Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 22 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 2

Dizem que artistas precisam de inspiração, mas qualquer um que teve o azar de amar essas peças complicadas do universo sabe que o ingrediente mais importante do prato chama-se solidão. Assim, Nôa preferiu ficar em casa e nutrir seu corpo em vez de alimentar o relacionamento com Liza. Em minutos, o prato de comida deixado por ela se esgotou sobre a mesa. Cada pequeno farelo, tempero, até mesmo o arroz úmido e colado de Liza que embrulhava o estômago de Nôa foi consumido. Comer era uma necessidade, nunca se ouviu dizer que um morto produzisse algo além de carniça. Terminada a refeição, ele ainda esperou por dez minutos. Se Liza se arrependesse e voltasse para casa, era melhor não encontrá-lo no estúdio.

— Ah, que se dane — disse a si mesmo quando o apelo das tintas superou seu bom senso.

Nôa voltou para o quarto transformado em ateliê e abriu um pouco da janela. Talvez Liza estivesse certa. Um pouco de luz do sol, um pouco de vida — talvez fosse isso que estivesse faltando. Isso e comida no estômago. Nôa sentia-se quase disposto. Suas pernas doíam, sua coluna doía um pouco mais; no entanto, seus braços estavam ansiosos para recomeçar. Depois de separar alguns pincéis, Nôa pousou uma tela em branco sobre o cavalete. Também preparou seu conjunto de tintas. Olhou para a cor preta, uma das mais usadas. Sua falta de inspiração custou caro. O frasco estava bem abaixo da metade, e praticamente não havia dinheiro em sua carteira. Precisaria economizar ou não haveria contornos nos novos quadros.

Olhou de relance para o livro sobre a mesa. A verdade é que ele ainda parecia mais sedutor do que a tela. Tantos segredos, tantas possibilidades. Se o que diziam sobre o garoto fosse verdade, ele tinha as chaves para poderes desconhecidos pela maioria dos homens. Nôa não julgava que isso acontecera a todos os artistas, mas alguns simplesmente não teriam tido condições de produzirem suas obras sem uma forcinha do além. Seria como acreditar que Bob Dylan, um menino semianalfabeto e virgem, de repente caiu na estrada e se tornou um gênio folk em dois meses. Não, não mesmo. Bob também passou pela encruzilhada.

— Foco, Nôa! Foco!

O pincel em sua mão direita estava pronto. Carregado de tinta, as cerdas bem perto da tela. A luz que entrava pelo quarto era morna e quase desprezível. O rádio estava desligado, para que ele não começasse a pintar alguma letra medíocre que sempre toca nas FMS . Nôa sabia que o primeiro impulso deve ser sempre silencioso. Depois vale tudo, valia até mesmo trepar sobre a moldura e pintar com a bunda da esposa.

Mais uma vez não havia nada dentro dele. O homem sentia o vácuo, a ausência, a completa falta de direção. Seu braço direito começou a tremer um pouco, respingando tinta no piso frio do chão. Não. Ele precisava tentar. Liza estava certa, ele tinha algum talento. Um completo imbecil não teria recebido o Prêmio Rios de melhor obra contemporânea. Ok, a menos que existissem outras dezenas de imbecis se candidatando para o mesmo concurso.

— Quem eu quero enganar? — perguntou a si mesmo.

Nôa atirou o pincel sobre a tela e se afastou sem notar a mancha que traduzia toda sua angústia. Voltou à mesa onde algumas páginas apodrecidas pelo tempo — e principalmente pelo seu conteúdo — pareciam mais promissoras. Sentiu um calafrio percorrer sua pele ao tocar o livro. Também sentiu um princípio de ereção que logo se foi. Era um sinal que o melhor a fazer era dar outra chance ao material que o consumia há anos. Mas depois de tanto tempo… Ciganos eram místicos e não se importavam muito com a verdade, pelo menos quando tratavam com o mundo desprezível dos brancos. Essa era a principal diferença do que tinha em mãos. Eram fragmentos de um livro cigano, escrito por ciganos para advertir outros ciganos. Nenhum galego azedo havia botado as mãos nele.

Decidido a ler e entender todo o poder contido nas páginas, Nôa desistiu de vez de seu talento. O que ele queria era glória, dinheiro, poder. E Deus sabe que ele desejava bem mais do que conseguiria administrar.