo amadeirado do forro, o ar viciado que pouco circulava pela antessala que sucedeu a porta. O corredor que descobriu em seguida tinha o mesmo cheiro, além de um pouco de leite de rosas que possivelmente era usado por cada rosto liso do mosteiro. A veia artística de Nôa não demorou a notar o chão. Cimento queimado em mosaicos. Já estava bastante empalidecido pelos anos, o que não diminuía em nada sua beleza. Eles não seguiram pelo corredor, a sala do frei ficava em seu início, logo depois da antessala.
O interior do que parecia um pequeno escritório não era mais novo que o restante. Como tudo que é velho, cada detalhe contava uma história. A janela com vidros turvos e foscos, a mesa de cerejeira, o armário de carvalho que certamente passou de mão em mão desde a fundação da cidade. Nôa pesquisou sobre o mosteiro na internet antes de se aventurar. Agora que estava dentro dele, tinha dúvidas se tudo que lera abarcava tudo que havia ali. Parecia que não. Existia uma sombra sobre aqueles homens, segredos, a mesma incógnita secreta que permeia cada dogma das religiões do mundo.
— Sente-se.
Nôa obedeceu e ocupou uma cadeira em frente à mesa. Tornou a puxar a mochila para frente do corpo.
— Você não está com uma arma aí dentro, não é? — Dessa vez, o frei decidiu perguntar.
— Detesto armas, padre. Tudo o que eu trouxe foi um livro e minha curiosidade.
— Como se chama, rapaz? Não gosto de conversar com estranhos.
— Nôa.
O frade riu, corando as bochechas de novo.
— É um bom nome. Um pouco estrangeiro, mas de raiz forte. Meu nome é Dimitri. Antes de continuarmos, gostaria de ver o livro.
Nôa retirou o encadernado de couro de dentro da mochila e o manteve nas mãos por alguns segundos. Era difícil se livrar dele. Sonhos e promessas, meses de pesquisa, anos de frustração, mesmo o roubo que permitiu que ele o tivesse consigo aumentava seu peso.
Após um pigarro do frei, Nôa desistiu e o estendeu ao homem.
Fazia um pouco de frio dentro da sala, principalmente para Nôa que continuava úmido de garoa. Mas seu sangue quente importava bem mais, isso e o que conseguiria descobrir quando o padre concordasse em falar. E claro que aquele padre gordinho sabia de muita coisa, ele não teria concordado que um estranho entrasse em seu casulo sagrado se não guardasse — e temesse — seus segredos.
O homem estudou as primeiras páginas. Nôa observou um novo rubor renascer em seu rosto. Os olhos varrendo as páginas com a rapidez que lhes era possível, os lábios que se mexiam quase que recitando as passagens descritas no livro. Dimitri continuou imerso às páginas, desviando muito pouco para Nôa.
— Não há dúvidas de que é autêntico — disse. Manteve o livro aberto e continuou: — Me diga, rapaz, como esse livro está em seu poder? Onde o conseguiu?
— Tenho procurado por ele faz tempo. O senhor conhece a lenda, todo mundo em Três Rios conhece a história do menino cigano. E se o senhor quer saber, não é só aqui. Se procurar nos lugares certos da internet, vai encontrar notas sobre o menino em muitos sites.
— Não foi isso que perguntei. — O livro estava novamente fechado, Dimitri mantinha as mãos gorduchas sobre ele. O corpo jogado para a frente, garantindo a firmeza que porventura fosse necessária.
— São especulações, padre Dimitri. O que dizem é que existe um descendente vivo do menino aqui mesmo em Três Rios. E pode me torturar se pretende saber o endereço; eu fiz uma promessa aos donos do lugar de que não iria revelá-lo.
— Está dissimulando outra vez. Sr. Nôa, ninguém nesse mundo de Deus daria esse livro a você, ainda mais um parente do menino cigano. Agora, se você não está disposto a colaborar com a verdade, é melhor seguir pelo caminho de onde veio.
— Ei! Por que tanta hostilidade? Eu não disse que não iria colaborar, só não tenho certeza de que o senhor fará o mesmo, agora que tem esse livro nas mãos. Eu não sou burro, padre, notei o brasão na porta da frente, é o mesmo desenho que está na parte de trás do livro. Eu não sei como esse volume escapou daqui, mas tá na cara que ele já pertenceu a vocês. O que me faz perguntar: por que motivo um menino cigano acabou morando em um monastério?
Dimitri coçou a lateral do queixo com a mão direita. Olhou outra vez para o livro e de novo para Nôa.
— Sabe o que dizem sobre escavar uma cova?
O rapaz deu de ombros, não sabia e não tinha nenhum interesse em descobrir.
— Você nunca encontra o que procura. O tempo come tudo, Nôa. Roupas, valores, devora inclusive a esperança de nos entendermos com o passado. O que aconteceu com o tal menino e com as outras pessoas desse livro é algo que não pertence a nós. E você não precisa me dizer o que o trouxe aqui. Chamo isso de ganância, também de ilusão e de irresponsabilidade. Estamos na era das luzes, filho. Não existe mais espaço no mundo para o obscurantismo.
— Tá certo, padre. Pode me devolver o livro, então. Vou trancá-lo em uma gaveta e continuar minha vida. Obrigado pelo seu tempo e… — Nôa levantou-se da cadeira, levou as mãos até o livro.
— Você não vai fazer isso — Dimitri bateu sobre as mãos de Nôa que tocavam o livro. — O que está escrito aqui fez o de sempre: mexeu com suas crenças e esperanças, encheu sua alma com… escuridão.
Nôa recuou as mãos e retornou ao assento, esperando o próximo movimento do homem.
— Está mesmo disposto a continuar com essa maluquice?
— Eu só trouxe um livro, padre. O senhor é quem está exagerando.
— Não somos inocentes, sr. Nôa. Somos padres, freis e sacerdotes. Somos seguidores fiéis do Deus santificado que a humanidade trata hoje como lenda. Mas se quer saber sobre o livro, não posso impedi-lo. A decisão é sua.
— Tomei essa decisão há muito tempo — Nôa respondeu, resoluto.
Dimitri se levantou e deixou o livro sobre a mesa de cerejeira. Nôa não tornou a tocar o volume enquanto o padre foi até o armário de carvalho às suas costas; um voto de confiança. As madeiras rangeram ao serem abertas, como se soubessem que fazer isso traria má sorte. Quando Dimitri retornou, tinha um novo volume encadernado nas mãos. Nôa sentiu a boca encher de saliva.
— Tem as folhas que estão faltando?
— Deus nos livre. É só um álbum de fotografias. Se quer saber sobre o livro, precisa conhecer o mal que seu principal personagem foi capaz de protagonizar.
— O livro não diz nada sobre o menino. Pelo que entendi, a maior parte dos rituais foi feita pelo pai dele. Pelo pai e pela mãe, uma mulher chamada Romena.
Dimitri não teceu nenhum comentário. Sentou-se e, na terceira página, encontrou o que procurava. Estendeu o álbum à Nôa. Ele chegou mais perto da mesa para ver melhor.
— Quem são eles?
— Antigos habitantes do Orfanato Católico. Ficava aqui mesmo, em meados de 1900. O homem na fotografia chamava-se Augusto Giordano, padre Augusto Giordano. A mulher era uma freira, madre Suzana. Todas essas crianças eram órfãs, protegidas por Dom Giordano e pela Igreja. Mas é claro que você sabe sobre o orfanato… Se chegou até esse livro, e até aqui , certamente sabe do restante.
Nôa não concordou. Ele só estava ali por causa de um endereço no rodapé de uma das páginas. E sobre o lugar ser um orfanato, aquilo não era grande coisa, metade das igrejas da cidade acolheram órfãos em alguma época — uma maneira óbvia de receber mais dinheiro do Vaticano.
— Ele está nessa foto? O menino?
Dimitri puxou o álbum de volta para si.
— O menino cigano apareceu um ano depois dessas fotos serem tiradas. Seu nome era Wladimir Lester. Uma mulher chamada Iolanda o trouxe, como outras mulheres e homens fizeram com outros órfãos antes dele. Lester foi acolhido por Giordano e pintou alguns quadros. Você pode vê-los na igreja do centro. O resto é história, Nôa. Uma história velha e cheia de crendices.
— Ele pintou mais do que simples quadros. Dizem, inclusive isso está no livro sobre sua mesa, que muitos deles tinham… poderes. Isso se não falarmos sobre a tinta especial usada por Lester. Um elixir prodigioso capaz de domar os olhos humanos e escravizar suas vontades. É o que diz aí, na décima segunda página, se não me engano. Também existem menções sobre uma estatueta cigana.
Dimitri se remexeu na cadeira, limpou a garganta, fechou o álbum de fotografias com força.
— O que quer de mim?
— A tinta. Lester viveu aqui algum tempo, ninguém soube mais nada sobre ele depois disso.
— Pensou em perguntar a quem lhe deu esse livro?
— Perguntar? Eles são ciganos, padre! Confiam tanto na gente quanto eu confio nas igrejas. Sem querer ofender. — Nôa se acalmou um pouco antes que dissesse outra bobagem. — Eu não contei ainda, padre, mas também sou um artista, um pintor. Quando soube sobre o menino, sobre seus prodígios, fiquei curioso com todo o mistério ao redor dele. E não nego que fiquei ainda mais curioso sobre essa tal tinta mágica. Entenda… eu não acho que essa porcaria faça alguém ficar rico, mas serviria de inspiração para mim. Preciso dela, padre. Para salvar minha arte e minha vida.
— O senhor precisa de Deus no coração.
— E eu O tenho — Nôa respondeu, se lembrando de quando usou sua última Bíblia para acender o fogo da churrasqueira em uma reunião de pintores fracassados. — Mas também tenho certeza de que, com o estímulo certo, conseguirei produzir algo que atravesse gerações, exatamente como fez o menino.
— Você não quer ser como Wladimir Lester, rapaz.
O sacerdote meneou a cabeça e deixou sua cadeira, voltou ao armário e guardou o álbum de fotografias. Em seguida, rodeou a mesa, devolveu o livro a Nôa e foi até a porta. Esperou que ele guardasse o volume dentro da mochila.
— Para onde está indo? — perguntou o rapaz.
— Tentar demovê-lo de uma ideia estúpida.