Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 69 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 17

Marcos deixou o condomínio e caminhou até que o dia se tornasse noite. Ele só parou quando encontrou um trailer com bebidas, lanches e algumas pessoas. Precisava aliviar a cabeça e nada melhor para isso do que trocar confissões com desconhecidos. A culpa o acompanhava. Durante a caminhada que o tirou do condomínio Osaca e o levou a um bairro pobretão das redondezas, chegou a ter saudade dos dias de pouco dinheiro e sono tranquilo. Nunca pensou ser possível alguém desejar o fracasso, mas, por favor… Entre o fracasso e a morte? Quem ficaria com o Zé da Foice?

No trailer, a primeira coisa a chamar sua atenção foi o dono. Alguém com cara de sujo, fritando uma linguiça fedorenta na chapa. A nuvem de fumaça e temperos parecia gostar dele, o impregnando com sua gordura. No lado dos clientes, um velho usando trapos surrados comia pão recheado com ovo e alguns pedaços de linguiça. Provavelmente as pontas das linguiças rejeitadas pelo senhor higiene que era dono do trailer.

— ‘Noite — disse Marcos. O velho demorou uma eternidade para cumprimentá-lo de volta. Tinha retinas esbranquiçadas e era surpreendente que enxergasse alguma coisa através daqueles olhos. O gordo sujo jogou bacon e uns pedaços de carne na chapa, fazendo mais fumaça subir. As luzes do trailer tenderam ao azulado da luminária, deixando tudo um pouco escuro e provocante.

Não dava para saber o que ele fritava ali, mas, Deus, o cheiro estava bom. Marcos já começava a ficar com fome quando a pequena TV dentro do trailer começou falar sobre o assunto número um da região. Ele esperou que a reportagem terminasse para puxar assunto. Antes, também notou uma criança, mas só quando ela começou a mastigar pipoca doce, amassando um saquinho cor-de-rosa. Para um menino sozinho em um bando de adultos, ele estava bem à vontade. Devia ser parente do dono do trailer. Marcos notou que ele tinha algo familiar — o mesmo jeito de olhar do velho Randy, concentrado em coisa nenhuma.

O velho maltrapilho comia depressa, derramando pedaços de tomate sobre o peito, nas pernas e no chão. Cheirava a álcool e fumo, e tinha as bolsas dos olhos arroxeadas de quem sempre dormia sem colar as pálpebras — como soldados e mendigos costumam fazer.

— Um absurdo o que esse maluco anda aprontando — disse Marcos. O velho abriu a boca desdentada e mostrou restos mastigados de pão e ovo. A criatura gorda da chapa esticou o pescoço para a televisão engordurada e voltou para a espátula.

— Pessoas enlouquecem às vezes. Faz parte da vida — ele falou, ainda de costas.

— Esse desgraçado devia sofrer na pele o que faz com os outros. Alguém devia fatiá-lo como carne de segunda, arrancar suas vísceras e seus dentes, e depois jogar descarga abaixo — disse Marcos.

— No jornal, não falaram nada sobre dentes — respondeu o gordo, ainda na mesma posição.

Marcos revelara demais, mas o dono da chapa não o interrogaria. Suas costas diziam isso.

Era um homem alto, um pouco calvo; tentava usar branco. O avental já estava bege, quase marrom, de tanta gordura impregnada. Marcos se lembrou da camisola antiga de Odeta, quando ela ainda era Odeta-Tonelada.

— Se existisse alguma justiça no mundo, Deus meteria fogo em um cara desses — Marcos insistiu. Precisava botar para fora. Suas surpresinhas o corroíam por dentro.

— Deus não se ocupa com isso. Fogo é coisa do Diabo — disse o dono do lugar.

A frase reverberou dentro de Marcos.

O silêncio agressivo, rompido apenas pelas novas mentiras da TV , fez com que o senhor higiene tornasse a falar quando a chapa ficou vazia. Ele colocou o que preparava em um pratinho, possivelmente aquilo seria seu jantar. Cheirava bem, como uma prostituta doente também cheira bem.

— Vou dizer uma coisa, rapaz. Eu já trabalho na noite faz trinta anos. Vi muita coisa estranha andando por aí depois das onze, coisas que a televisão prefere não mostrar. Porcarias que meteriam medo em um coveiro.

Marcos balançou a cabeça, apontando para a criança, preocupado que o homem assustasse o garotinho com aquela conversa. O dono do trailer fechou a mão, esticou o indicador e circulou sobre a têmpora, fazendo sinal de miolo mole . Pareceu tão insensível dizer que deficientes mentais não sentiam medo… Claro que eles sentem, como Randy e seus trovões.

— Mas e esse animal? — continuou Marcos. — Ele parece um canibal, meu Deus, ele… ele fatia as pessoas. Remove os órgãos das vítimas.

— Algumas pessoas nascem diferentes do resto. Sem filtros .

— Filtros?

— Todo mundo tem um filtro, chefe — o homem de costas explicou enquanto besuntava catchup e mostarda sobre sua comida. — O filtro é quem diz para gente o que é bom ou ruim; o que você pode deixar entrar na sua alma ou não. Esse doido aí — apontou a bisnaga de mostarda para a TV — nasceu sem isso. Todo mundo, vez ou outra, tem vontade de matar alguém. Um chefe, uma vagabunda, o filha-da-puta do vizinho que resolve lavar o carro com o som alto no domingo de manhã. Caras como esse doido têm mais raiva e menos filtro. Aí dá nisso.

O velho, que terminava seu pão-com-gordura, concordou com a cabeça. Quem sabe ele mesmo já tivesse acabado com a vida de alguém? O pagamento estava ali; velho, sujo, ferrado. Marcos via um prazer obscuro rondando aqueles olhos esbranquiçados.

— Não acho que ele seja maluco — Marcos disse. — Ele é meticuloso, sabe bem o que está fazendo… Malucos são desregulados.

— Rapaz, rapaz… Como você sabe de tudo isso? Conhece o cara? — perguntou o gordo.

O velho riu, cheio de catarro.

— Não! Pelo amor de Deus, não!

— Então não fique falando coisas . Atrai desgraça. Os pensamentos a gente segura, mas palavras não. Com quem você anda falando, Marcos ? — o senhor higiene perguntou. Finalmente ficou de frente para ele, expondo uma barba cheia e grisalha, marcada por nicotina perto dos lábios.

O velho riu mais alto, cuspindo o finalzinho do pão no chão. Um cão sarnento saiu de debaixo do trailer, de trás das rodas, e começou a comer os restos. Tinha a pele toda enrugada, rosada e sem pelagem, algumas feridas espalhadas pra lá e pra cá. O velho fez um carinho no bicho, sem se importar. A criança com olhar de Randy baixou o boné para cobrir sua expressão fria e distante. A rua parecia mais escura agora, ainda mais azulada e lúgubre. O ar também ficou quieto e até o cheiro de tempero se tornou uma memória borrada. O cozinheiro continuava esperando uma resposta de Marcos. “Com quem você anda falando?”, ele perguntara. E ele sabia seu nome. Como poderia saber? Marcos não havia dito a ele. Os olhos castanhos cobertos por sobrancelhas enormes esperavam respostas, mas o rapaz fez outra pergunta: — Como sabe meu nome?

— Não precisa ter medo, Marcos. Está entre amigos aqui — ele respondeu, retornando para a chapa e colocando uma touca encardida na cabeça. Marcos pensou do que adiantaria colocar aquela merda agora, a chapa estava vazia.

— Como você sabe a porra do meu nome? — Marcos perguntou mais alto. Espalmou o balcão e ficou esticado sobre a trave que unia os pés do banquinho. O rosto vermelho e quente. O velho baixou o rosto esquálido sobre os braços apoiados na janela do trailer. Estava rindo descontroladamente, socando o balcão com as mãos. O cachorro correu dali. O garoto puxou ainda mais o boné para baixo, cobrindo totalmente os olhos. Começou a se mover para frente e para trás, como um “cuco” estragado.

— É melhor se acalmar, Peter Pan — disse o dono do trailer.

Marcos estremeceu de novo.

Conhecer seu nome já era estranho, mas aquele apelido? Marcos não o ouvia desde a quinta série, quando ainda apanhava dos garotos do colegial — surras que o levaram a abusar de garotos menores, pagando o favor. Ganhou o apelido de Peter Pan em uma peça de teatro que encenou aos oito anos. Acabou fazendo xixi no palco. Era apenas uma criança e não conseguiu controlar o nervosismo quando a cortina vermelha se abriu. Todos riram e ele se tornou a piada mais engraçada dos corredores da escola, mais engraçado até que o garoto que tinha uma única calça e sobrenome de mulher (Margarida).

— Como sabe di-disso? — gaguejou.

— Sabemos de muitas coisas — disse o gordo. Mas não era mais a mesma voz grossa de antes. Marcos se ergueu no banquinho, tentando confirmar aquele absurdo.

— Sabemos de tudo! — gritou o senhor higiene. Em um sobressalto, voltou a se virar de frente.

E era Odeta quem apareceu em seu lugar. Enorme. Suada. Nojenta. Sua boca estava costurada e molhada de sangue. Ela tentava abri-la, descosturando fragmentos de lábio por onde vazavam sangue e cuspe. Marcos se afastou e perdeu o equilíbrio, caiu de costas no chão e se arrastou na mesma posição. Os pés patinaram sobre a grama. O rosto perdeu a cor.

— O que é isso? Que porra de lugar é esse? — perguntou. Conseguiu se reerguer a dois metros do trailer.

Dentro do veículo, a boca de Odeta era uma cortina de carne partida, uma persiana vermelha e ensanguentada movida pelos ventos vindos da garganta. O sangue manchando a roupa, encardindo o bege de vermelho.

— Me beija, amor — disseram seus lábios fatiados. A dicção empapada era quase incompreensível. O cheiro ainda masculino nas roupas.

— Alguém me ajude! — Marcos gritou.

À sua frente, o garoto atirou o boné para longe. E surgiu Randy. O que ele comia do saquinho não era mais pipoca doce. Eram dentes, que de tão podres esfarelavam a cada mordida. Ainda havia restos de carne presos neles. Fiapos escurecidos, como algo que sai de uma panela de pressão. Seu garoto mantinha o mesmo olhar de antes, vazio e desalmado. Olhos vindos de um Inferno qualquer.

Suas roupas foram ficando mais claras e grossas. A camiseta se espessou e formou outro tecido. Correias surgiram nos pulsos e logo seriam capazes de torcer seus braços para trás. Randy estava enfiado em uma maldita camisa de força. Ainda estava aberta, mas claro que alguém viria fechá-la mais tarde, e…

— Qué poquinho, papá? — perguntou Randy. A camisa trançada como um quimono .

— Jesus Cristo! O que fizeram com você? O que fizeram comigo ? — Marcos perguntou, perdendo o controle da bexiga.

— Peter Pan! Seu Peter Pan de merda! — disse a Odeta de lábios recortados, apontando seu dedo engordurado para ele. Randy riu. O velho se acabou de rir outra vez.

Marcos estava enlouquecendo, todos rindo dele e dizendo aquelas coisas terríveis. Lembranças que o magoavam. Liberando sua ira, apanhou um porta-guardanapos de alumínio que havia no balcão e atirou contra a cabeça do velho. Acertou-o de quina e imediatamente um filete de sangue brotou no topo da cabeça dele. Os cabelos sujos e esbranquiçados foram ganhando pigmentação vermelha, o velho levou as mãos ao ferimento e todos pararam de rir. A cabeça de Marcos explodia. Devia haver um aneurisma do tamanho de uma bola de pingue-pongue se espreguiçando lá dentro. Expandindo sua bolha gigante de sangue. Pulsando e distorcendo o que ele entendia do mundo.

Logo o ar temperado começou a cheirar a carne podre. A luz diminuiu ainda mais. O ambiente ficou da cor de um azul quase prussiano. Vindas de lugar nenhum, mariposas famintas atacaram a luz do poste de rua em frente ao trailer. Em segundos, somente a frágil luz azulada da lanchonete tomava conta de tudo.

— Não devia ter feito isso, garoto — disse o velho. As cópias de Odeta e Randy se afastaram do balcão do trailer, tentando fugir do alcance do velho e de uma possível reação explosiva dele. Marcos esboçou um “me desculpe” que não alcançou a boca.

O homem velho levantou do banquinho e o encarou, eriçando uma sobrancelha. Levou uma das mãos sujas para cima da cabeça, para o corte e origem do filete de sangue.

— O que você está faze…?

O silêncio invadiu Marcos quando ele viu a unha do dedo indicador do velho abrir caminho pela carne, dilacerando o pequeno furo e desaparecendo dentro do couro cabeludo. Em seguida, viu o mesmo couro esticar-se para esconder o resto daquele dedo calejado e encardido. A pele era um cobertor velho ameaçando rasgar.

— Meu Deus — disse Marcos.

— Melhor tentar outra pessoa — disse o segundo Randy, dentro de sua camisa de força.

Enquanto isso, o velho mergulhou outro dedo no buraco da cabeça. O barulho de tecido rasgado infestou os ouvidos de Marcos. Porém, aquilo não era tecido, era carne, era o couro cabeludo ornamentado de caspas de um velho andarilho. As roupas ferradas que ele usava diziam isso, que ele era alguém com quilômetros rabiscados na alma. O ruído aumentou, na mesma proporção do sangue que escorria sobre o rosto para depois tomar o corpo. A jaqueta jeans imunda e cheia de broches ficou vermelha e úmida. O andarilho colocou os dedos da outra mão dentro do rasgo, que agora parecia uma boca sem dentes e recheada de banha branca. Um a um, colocou todos os dez dedos para dentro. O estômago de Marcos saiu de órbita, mas o vômito não vinha. Não sobrou muita coisa depois da última vez. O velho gritou alto quando trouxe toda a carne do couro para baixo, descarnando-se. Porém, debaixo daquele sangue todo não havia somente tecido muscular ou ossos. Havia outra pele. Outro ser. Outro Marcos .

Seus joelhos deixaram de funcionar quando viu o próprio rosto.

Era ele quem estava dentro daquele velho maltrapilho. E sua versão ensopada de sangue sorriu, mostrando os dentes retos e amarelados que conhecia tão bem.

— Não!

O clone se aproximou, respingando sangue por onde passava; a grama secando a cada gota. O Marcos número um continuava de joelhos, rendido e indefeso, respirando toda a aparência horrível daquele outro que se aproximava. Sua cabeça estava à altura do cinto do homem sujo à sua frente. Marcos olhou para a virilha do vagabundo e temeu por algo que jamais confessaria. O desgraçado colocou as mãos ensanguentadas sobre a cabeça de Marcos e abriu caminho com as unhas. Uma abertura onde também caberiam muitos dedos. Ele começou a gritar, mas estava preso pela dor.

— Sua vez, irmão — disse o outro Marcos. — Quero ver o que tem escondido aí dentro…

Com o sangue sobre os olhos, o ar prussiano ficou vermelho e escuro.

— Nãããããooooo!!! — Marcos gritou até estirar suas cordas vocais.