Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 79 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 2

Mesmo que tivesse tomado o táxi mais rápido do mundo, o tal Aim não chegaria tão rápido. E ela podia jurar que não havia ninguém por lá a não ser seus dois clientes das madrugadas de sexta. Desprezando o olhar confuso da garçonete, o homem misterioso passou por ela e caminhou até a mesa de reunião improvisada. Era negro e bem alto.

— Boa noite — ele disse, ainda de pé. A voz era quase uma ameaça. O homem parecia ainda mais alto perto dos outros dois homens sentados. O bonitão era lindo, mas não era alto. E o tal Pedro parecia um penico.

— Sente-se — disse o bonitão.

Talvez trafiquem drogas, além das mulheres.

Lucrécia conhecia o velho turco e sabia do ouro branco “em pó” que ele vendia — para os clientes mais seletos. Gente fina, que saía de seus castelos e precisava de um porãozinho agradável para comprar açúcar. Ela nunca vendera essas coisas, mas fazia vistas grossas. Já tinha problemas demais para dar uma de informante da polícia, desde que o marido a abandonara, deixando-a com três dentes a menos e um monte de contas para pagar. Mesmo assim, ela não reclamava de suas misérias, preferia agradecer por não ter um filho na mesma situação lamentável. Também achava que Deus estava surdo há um bom tempo, então, pedir alguma coisa era perder tempo.

— Vocês acabaram de me fazer perder um clientaço — disse o homem negro. — Um não, cinco! — ele completou, um pouco irritado. Todos se irritam com perdas, ainda mais ele, um líder Damaled .

— Banda de rock? — perguntou o garotão.

— É… Quase assinaram. A concorrência anda atrás deles, fazendo o que sabem fazer de melhor.

— Que é…? — perguntou Pedro.

— Me foder, camarada, me foder. Mas vamos resolver o que interessa por aqui, tenho uma reunião com meu pessoal antes de o sol nascer.

Lucrécia continuava atenta, torcendo para aquela conversa esquentar e animar sua noite de sexta-feira. Pensar na vidinha sem graça que levava a deixava doente. Mais que a falta de dinheiro, a falta de diretrizes e sonhos a estrangulava. Trinta e oito anos de derrotas faziam seu espírito usar uma bengala. Sua mãe costumava dizer que o sofrimento envelhecia e cada ruga de Lucrécia concordava com ela. Se tivesse ouvido seus conselhos… Teria pelo menos evitado tipos como o traste do ex-marido… Mas ninguém conhece do amargo e do doce até que prove. Com Gil, Lucrécia teve o bastante de um homem para não querer mais nada. Seus namorados agora eram o emprego e um vibrador descascado chamado Milton, comprado nos anos 1990.

— O Pedro dizia que está faltando um pouco de preparo para a venda de novos contratos. A informação confere? Como está sua equipe? — perguntou o bonitão. O homem negro fritou Pedro com um olhar que borrou de medo até a distante Lucrécia. Um olhar furioso, os olhos quase desaparecendo dentro do rosto de estivador.

— A incompetência sempre tem um culpado, é o que eu penso — disse Aim, seco e seguro.

— Ei, tenha calma… Vou explicar melhor — Pedro contemporizou.

Lucrécia apostaria que o bonitão de jaqueta de couro — que parecia despojado demais para ser dono de alguma coisa que não fosse uma motocicleta — se divertiu com o pavor do gorducho de terno. O homem negro também estava de terno. Impecável por sinal, cada vinco, cada abotoadura de ouro, o prendedor de gravatas. Tudo nele parecia perfeitamente ajustado. Pensou que ele se parecia com o ator que fez O Mistério de Candyman — o cara que era evocado no espelho —, só que Aim era mais forte. Também percebeu que ele ainda estava sem um copo. Lucrécia virou de costas, procurando uma tulipa especial — quase nunca usava uma daquelas, o chefe não gostava. Pedro tomava uma Norteña, cerveja uruguaia da casa. Segundos antes, ele a ofereceu ao homem negro para acalmá-lo.

Naquele momento, Aim Lamé conferiu que não estava sendo observado pela garçonete enxerida e abriu a mão direita. Um dos copos secos, que ela fingira secar minutos antes, saiu de onde estava e foi parar na palma da mão dele. Pedro não gostou. O garotão de jaqueta de couro não se importou, pagou a ousadia com um riso curto e isso foi tudo.

— Precisava fazer isso? Se ela tivesse visto, precisaríamos matá-la! Que droga, Aim! — lamentou Pedro. Lucrécia também encontrou seu copo. Olhou para a mesa um pouco antes de atravessar o balcão pela portinhola suspensa.

Onde ele arranjou o copo? , ela se perguntou. Deixou como estava. Não era a primeira vez que algo no velho vagão transformado em lanchonete a assustava. Ela até gostava disso. Quebrava a rotina.

— Pedro, Pedro. Autocontrole é o segredo — disse Aim, mas só depois de beber da cerveja.

— Não entendo vocês… — Pedro resmungou.

— Nem tente. A coisa aí dentro — disse Aim, sinalizando com seus grandes dedos a própria cabeça — não acompanharia.

— Chega dessa implicância. Sabem o quanto precisamos uns dos outros. Agora diga, Aim: como podemos melhorar o que a sua equipe vem fazendo?

Os ombros retesados de Aim perderam um pouco do tônus.

— Tudo bem… Admito que estamos tendo alguns problemas técnicos.

Lucrécia se aproximou mais, ainda protegida pelo balcão. Estava agachada agora, os joelhos doíam, mas e daí? Conseguia ouvir perfeitamente os três homens. Bem devagar, puxou um banquinho de madeira — que servia de suporte para alcançar o topo do balcão onde ficavam as bebidas mais caras — e sentou-se. Recostou-se no balcão, acabou esbarrando em uma coqueteleira com seu braço esquerdo. Cuidado, garota! Apanhou o recipiente de alumínio antes que chegasse ao chão, dois centímetros antes do chão; precisa como um tiro de sniper .

Sabia que aqueles homens eram perigosos. Podia sentir. Como toda criança sabe que a floresta cheira a morte e que os velhos nem sempre são bonzinhos. Coisas que o coração grita bem alto. Aim olhou para trás. Não encontrando nada, a não ser o balcão de madeira, retomou sua linha de raciocínio.

— O que está acontecendo é que eles não sentem mais medo. A maioria. A porcaria da ciência está acabando com o nosso negócio. A ciência e a Igreja, que agora faz carinho nos ateus. Às vezes, sinto saudades da Santa Inquisição.

Lucrécia era um microfone com captação ativa.

— Sem contar que precisamos lidar com esse monte de filmes de terror, livros, essa baboseira toda. As pessoas não têm mais medo do nosso pessoal. A gente faz o que sabe, assopramos temores e ideias ruins, escondemos as chaves do carro, jogamos panelas no chão. E nada. Ou eles culpam o vento, ou dizem que é problema psicológico. Todo mundo tem o diabo de uma explicação. — Quando notou o que tinha dito, Aim desculpou-se. O chefe o absolveu com um sinal e perguntou: — Tentaram falta de grana? Quando falta dinheiro, os idiotas enlouquecem. Faça um pai de família perder o emprego. Dê um câncer a ele. Incentive a filha a se drogar e transar com o porteiro cheirador de cocaína. Que é isso, Aim… Não te coloquei nesse cargo à toa… Você é bom.

— Sei disso, chefe. Mas o meu pessoal está se superando lá fora. Não dá para pressionar mais.

— E traição? Chifre? Deixa a macacada louca também — sugeriu Pedro. Lucrécia ouviu e tentou afastar suposições da cabeça. Não estava pronta para acreditar no óbvio.

— Claro que sim. Os sujeitos nem ligam… Trocam de mulher como trocam os pneus do carro. E as mulheres nem isso… Se tiver grana envolvida, então, ninguém se importa que o maridão ande transando com outra. Aceitam mais sujeira que uma privada pública.

— E por que nada disso chegou aos meus ouvidos até agora? Eu não sou onisciente, pô! — disse o chefe. — Não aqui em cima.

— Calma, seu Lúcio. A gente vai resolver — disse Pedro.

Lucrécia adorou saber o nome do bonitão. Lúcio… Nome forte.

— Calma? Calma o cacete! Sabe quanto tempo eu demorei para conseguir ganhar alguma coisa nesse planetinha de bosta? Milênios, porra!

Lucrécia sentiu um cheiro forte, algo queimando. Um cheiro ruim como ovo podre, e bem mais intenso. Quase saiu do esconderijo para fiscalizar, mas se fizesse isso, perderia o final da conversa. Estava quase certa de que aqueles três eram demônios. Ainda podia ser uma pegadinha de mau gosto, uma besteira para a TV de domingo, mas ela iria até o fim. Se o cara mau e bonitão que estava tomando umas biritas fosse mesmo o Diabo, tinha muito a tratar com ele.

— Só gostaria de saber uma coisa — disse Lúcio, ligeiramente mais calmo. — Se eles não querem as graças do Pai e nem as minhas, querem o quê?

— É isso o que não conseguimos descobrir — disse Aim. — Vou dar outro exemplo. Tinha esse homem… Cliente potencial, vindo da área de armamento. O Berzeck. O cara desanimou depois de projetar a bala mais perversa do país; a bala de bruxa. — Pedro boiava na definição, a Norteña esquentando na mão direita. Aim explicou: — São balas envenenadas. Não são feitas para matar, só para enlouquecer. O pessoal do Exército gosta de usar. Parece veneno de barata. Você acerta um soldado, um só. No meio da noite, o filho da mãe acorda psicótico, achando que todo mundo é seu inimigo. Banho de sangue garantido. Também usam para acalmar rebeliões em presídios.

— Já entendemos, Aim — disse Lúcio. — Mas e aí? O cara desanimou e…?

— Ficou doente da cabeça. Eu mesmo acompanhei o caso. O ponto é que o Berzeck ficou tão perturbado com os resultados de sua invenção que começou a procurar explicações para a vida dele. Quanto mais ele corria para o outro lado, para o deus dele, mais a gente se esforçava. Seguimos o protocolo e fizemos a mulher dele, que já não valia muita coisa, transar com o quarteirão todo. Fizemos a cabeça dele para que contratasse um detetive e filmasse tudo. Sabe no que deu? — Pedro e Lúcio ouviam atentos. — Em nada. O filho da mãe assistiu à fita, chorou uma meia hora, arrumou as malas da mulher e pediu para que ela saísse de casa. Educadamente! Nem um soco, chefe! Nem uma subida de voz. Nada.

— É… Existem casos que não tem jeito… — lamentou Lúcio. — Com Jó foi assim.

— Mas não paramos por aí, sabíamos da importância de ter um cara feito o Berzeck trabalhando na equipe. Atacamos o garoto dele. Falávamos obscenidades em seus ouvidos o dia todo. Incentivávamos todo tipo de ideia promíscua, fazíamos com que seu ânus pinicasse noite e dia. Não demorou muito, o moleque se viciou em pó e começou a fornecer o rabo magro para pagar seu vício. Sabe o que o pai fez? Poxa vida… Esperávamos pelo menos uma crise de choro. O babaca do Berzeck pagou um psicólogo e um curso de artes para o filho. Artes!

— Que filho da mãe — disse Pedro. Suas mãos estavam por baixo da mesa, massageando o zíper. Ficara excitado com a história do garoto, como sempre ficava quando ouvia algo assim. Lembrou-se de quando assinou seu próprio contrato. Tinha apanhado a esposa transando com o motorista, por trás, com requintes de sodomia. Na época dele, esse tipo de surpresa bastava para desesperar alguém. Pedro ficou doido e entrou para a empresa de Lúcio na mesma semana.

— Tentaram mais alguma coisa? — perguntou o chefe.

Entrincheirada no balcão, Lucrécia tremia. Já não tinha dúvidas. Aqueles homens eram mesmo demônios. Seu coração pulava para fora do peito. A boca estava tão seca que a língua sentia os lábios trincando com a falta de saliva. Seu estômago estava gelado. Com o interesse naquela conversa, a garçonete esquecera completamente o remédio que precisava tomar quatro vezes ao dia para manter o sangue dentro dos vasos — sua pressão devia estar explodindo. Nem com a genética tivera sorte na vida, descobriu que era hipertensa aos 32 anos. Ainda assim, não sairia dali, danem-se os remédios. Lucrécia queria aproveitar a chance. Mas que tipo de préstimos uma azarada como ela ofereceria ao Diabo? O que barganharia com ele? Nem Deus — que era bem menos exigente — quis muito assunto com ela. Ela imaginava que o diabo charmosão colocaria fogo em seu corpo assim que a visse. Mas a garçonete não imaginava o valor que uma alma — inclusive almas bem piores que a dela — tinha para ele. Almas humanas, caras e disputadas.

— Tentamos de tudo, chefe… — respondeu Aim. — Já no desespero, colocamos o Berzeck na cadeia, um policial corrupto que aliciamos ajudou nisso. Tarefa fácil para o meu pessoal. Berzeck pegou pena por pedofilia, teve dedo nosso na condenação, claro… O homem foi estuprado duas, três vezes por semana, durante um ano, pelos maiores “picas” do xadrez. Bandidos violentos… — O chefe bonitão sorria com as manobras, orgulhoso. Porém, aquilo não duraria.

— Sabe o que ele fez? — perguntou Aim.

— Me surpreenda — disse Lúcio.

— Fundou uma porcaria de igreja evangélica. Dentro da ca-dei-a! Foi o golpe final. Meu pessoal saiu com o rabinho entre as pernas e desistiu dele. É duro assumir, mas estamos com dificuldades, sim. O seu ex-patrão deve estar rindo à toa.

— Cuidado, Aim. Ou vai voltar para o buraco sujo de onde saiu — preveniu Lúcio.

— Calma, Lúcifer — disse Pedro.

Aim baixou a cabeça e a agitou para os dois lados.

Em seguida, o ar do velho vagão ficou avermelhado. Também ficou quente, como tudo o que era de metal ali. Chaves de carro, pregos, parafusos, prateleiras. O tonel de chope parecia uma panela de pressão. As torneiras chiavam. A correntinha de prata que circulava o pescoço de Lucrécia queimou seu pescoço.

— Nunca mais me chame assim quando estivermos aqui em cima!

Os olhos de Lúcio sibilavam com a cor do fogo. Não só a retina, mas todo o olho. Pedro tirou seu relógio do pulso e o que tinha nos bolsos antes que se queimasse. Aim aceitou as queimaduras e esperou o chefe se acalmar.

— Ai, que droga! O que é isso, meu Deus? — disse Lucrécia. Alto demais. Mas não foi só isso. Enquanto tirava o colar fumegante, ela se desequilibrou, derrubando meia dúzia de copos no chão. Quando conseguiu coragem para se levantar, os três homens olhavam para ela.