Ultra Carnem
Capítulo 6
— Lá vem o nojento — disse Leonardo, mais conhecido como Buba. Seus setenta quilos impunham respeito, mas não o suficiente para que evitassem um apelido. Agora era só Buba, mas antes de apanharem um bocado, outros garotos o chamavam de Buba-Baleia. Ainda faziam isso pelas costas dele.
Ao lado de Buba, Ernesto. O único menino com olhos puxados do orfanato — e é claro que todo mundo o chamava de Japonês. Seus pais foram mortos em uma fazenda, eles decidiram ajudar um casal de negros a se esconderem depois de terem sido acusados de roubo. Os negros também morreram.
— Ele é coisa-ruim — disse Japonês. — Nenhum cigano presta. Meus pais falavam que eles eram ladrões.
— Seu pai e sua mãe nem sabiam falar direito, Japonês.
Japonês se encolheu um pouco e mordeu os lábios para conter a vontade de espetar um garfo nos olhos saltados de Buba.
Em segundos, todas as crianças tinham parado de comer. O silêncio dentro do refeitório era tão grande que era possível ouvi-los respirando. Mesmo as mulheres da cozinha, coordenadas por Suzana, pararam com suas panelas para observar a chegada do menino cigano.
— Olha só o sapato dele! Que vergonha! — disse Júlia. Ágata a golpeou por baixo para que ficasse quieta.
Nada que não tivesse acontecido antes. Um coitadinho chegava e todo mundo ficava provocando o infeliz. Pediam moedas, roubavam comida, roupas, tomavam o que podiam. Faziam isso até que o novato desistisse de tentar reagir e ocupasse uma das cadeiras lascadas que machucavam a bunda. A hierarquia dos meninos era bem rígida, e sempre seria assim enquanto houvesse um Buba-Baleia no comando.
Giordano colocou Lester na frente de si, suas mãos pesando sobre os ombros caídos do menino que olhava para o chão.
— Pois bem, todos sabem que ontem recebemos mais uma criança em nossa casa.
— Filho do diabo… — murmurou alguém. O culpado provavelmente era Emílio, o menino que fazia contrabando dos doces que roubava na cozinha. Giordano desprezou o insulto, parecia cedo demais para um castigo.
— Não ligue para eles — disse a Lester. — Só estão curiosos e assustados. Eles têm medo da sua gente.
Depois de encarar os pequenos rostos um a um, o padre continuou: — Este aqui é Lester. Ele também é órfão. Como todos vocês, perdeu a família que conhecia e precisa da nossa ajuda. — Depois, mais austero: — Antes que comecem a implicar com ele, quero que se lembrem de quando chegaram aqui. Eu olhei nos olhos de cada um de vocês, pedi que confiassem em mim e que tratassem uns aos outros com respeito, como a família que todos gostariam de ter. Posso contar com vocês?
— Claro que pode, até porque, se a gente fizer besteira, vamos apanhar da Suzana — Japonês resmungou. A freira estava perto demais e ouviu. Ela não deixou por menos e se aproximou mais ainda. Japonês continuou olhando para a frente, Buba riu.
Na mesma mesa também estava Ágata. Ela saiu do seu lugar, apanhou uma cadeira vazia colada à parede esquerda do refeitório e a levou para a mesa. Giordano percebeu o sinal e deu um empurrãozinho no menino cigano, para que ele fosse até ela. Lester caminhou devagar, olhando para cada uma das crianças.
As meninas eram naturalmente mais dóceis; os meninos não eram grande coisa, mas o gordo era um problema, ele encarava e não desviava os olhos. O menino japonês seria um covarde longe dos outros, ele se apoiava no gordo. O outro, que o chamou de filho do diabo , tinha o cabelo vermelho (seu apelido era Vermelho, Lester descobriria depois). Ruivos eram perigosos, a mulher mais velha da tribo sempre dizia isso. Mas ela também disse que Lester era a encarnação do mal na terra e fez a cabeça dos outros para que o expulsassem. Idiotas… Todos eles. Eles nem estavam lá quando aconteceu .
Lester ocupou sua cadeira e recebeu um prato de Suzana. Dentro dele havia duas fatias generosas de pão com manteiga. Ela também trouxe leite e uma fatia de pudim. Buba-Baleia cochichou alguma coisa com Japonês e os dois riram.
— Não se importe com eles, daqui a pouco vocês serão amigos — disse a freira.
Lester assentiu com a cabeça e apanhou um pedaço de pão com a mão direita. A mão esquerda estava sob a mesa, pressionando o tubinho enterrado no bolso.
Depois da primeira mordida, a mão insegura também foi para cima. Ele estava faminto, seu corpo precisava comer. Mais tarde teria tempo para fazer o que realmente gostava. Enquanto mastigava, Lester podia sentir o peso dos pincéis nas mãos, a textura da tela. Conseguia sentir o cheiro ferruginoso e adocicado da tinta. Pensou em sua mãe, algo que não fazia com frequência. Pobre mulher, seduzida por um feiticeiro, mutilada em vida por um trato que não poderia jamais ser cumprido. O pai do garoto — feiticeiro e mentor do assassinato — já havia morrido, mas aquilo parecia pouco. Juan — ou Cigano, como era conhecido — merecia sofrer muito mais, merecia as penas de toda eternidade.
— E então? Como nos saímos? — Giordano perguntou. Estava em pé, afastado das mesas e ao lado de Suzana. As mulheres da cozinha haviam voltado às suas panelas e as crianças começavam a falar de novo.
— O senhor está ficando cada vez melhor. Fique tranquilo, padre. Nós já passamos por isso antes. Ele vai se encontrar em nossa casa. Só precisamos garantir que ninguém se machuque feio nos primeiros dias; depois disso, Deus colocará cada um em seu caminho.
— Temo que ele não entenda nosso mundo. Somos muito diferentes dos ciganos. Eles têm roupas estranhas e toda aquela feitiçaria. Pelo que percebi, esse menino não sabe direito quem é Deus, ele sequer conhece as palavras da Bíblia! Lester está sozinho e assustado, longe do seu povo. O menino será um desafio, para nós e para ele mesmo.
Do meio do refeitório, alguém atirou um pedaço de pão encharcado de leite na cabeça do garoto. As crianças riram. Mesmo Ágata que estava ao lado dele tapou a boca e deixou o ar escapar entre os dedos. Suzana tentou ir até ele, mas o padre a impediu.
Sem demonstrar ira ou surpresa, Lester afastou a cadeira da mesa e apanhou o pedaço de pão espatifado no chão. Assoprou para tirar a poeira, depois enfiou na boca. Um pouco de leite escorreu pelo canto esquerdo dos lábios e ele o limpou com a manga da camisa clara.
— Que nojo! — disse Júlia, que, mesmo sem os dois dentes da frente, sempre falava pelos cotovelos.
Suzana observou a situação e sorriu. Com dois golpes gentis tocou o ombro direito do padre e seguiu para a cozinha. Logo depois o sino que servia de campainha do orfanato começou a tilintar. Giordano saiu apressado para atender o visitante. Olhou para Lester como se aquilo pudesse trazer-lhe boas notícias.