Ultra Carnem
Parte II: Gênesis
PARTE II
GÊNESIS
“Mas depois virão sete anos de fome. Então todo o
tempo de fartura será esquecido, pois a fome arruinará
a terra.”
G ÊNESIS 41:30
1
O destino parece ter um plano traçado para todos, mas para alguns, tudo que existe é um enorme ponto de interrogação. Um desses casos encontrava morada no corpo de um homem chamado Nôa D’Nor.
— Não vou esperar o dia inteiro, Nôa! Juro por Deus que se você não sair desse chiqueiro, desapareço dessa casa para sempre! Para sempre, tá me ouvindo?
Liza esperou em vão por uma resposta, como fez nos dias que antecederam àquele.
— Nôa! Faz quase uma semana que você que não vê a luz do sol! Jesus!
Do lado de dentro, ele pôde ouvir o prato de comida sendo colocado no chão; uma armadilha. Nada que o fizesse desviar os olhos do manuscrito à frente, nada que o fizesse desistir de seu futuro. Nôa virou outra página e continuou sua leitura. Os olhos cansados roubavam o que podiam da pouca luz que entrava pela janela. Ele não a abriria até entender tudo aquilo. Precisava de concentração, de escuridão e imaginação, não precisava de uma porcaria de luz branca que só servia para queimar a pele. O artefato aberto à sua frente continha o cheiro do tempo. Nôa conseguiu o livro em uma loja do centro, um lugar úmido e empoeirado onde o mundano e o mágico tinham a mesma cor. A mulher que se recusou a vender o volume a ele o preveniu para ter cuidado. Mas Nôa o roubou mesmo assim.
Ele puxou a luminária incandescente para perto de si e leu em voz baixa:
“ … Romena estava com o marido naquela noite sem lua. Ela era a ajudante, a amante e o objeto sexual de tantas missas malditas. Usava seu melhor vestido, um da cor negra que chegava aos pés. Os seios voluptuosos propulsados por um espartilho compunham paisagens no busto. Embaixo das roupas, vestia a pele que sugava homens como areia do pântano. O ventre ornamentado por escaras vindas de tentativas passadas de se comunicar com os mortos havia se tornado forte e rígido — uma blindagem de músculos e pele designada a cobrir sua fertilidade. Cabelos negros desciam pelos contornos, olhos verdes brilhavam no rosto.
Treze velas estavam acesas, preparadas segundo as instruções do ritual. Na distante tribo cigana a que o casal pertencia, a música enchia a noite, animada por violinos e gritos viris. A casa, especialmente plantada em um local onde as almas negras ficavam à vontade para operar seus trabalhos, localizava-se no pé esquerdo de uma encruzilhada. A mesma morada de tantos suicídios… A concentração energética fazia dela um portal, uma fenda dimensional, escondida bem no meio da terra. Do outro lado, entretanto, não havia galáxias ou estrelas. Cigano e Romena não imaginavam tais prodígios. Seu mundo, assim como os dos outros ciganos, era escuro e místico. Do lado oculto da passagem, cercando-a com lamentos, estavam eles, os seres que podiam dar poder e lágrimas a alguém sem que a pessoa percebesse a diferença. Espíritos injetados de ódio, forjando sonhos humanos e repousando entre seus fracassos. ”
— Nôa! Eu não vou pedir de novo!
Ele suspirou. Não adiantaria ignorá-la. Não existe sucesso ao desprezar uma garota tatuada. Além disso, Liza podia atear fogo na casa outra vez… Nôa não se importaria alguns dias atrás, mas agora? Podia sentir o cheiro da sorte, seu abraço materno, a glória que buscava desde que deixou seus pais no Sul do país, abandonados em uma próspera fazenda de algodão. Talvez voltasse a vê-los quando finalmente prosperasse como artista. Liza não desistia e tornou a golpear a porta. Depois de fechar os punhos e voltar a abri-los, Nôa fechou o livro e caminhou até a entrada. Ouvia o som dos sapatos de Liza testando a dureza do chão. Ele, por outro lado, já estava mais calmo quando tocou a fechadura.
— Minha nossa, Nôa! Você parece um espantalho!
Ele agradeceu e coçou os olhos, retirando os restos endurecidos de sono que haviam se acumulado. Passou as mãos pelos cabelos achatados e oleosos. Tentou melhorar minimamente sua aparência colocando metade da camiseta preta para dentro da calça.
— Quanto tempo faz que não toma banho? Tem ido ao banheiro pelo menos? Ou está cagando no chão?
Os dentes amarelados de Nôa apareceram entre os lábios finos. Ele tentou puxar Liza para um abraço, mas ela recuou. Nada disso, campeão, não tão fácil. Para conseguir algum contato com aquela garota seria preciso pelo menos perder o cheiro azedo do café que emanava de sua pele.
— Eu não fiz nada no chão, pode conferir.
Liza deu um passo para o lado, tentando enxergar o interior do ateliê. O cheiro viciado começava a sair. Tintas, solventes, suor e mofo.
— Terminou? — ela perguntou.
— Do que está falando?
— Nôa! Jesus Cristo… Você está trancado aí dentro há mais de três dias. Do que acha que estou falando?
Ele coçou a cabeça, seus olhos piscaram lentamente. Estavam vermelhos; veias nasciam por toda parte. Seu hálito não devia estar em condições melhores. Realmente Nôa não defecara no chão, mas escovar os dentes não passou por sua cabeça.
— Eu não estava pintando — ele respondeu.
Depois de estudá-lo por alguns segundos, Liza se abaixou e apanhou o prato de comida do chão. Quando voltou ao parceiro, seus olhos estavam carregados d’água.
— O que está acontecendo com a gente? Onde está o homem que eu conheci?
— Liza, não começa. Eu só estou tentando fazer algo especial, uma pintura que nos tire de vez dessa miséria.
— Não somos miseráveis, isso aqui é prova. — Ela mostrou o prato a ele. Um pouco de carne, legumes, arroz branco e folhas de alface. Nôa desviou o olhar e levou as mãos ao estômago. Caminhou até a janela do apartamento e a abriu. Uma música barata e pornográfica o atingiu como uma mordida.
— É disso que estou falando. Dessa gente. Da música que eles ouvem, das crianças piolhentas passeando pelas calçadas. Você tentou dar uma volta nesse bairro depois das dez? Liza, por favor, estamos no cu do mundo. Pior que isso: estamos no que sai dele. Eu só quero uma vida decente para nós.
A mulher não esmoreceu. Era feita de carne, orgulho e tinta.
— Não faz muito tempo, nós tínhamos o bastante. Mas para você nunca está bom, nada está bom. Nôa, eu sou a primeira a acreditar no seu talento, mas ficar aí dentro, trancado, criando germes e escaras não vai encher nossa vida de alegria. E se você não estava pintando a droga de um quadro, o que fez durante todo o tempo que ficou trancado em sua caverna?
— Descobri algo em uma loja do centro. Você deve conhecer o lugar. É um…
— Comprou feijões mágicos? Foi isso? E está esperando a porra do pé levar você para a terra do gigante?
Nôa ainda estava à janela. Olhava para o lado de fora, para as formigas proletárias que trafegavam esperando um pé divino vir pisoteá-las. Crianças, velhos, adultos — eram todos feitos da mesma argamassa: aceitação e agonia.
— Isso é grande, Liza, é sobre Wladimir Lester.
— O cigano? Ainda está metido nisso, Nôa? Mãe do céu, quando você vai parar de perseguir esse bezerro de ouro? Nós nos conhecemos há quanto tempo? Dez anos?
— Doze.
— E faz pelo menos treze que você persegue esse lixo de lenda urbana. Ele não existe, Nôa. Lester nunca existiu. Só você não percebeu ainda que a internet está cheia dessas porcarias. Gente que faz milagres, alienígenas, bonecas que são meninas mortas. Qualquer invenção dessas soaria melhor que o menino cigano.
— Encontrei uma loja, Liza. No centro da cidade. Pertence a uma parente distante do menino, a única que sobreviveu. Ela tem o diário de alguém da tribo. Liza, se o que dizem for verdade, se esse menino existiu mesmo, ele tem a chave para que eu produza algo incrível.
— Você já tem essa chave! — gritou ela. — Na minha terra isso se chama talento, Nôa! O que falta para você não é isso; é disposição, é sair de dentro do seu mundinho encantado e enfrentar a vida lá fora, você não precisa de uma merda de magia negra cigana.
— Me diz isso depois que você ler, tá bem? E desde quando você se tornou uma defensora religiosa?
— Não estou defendendo ninguém.
Liza deixou o corredor em direção à mesa da sala. Colocou o prato sobre a fórmica e saiu pela porta da sala antes que começasse a chorar de novo.