Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 44 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 24

A primeira reação de Nôa foi procurar pela enfermeira Celeste. Segundo ela e o padre, aquele coitado não falava há anos. Jesus, ele mal se movia! Por mais egoísta que estivesse sendo nos últimos dias, Nôa não resistiria em prestar alguma ajuda ao homem. Mas a mulher não estava mais no pátio — e Nôa não estava nem um pouco disposto a perder sua grande chance.

— O padre Justino. Ele me disse onde encontrá-lo.

O homem resmungou alguma coisa. Virou o pescoço para o lado e cuspiu.

— Padres… Eles não sabem de nada.

— Eu não entendo, é… João, Jota… Disseram que você não conseguia falar. Estou confuso. Quer que eu chame alguém? Um médico?

— O pessoal de branco? — Ele raspou a garganta como se a voz fosse falhar a qualquer momento. — Eles nunca foram capazes de me devolver a voz. Mas você conseguiu. Minha garganta não funcionava e agora funciona, é tudo o que preciso no momento. Eu fiz uma pergunta, moço. Quem realmente mandou você aqui? Foi ele ?

— Eu não…

— Ele , moço. O homem escuro, o Demônio, escolha o nome que preferir. É por causa do desgraçado que estou aqui. Eu já imaginava que alguém viria. Semanas atrás, tive um pesadelo com um velho amigo, um pobrezinho que acabou internado em um lugar como esse, bem antes de mim. Quando éramos meninos, nós o chamávamos de Furão. E eles me chamavam de Cabelo — falou, com o rosto se iluminando em um sorriso gasto.

— Não vou tomar muito seu tempo. Meu nome é Nôa. Eu sou um pesquisador de artes, vim de Três Rios até a igreja de São Matias, estou interessado nas obras de…

— Sei bem o seu interesse. Moço, eu não posso tirar da sua cabeça o mal que está crescendo, mas posso lhe dar um conselho. Esqueça de uma vez por todas a criança cigana e o que ela produziu. O que o menino fez envenena a gente. Primeiro, vai tomar o seu corpo; depois, sua consciência. No fim, perderá sua alma. Foi o que aconteceu comigo e com os outros.

— O senhor teve contato com alguma obra de Wladimir Lester?

— Nós não sabíamos quem ele era. Só conhecíamos a história do quadro. Faz muito tempo, moço, e minha cabeça não quer se lembrar dessas coisas. Então, se era só isso o que senhor queria, pode dar meia-volta e me deixar em paz. Acredito que ficarei mudo de novo quando você tirar sua bunda seca dessa clínica, mas não me importo. Existem muitas coisas piores que o silêncio.

— Só estou pedindo informações. Não tenho nada a ver com padres e demônios. Eu sou um artista, um pintor. Quero que o mundo volte a conhecer o que o menino produziu.

— Você disse que era um pesquisador… — João meneou a cabeça. — O senhor é pura ganância, seu Nôa. Eu também já fui assim. Perdi quem amava, fui taxado de maluco. Me diga com toda a sinceridade, veio até aqui para me entupir com suas mentiras?

Nôa não disse nada dessa vez. Preferiu respirar fundo e tentar abrir seu coração — que achava ser justamente o que não deveria fazer se quisesse mesmo respostas daquele homem. Entretanto, não dizem que os maiores prêmios vêm de apostas arriscadas?

— Preciso da tinta. Não estou atrás dos quadros. Sou um artista medíocre, minha família perdeu a fé em mim faz tempo, minha esposa precisa de dois turnos no emprego para ajudar a me sustentar. Eu cheguei a pensar em suicídio.

— Morrer pode ser uma benção…

O homem ficou mudo de novo. Seu queixo pendeu e Nôa imaginou que jamais teria suas repostas. Já tinha se levantado, pensando em buscar Celeste, quando Jota respirou como se acabasse de acordar de um pesadelo e o tomou pelo braço. Suas unhas compridas pressionavam a carne. O rapaz tentou recolher o braço e não conseguiu.

— Aquele maldito pintou um quadro chamado Desgraça . Diziam que traria boa sorte, desde que ninguém olhasse para ele. Eu tinha quatro amigos idiotas e nós resolvemos ir atrás do tal quadro.

— Me solta! Você tá me machucando.

— Ainda não. Você não sabe o que é dor. Nós conseguimos encontrar o quadro, sabe? Estava em uma casa velha, com alguém mais maluco que nós quatro, preso dentro de um quarto escuro. Então, um de nós olhou para aquela porcaria. Ele morreu por dentro, senhor sabichão. Murchou como uma folha no outono. Levei meu amigo para um bom lugar, na sua amada Três Rios. Mas meu amigo acordou em uma noite chuvosa e me pediu, em prantos, que escondesse o tal quadro, disse que o Diabo queria nossa alma. Furão implorou para que eu desaparecesse com todos os quadros do moleque encardido. Perdi os dois anos seguintes atrás do que ainda havia do menino cigano no mundo. O senhor agora me pede para desenterrar tudo isso?

— Eu não sei nada sobre o Diabo. Já disse o que me trouxe aqui.

— O senhor está a serviço dele, Nôa. Do Diabo, Lúcifer, do escuro. O menino cigano foi só outra marionete nas mãos do desgraçado. E eu aposto minha vida que o senhor já sabe de tudo isso! Ele virá buscá-lo, Nôa. Vai dar algo em troca e depois o levará para um Inferno bem pior que esse aqui. É só isso o que aqueles quadros, estátuas e a tal tinta maldita fazem.

— Eu assumo os riscos — Nôa disse.

— Está jogando com sua eternidade, seu imbecil! — Depois, mais calmo: — Espero que compreenda isso.

Nôa puxou o braço para si e o massageou. As unhas do moribundo marcavam sua pele.

— Está tudo na igreja. Existe um alçapão no altar, à direita, embaixo de uma estátua de São José. Vai precisar tirá-la dali para encontrar. Eu só descobri a abertura porque tinha as plantas da catedral. Consegui com o mesmo padre que o mandou vir aqui. Disse ao pobre coitado que ajudaria na reforma da igreja — falou Jota, sorrindo. Pareceu extremamente jovem de novo, mas Nôa sabia que não restava muito de sanidade dentro dele. Aquele homem era como um doente em seu último suspiro de vida.

Nôa agradeceu e se levantou, antes que fosse outra vez tomado pelo braço.

— Não faça isso, eu suplico. Quando escondi as porcarias do menino, fui atacado por forças que ainda não compreendo. Eles nunca agem sozinhos, Nôa. Estão sempre de olho. Enquanto você se distrai em busca dos seus sonhos, eles traçam planos para expandir a escuridão. Se tocar em uma porcaria daquelas, será como uma infecção. Ninguém consegue enganar o demônio. Ninguém.

Nôa deixou o homem sozinho e se afastou. Seu corpo foi se arrepiando depressa, em ondas geladas e elétricas que brincavam com a pele.

Antes de sair, olhou uma última vez para trás, já perto da porta. João Paulo, Jota, Cabelo ou como quer que aquele coitado preferisse ser chamado, estava na mesma posição que Nôa o encontrou. Os olhos perdidos, o queixo pendido. A conversa de poucos minutos atrás pareceu nunca ter existido.

O rapaz continuou caminhando depressa e só parou quando alcançou o portão de saída. Celeste deixou o salão de jogos e foi atrás dele. Alcançou Nôa nos portões. Ele estava com as mãos suadas sobre as grades, olhando para fora, como uma criança saindo de um trem-fantasma.

— E então? Conseguiu suas respostas? — ela perguntou.

— Eu duvido que qualquer coisa que ele diga seja verdade.

— Ele falou com o senhor? — Celeste questionou. Seus olhos se encheram com o brilho do dia.

— Não sei. Não exatamente.

Nôa agradeceu e saiu pelos portões, apesar das perguntas não respondidas de Celeste. Passou pelo ponto de ônibus e continuou caminhando. A enfermeira calculou quando tempo demoraria até ele voltar para a clínica — o homem parecia meio maluco.

Ela trancou tudo e voltou para o pátio, a fim de avaliar o que teria acontecido com seu paciente silencioso. Não encontrou nada muito diferente, a não ser um pouco de urina no chão, respingando pela sonda desconectada do saquinho plástico.

João Paulo estaria morto no dia seguinte. Pela manhã, Celeste entraria no quarto com seus remédios e o encontraria com a boca escancarada. De dentro dela, uma mosca varejeira ganharia o mundo batendo suas asas podres.