Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 24 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 4

A pista sobre Lester que Nôa encontrou no livro não era das mais quentes. Tudo o que conseguiu foi o endereço de um mosteiro na periferia da cidade. Também havia um nome que dizia um pouco do que esperava encontrar. Quando chegou ao local, já estava escuro. Nôa se perdeu pelo caminho, ele não era muito bom em se locomover de ônibus — o carro era de Liza e ele não chegaria muito longe andando a pé. Em vez de importunar os moradores à noite com suas perguntas, preferiu se refugiar em um motel onde as piores prostitutas da cidade atendiam seus clientes. Ficava a dois quarteirões do mosteiro e era barato; tudo o que ele precisava. Nôa esvaziou os pulmões e, do outro lado da rua — de onde não tinha coragem de atravessar — deu uma boa olhada no lugar.

Na marquise da parte mais alta antes da cobertura do hotel October, no quarto andar onde uma janela brilhava com uma luz vermelha, uma pichação dizia em uma letra estilizada: O INFERNO É AQUI . Abaixo, palavras carinhosas como CU, ANARQUIA e PODER DAS RUAS . E ainda chamavam aquilo de arte… O mundo perdeu a arte nos anos 1970, quando começaram a pintar garrafas de Coca-Cola com letras florescentes e fotografar mulheres nuas.

Na frente do prédio, um grupo de vagabundos conversava. Eram cinco, e dois já estavam caídos sobre jornais. Um homem, branco como leite, reclamava que não tinha dinheiro para comer. O outro o chamou de retardado e o empurrou para que parasse de repartir suas misérias. Na porta do prédio, uma garota loira fumava. Nôa não achou que fosse uma garota em um primeiro olhar. Era alta demais, produzida demais. Uma mulher não faria questão de ficar tão bonita naquele bairro. O que os homens dali queriam estava dentro das saias, e se você tivesse uma delas podia relaxar na aparência.

Nôa decidiu atravessar a rua. Forçou a jaqueta jeans pelos bolsos contra a barriga para que o vento não a abrisse, e fincou o olhar no chão.

— Ei! Tá indo pra onde, amizade? — um dos vagabundos perguntou assim que Nôa botou o primeiro pé na calçada. Ele olhou para cima. Quem falava não era o senhor albino-leite, mas um homem baixo, magérrimo, com dentes faltando no sorriso, que se esforçava para não cair da própria bengala.

— É um hotel, não é? Preciso de um lugar para passar a noite.

— Isso aí não é um hotel. É um pulgueiro de merda! — O homem avançou com a muleta, a estaca de madeira deslizando perigosamente sobre o chão úmido da noite. Ao que parecia, para andar direito, ele precisaria de duas delas, uma para cada perna tomada pelas varizes. Chegou ao lado de Nôa e, antes de tornar a falar, cuspiu algo denso no chão. O homem sinalizou para que Nôa se abaixasse um pouco, para que ele não precisasse gritar.

— Você não precisa disso, doutor. Tá na cara que o senhor é alguém que merece um lugar melhor que essa casa de quenga. Eu posso mostrar um hotelzinho onde ninguém vai ficar gemendo a noite inteira. Vai custar um pouco mais caro, mas…

— Eu vou ficar por aqui. — Nôa enfiou a mão no bolso, buscando um sinal de amizade. Tirou uma nota de cinco toda amassada e a estendeu ao homem. O sujeito a enfiou no bolso, com um mínimo de gratidão. — Não quero ofender — Nôa disse. — Isso é pela ajuda que o senhor me deu. Eu não vou ficar muito tempo, sabe? Só tenho que resolver uns assuntos pela manhã e voltar para casa.

O homem sacudiu a cabeça e riu, raspou a garganta e cuspiu outra vez.

— Isso é o que todos dizem, doutor. Se quer meu conselho, fique longe das putas. A maioria delas tem o mesmo que nós dois no meio das pernas.

Nôa tornou a agradecer e tomou seu caminho. O homem faz o mesmo e retornou à discussão que agora girava em torno de futebol.

Havia um lance de três escadas antes da porta, Nôa já os tinha vencido e estava passando pela quase-mulher que tapava parcialmente a entrada quando ela o tomou pelo braço.

— Procurando diversão, gatinho?

A voz grossa demais tirou qualquer suspeita de Nôa. O homem de muleta e os outros riram. O sujeito muito branco puxou os dois braços para o ventre e disse: — Vai nessa, amizade! Fogo no buraco!

— Obrigado — Nôa disse, e continuou caminhando.

O lado de dentro não era muito melhor que a fachada. Atrás de um balcão de madeira dos anos 1930 marcado por tocos de cigarros, um homem ouvia as mentiras do telejornal e fumava. Ele apagou o cigarro em uma lata de cerveja quando notou Nôa se aproximando. O máximo que fez para recebê-lo foi se esticar e baixar o volume da televisão.

Talvez fosse o cheiro do lugar ou a iminência de um assalto noturno, talvez fosse o travesti parado à porta, mas Nôa não encontrou nada para dizer.

— E então? O que vai ser?

A voz grossa do homem era quase uma sentença de câncer. Sua pele era cinzenta, a camisa branca e encardida deixava alguns tufos de pelos escaparem pelos buracos. Nôa quase sentiu falta de sua própria miséria, o mundo continuava bom em desanimar homens teimosos. Seu avô costumava ser um desses — ele teimou com a bebida até vomitar pedaços de fígado em uma manhã de outono.

— Quero um quarto, o mais barato que tiver.

O homem se desgrudou da cadeira que tentava sugar seu esfíncter e deu uma boa olhada em Nôa. Porém, ao contrário do sujeito de muleta, não tentou aconselhá-lo.

— Não tem banheiro e o estrado da cama tá quebrado. E o interfone não funciona. Se você quiser pedir alguma coisa ou usar o telefone vai ter que descer até aqui.

— A janela tem grade pelo menos?

Finalmente alguma comoção tomou o recepcionista. Ele começou a rir e só parou quando uma crise de tosse ameaçou asfixiá-lo.

— Rapaz… De onde você saiu? Você está no meio do esgoto, camarada. Esse bairro só não é pior porque alguém resolveu empilhar os vagabundos na Cohab. E mesmo assim, muitos deles se cansam do chiqueiro onde vivem e vem passear por aqui. A única janela com grade nessa espelunca fica no meu quarto. E você não parece disposto a dividir uma cama comigo.

Nôa se afastou um pouco. Uma coisa era o travesti da entrada, que pelo menos tinha o cheiro de uma mulher fedida, mas aquela entidade mofada? Talvez fosse melhor dar meia-volta e dormir com os mendigos do lado de fora.

— Tô brincando, amizade. Eu não gosto de bunda de homem.

A coisa encardida se abaixou e desapareceu por um instante. Nôa ouviu sons metálicos. Tornou a olhar para a porta de saída. O homem poderia ter uma arma. Ele levantaria e diria: “O cu ou a vida!”. O pintor só relaxou quando uma mão enegrecida apareceu sobre o balcão. O recepcionista veio em seguida e deixou uma chave oxidada sobre a madeira.

— A diária é vinte paus. Se quiser uma puta, eu providencio. As mulheres são mais caras e não fazem de tudo. As bichas são mais limpas e você nem precisa pedir o pacote completo.

— Vou ficar só com o quarto — Nôa disse e apanhou a chave, fazendo o possível para não resvalar na pele daquele homem. Perto dele, Nôa parecia um dos filhos da princesa Diana.

Tomou a escada mantendo distância do corrimão ensebado e subiu até o terceiro andar, onde o cheiro do térreo praticamente desaparecia. Não que o odor que sentia agora fosse melhor. Era apenas menos urbano. O chão acarpetado garantia o mofo que perpetuava no corredor. A luz fluorescente do teto piscava e chiava, desorientando Nôa, enquanto ele tentava encontrar o quarto número nove. Ficava no final do corredor, perto de uma janela forrada com jornais. Alguém gemia no quarto ao lado. Provavelmente uma das putas mais baratas e limpas — e que tinha algo generoso entre as pernas.

A porta parecia sólida, mas Nôa logo descobriu que não poderia confiar nela. A chave girou em falso, a porta estava apenas presa pelo trinco. Não desceria as escadas por causa disso. Seria menos traumático recostar a cama a ela e dormir contra a madeira da porta.

Uma cama velha, um criado-mudo amarelo ao lado, graças a Deus o chão não era acarpetado. O sinteco poderia albergar uma família de cupins, mas ainda era melhor que uma crise de rinite alérgica. Nôa tocou um interruptor rente à porta. A luz funcionando foi um bom sinal. Mas no quarto não havia TV , e como o homem disse, nada de banheiro. Quando Nôa tivesse coragem — e muita necessidade —, usaria o banheiro coletivo que havia no começo do corredor. Também podia descer as escadas e entrar em um dos botecos do bairro.

Seus pés doíam um pouco, suas pernas estavam fracas depois de várias horas enfrentando o sacolejo dos ônibus. Seguindo o plano, ele arrastou a cama até a porta. Depois se sentou sobre o colchão fino. Rodou a mochila em suas costas para frente e apanhou o livro que o levara até lá. Estudá-lo antes de dormir parecia melhor que ouvir os gozos sexualmente híbridos dos quartos vizinhos.

As páginas amarelas dividiam espaço com Liza. Como ela estaria? Desistiria dele dessa vez? Ele merecia, claro que sim. Mas como explicar a uma garota o que se passa no coração atormentado de um homem? Não… Liza voltaria quando ele conseguisse resgatar um mínimo de amor próprio, quando Nôa se esquecesse de como era parecer e se sentir como uma privada cheia.