Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 26 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 6

Assim que chegou à frente do casarão dos freis, Nôa sentiu seu estômago esfriar. Além da aparência envelhecida e intimidadora do local, já imaginava que não seria bem-vindo. Você não chega simplesmente para um religioso, em pleno século XXI , e pergunta sobre um menino cigano que tinha parte com o Demônio. Mas era exatamente isso que ele estava prestes a fazer. Talvez por isso tenha preferido, antes de tocar a campainha, ocupar um assento em um ponto de ônibus logo em frente ao casarão e observar. Ninguém entrou ou saiu por vinte minutos, o máximo de agitação até ali foram dois cachorros que atacaram um ao outro. Um deles, o bege que levou a pior do cachorro preto, teve o focinho rasgado. Uma mulher gorda chegou para socorrê-lo e levou o animal em seu colo. Ela também perguntou a Nôa o que ele tinha na cabeça para não separar a briga. O rapaz respondeu que tinha seus próprios problemas. Foi quando atravessou a rua.

A frente do monastério contava com um portão alto e enferrujado. Ao lado dele, a murada era toda de tijolos gastos e um pouco apodrecidos. O ponto mais alto da construção tinha uns seis metros. Nesse local ficava uma torre que perdera seu sino há muito tempo.

Nôa precisou caminhar alguns metros em frente à construção para encontrar a campainha. Ficava nos portões, logo abaixo de um artefato de bronze — uma boca de leão escancarada. Sem muita coragem, apertou o interruptor e esperou que alguém o atendesse. Um sereno fino começava a cair do céu. Nôa olhou para cima, sentindo a condensação pura resfriar seu rosto. Tinha acabado de acordar, mas seu corpo pedia descanso.

Com os olhos fechados, sentiu falta da mãe. Ela teria dito que saísse da chuva. E também que Nôa não precisava passar por tudo aquilo, que se ele não fosse orgulhoso poderia contar com a ajuda do pai para fazer uma faculdade que daria a ele algum dinheiro. Em seguida, ela começaria a chorar, se perguntando onde foi que errou para ter um filho tão insatisfeito e infeliz. Então, seu pai chegaria, falaria umas poucas e boas e pediria que Nôa não voltasse a pôr os pés em sua casa enquanto não conseguisse conversar com sua mãe sem fazê-la chorar.

Alguém dentro de uma batina marrom abriu a porta enorme que protegia o casarão depois dos portões. Havia um brasão entalhado nela, velho e descorado. O homem não saiu imediatamente. Em vez disso, olhou para os dois lados de onde estava Nôa. Quando constatou que ele estava sozinho, tomou o caminho ladeado por uma grama baixinha que levava até o portão. Sinalizou que Nôa fosse até ele.

— Estamos em retiro — disse quando se encontraram.

Nôa não conseguia vê-lo direito, o capuz cobria a maior parte do rosto. O que ficava mais visível eram seus olhos, azuis de doer a alma, e as mãos magras demais.

— E quando vocês abrem? Preciso falar com o responsável.

— Nós nunca recebemos ninguém. Mas se você tiver algum documento, ou algo que queira tratar, eu levo os papéis e as informações até o… responsável .

Nôa respirou bem fundo mais uma vez.

— Olha só, vou tentar simplificar para você. Eu vim de longe, e estou hospedado em um lugar que até os cachorros rejeitam. Não pode pelo menos me deixar falar com alguém?

— Senhor, você está falando com alguém. E caso já tenha terminado, preciso voltar para dentro. Tenha um ótimo dia, sim? — O homem deu meia-volta. Nôa gritou que ainda não tinha terminado e ameaçou pular o portão. O frei não diminuiu o passo por causa disso. Ele atravessou a porta grande de onde tinha saído e a fechou.

— Tá certo, vamos ver quem é mais teimoso.