Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 86 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 9

Lucrécia encontrou uma população carcerária bem maior depois de atravessar o primeiro portão que limitava um segundo bloco de celas. Ela já conseguia caminhar sem a ajuda de Aim, suas pernas doíam bem menos e um ânimo inexplicável reabastecia sua alma. Ao que parecia, a cada visão atormentadora dos torturados, seu sangue se enchia de energia. Sua pele, seus músculos, toda a essência de seu ser ficava renovada.

Mantiveram silêncio por mais ou menos vinte celas. Na altura em que estavam agora, as celas antes ocupadas por uma única pessoa começavam a ficar abarrotadas. Lucrécia parou em frente a uma delas, cheia de homens de terno com suas valises em mãos. Muitos deles tinham entre quarenta e sessenta anos.

— Quem são eles? — ela perguntou.

— Está curiosa com o Pedro, não é? O homem que você conheceu no seu antigo trabalho.

— Não quero provocar ninguém com as minhas perguntas. Parece que por aqui o silêncio vale ouro.

— Você é esperta, Lucrécia. Não me admira ter despertado o interesse do chefe. — Aim recuou um pouco e também ficou de frente para a cela. Os homens conversavam entre si, confabulando algo entre os sussurros. — Você não vai encontrar Pedro em uma dessas celas. Ele já ficou por aqui, depois foi promovido. No Inferno, você nunca é readmitido em um cargo inferior. Ou você sobe… ou queima. De certa forma, Pedro deixou de existir. O chefe o mandou para o lugar mais terrível do mundo.

— Vai me dizer qual é?

Aim sorriu.

— Reencarnação.

Ao ouvirem a palavra, os homens de terno se afastaram da cela, ficaram todos espremidos contra a parede. Um deles gemeu enquanto era pressionado pela massa transpirante dos outros, mas ele não se arriscou a deixá-los.

— Não parece tão ruim — Lucrécia comentou.

— Mas é quando você sai de uma cela dessas. É bem provável que Pedro volte como uma barata. Ou uma porca. Criada apenas para ser possuída, fornecer suas tetas e presenciar suas crias virando churrasco.

Lucrécia absorveu a explicação e deixou o assunto de lado. Voltar para a Terra não estava em seus planos. Não daquela maneira.

— Quem são eles? — perguntou, notando que os homens dentro da cela continuavam acuados.

— Negociantes. Estão aqui embaixo porque passaram a perna em todo mundo lá em cima. Aqui você tem corruptos, advogados inescrupulosos, investidores da Bolsa, traficantes de mulheres… Não os borra-botas que sujam as mãos. Eles são os cabeças , se é que você me entende. Lá em cima, eles tinham ouro e poder, aqui embaixo só tem uns aos outros. Eles discutem o tempo todo. Quase sempre a discordância evolui para a violência. É quando fica mais engraçado. Eles se mordem, furam os próprios olhos com suas canetas caras, depois acordam e fazem tudo outra vez. De novo, de novo e de novo.

— Repetição.

— Ideia genial, não?

Aim recomeçou a caminhar.

As celas continuavam cheias. Lucrécia viu algumas mistas, onde mulheres e homens eram torturados por demônios. Não deu muita atenção a elas. Depois de alguns minutos no Inferno, descarnações, decapitações e laceração de corpos ocupam um lugar na trivialidade — o pior mesmo é o que começa a emergir dentro de você. Lucrécia pensava no pai, pensava em novos castigos para ele.

— Você está calada, imaginei que tivesse muitas perguntas — Aim quebrou o silêncio dos passos e do toc-toc-toc da bengala.

— Não é isso. Eu tinha uma ideia totalmente diferente do Inferno, Aim. Sempre disseram que era quente e que havia lagos de fogo para todos os lados. Vocês me pegaram de surpresa.

— Ah, o fogo. Você se refere à Geenna.

— Geenna? Nunca ouvi falar.

— Lucrécia: uma alma que não foi contaminada pelas bobagens da Igreja. Você é mesmo um achado e tanto, mulher. Geenna costumava ser um lugar na Terra, alguns a conheciam como Vale de Hinom. Ainda existe, fica perto de Jerusalém. Mas a melhor parte do lugar foi trazida para cá. Quando o filho das nuvens encarnou na Terra, ele definiu o lugar como sendo o Inferno. Originalmente queimaram crianças no vale, depois passou a ser um depósito de carcaças. Os povos sacrificavam animais em homenagem ao seu criador, depois atiravam o que sobrava no buraco e ateavam fogo. O verme que nunca morre que habita seu pai nasceu da mesma ideia. Podemos conhecer o vale se você quiser, é um deleite e tanto para os olhos. Não digo o mesmo sobre os que queimam em suas chamas. São homens e mulheres ordinários, espíritos fracos demais para servir ao chefe ou ao antigo chefe deles, em suma, criaturas desprezíveis. Ladrões de galinhas, humanos revoltados com a própria existência, padres que caíram na tentação da carne.

— Acho que vou dispensar — disse ela.

Chegavam a outra porta de aço que impedia o corredor. Essa era enorme. Bem maior que a primeira passagem, tinha pelo menos três metros. A coisa era feita de metal e devia pesar meia tonelada. Havia algo escrito na superfície plúmbica, escavado. Lucrécia passou os dedos sobre o baixo-relevo.

— Feitiços antigos — Aim explicou. — O chefe é o único que conhece a tradução.

— É bonito — ela comentou. Os caracteres mais altos formavam figuras florais, tribais, aquilo era muito melhor que os alfabetos terrenos.

— É lindo — Aim concordou. — Dizem muitas coisas sobre o Diabo, mas se esquecem de notar de onde ele veio. Lúcifer — disse mais baixo, quase inaudível — era mesmo um anjo. Ele sempre apreciou a beleza, a arte, e não perdeu o apreço pelo belo.

— Dá para ver isso só de olhar para ele…

— O que você conheceu, o homem chamado Lúcio, é parte dele. Mas existem outras. Como o demônio alado que incendiou Pedro. Chamamos de Estrela. Quando o chefe fica daquele jeito é melhor não irritá-lo. — Aim tocou a porta de metal, e na mesma hora, nasceu um barulho entre as ferragens. Lucrécia ouviu três travas metálicas se ajustando. Então, a porta cedeu e um facho de luz branca banhou o corredor escurecido.

Aim atravessou primeiro, Lucrécia precisou esperar até que seus olhos voltassem a enxergar.