Ultra Carnem
Capítulo 3
Difícil acreditar que algo de bom fosse acontecer em um dia que começou como aquele. Com as obras, o caminho até o mercadinho do japonês se prolongou mais do que o esperado e o interior do 147 começava a parecer com o inferno. A camisa azul clarinha de Marcos criava manchas embaixo dos braços, o cheiro de desodorante barato travava uma guerra perdida contra o suor. A combinação resultante começava a lembrá-lo do perfume novo de Odeta — algo minimamente melhor que suor puro.
Depois de duas dúzias de ruas esburacadas e música ruim no FM , o Fiat 147 estacionava na rampa inclinada do mercado União. Marcos manteve o pé no freio e puxou o freio de mão com toda força que tinha no braço. Em sua última visita ao mercadinho, o 147 acabou descendo da rampa. Marcos deu sorte. O carro atravessou a rua e beijou o muro do vizinho sem machucar ninguém, ganhando apenas um esfolado no para-choque traseiro.
Por precaução, além do freio de mão, Marcos adotou desde então dois tocos de madeira embaixo dos pneus traseiros.
Feito o ritual dos bobos, ele apanhou uma pequena maleta de ferramentas do banco de trás e entrou. O cheiro de frutas do mercadinho logo o incomodou. Natural demais, orgânico demais, devia ter o mesmo cheiro do Japão de 1930. Nakura estava no espaço reservado ao caixa. Braços cruzados, ombros apertados, os olhos ainda menores. Mal dava para vê-los.
— Bom dia — Marcos cumprimentou.
— Bom dia nada. Quando você arrumou porcaria de computador, falou que não ia dá pobrema .
— Seu Nakura… É uma máquina velha, o senhor sabe… Eu avisei que era melhor trocar tudo, lembra? Foi o senhor quem insistiu em só trocar o HD .
— Não quero desculpa com gadê . Arruma logo porcaria. E não vô pagar nada — disse. O dedo rígido sacudindo pra lá e pra cá, como um limpador de para-brisas.
— Vou precisar dar uma olhada e checar a garantia…
— Tá na garantia, sim. Senão, corto convênio — disse Nakura. Fez um gesto de decepar com a mão espalmada, como um golpe de caratê.
A ideia brilhante de conveniar os clientes cobrando uma mixaria por mês foi do próprio Marcos. O propósito era ganhar no volume em serviços, só que o volume não veio e ele ficou obrigado a atender dez clientes que não bancavam nem a gasolina do carro. Marcos foi tão originalmente estúpido que fez tudo direitinho, na legalidade, com contrato formal e toda essa enganação. Resumindo: estava amarrado e falindo.
Sem muito ânimo, Marcos deu a volta no biombo de concreto, se abaixou e abriu a máquina, tentando não se sujar todo com o pó que havia dentro da CPU . Devia existir alguma magia secreta entre processadores e poeira, coisa impressionante…
Ele bufava, tentando liberar o último parafuso (com vontade de atirar a chave de fenda longe) quando a sorte sorriu ao seu lado.
— Oi, seu Marcos. Tudo joia? — perguntou uma voz levemente rouca e carinhosa.
Marcos ergueu os olhos, mas já sabia quem era. Acima dele, melões enormes e maduros o convidavam a sorrir. Cat estava debruçada, os braços cruzados sustentando sua melhor parte sobre a bancadinha de ardósia que cercava o caixa. Marcos continha a saliva na boca. Trabalharia o dobro, o triplo se recebesse seu pagamento em sexo — uma pena que os tempos haviam mudado desde o Japão feudal. Os bicos dos seios de Cat eram tão duros que dava para vê-los como um alto-relevo na blusinha vermelha. Marcos talvez conseguisse transar com Odeta se pensasse em Cat. De olhos fechados, é claro. E, se possível, com ela de costas. Odeta? Não… Pensar em Odeta acabou com sua ereção naquele mesmo momento.
— Vou levando, Cat — respondeu.
— Tá feia a coisa aí embaixo? — ela perguntou.
Bem que eu queria mostrar… Mas não foi o que Marcos disse, preferiu algo mais sútil como: — Computador velho é assim mesmo.
— Catína ! Vem dá jeito nessas bananas — Nakura gritou do meio do mercado.
— Vou ver o que o ele quer, o pai tá estressado hoje.
Marcos subiu, espanando a sujeira das mãos. Uma última olhada em Cat. Ela já estava dois passos à frente quando girou somente o pescoço e disse a ele: — Tchau, tio.
— Té mais, Cat — Marcos disse baixinho, pensando que se ele fosse mesmo parente dela, incesto deixaria de ser crime.
A briga com o computador continuou com Cat distante e, pelo jeito, seria o terceiro HD queimado em menos de um ano. Era muito azar… O fornecedor sacana que vendia hardwares para Marcos garantia somente a primeira peça — o que colocava o problema todo das garantias futuras em sua bunda magra, como era o caso de Nakura. Marcos conhecia aquele japonês como poucos; era difícil, quase impossível passar a perna nele. A menos que…
Na parte de cima do balcão havia um copo. Ele sempre ficava por lá, esquecido. Marcos já o tinha visto antes e alertado sobre a possibilidade de respingos. Água, suco, guaraná. O japonês ou alguém da família sempre ficava no mercadinho no horário do almoço (quase sempre era Cat). Acabavam fazendo a refeição ali mesmo (e usando a bancada do caixa como mesa).
Marcos levantou-se com cuidado para não ser visto, apanhou o suco e sorriu. O copo estava cheio com algo vermelho. Parecia morango ou uva e tinha cheiro de Quik. Delicadamente, jogou um bocado do líquido dentro da CPU , depois ligou e desligou rapidamente a energia. O suficiente para dar um curto-circuito. Enrolou alguns minutos para que a placa estivesse seca — o mercado estava vazio e ninguém precisou do caixa enquanto Marcos resolvia o probleminha com a garantia.
— Seu Nakura, dá uma chegadinha aqui.
O japonês parou o que estava fazendo com os nabos e foi até Marcos. Andava incrivelmente rápido para alguém com pernas tão curtinhas.
— Descobriu defeito? — disse ele, carregando no sotaque, como todo japa original.
— Notícia ruim, seu Nakura.
— Notícia ruim tem que dá rápido, né?
Marcos respirou mais fundo.
— Alguém derrubou suco na CPU .
— Humm — bufou o velho samurai, depois e coçou o queixo. — Deixa vê.
Nakura deu a volta no caixa, se abaixou, ajeitou os óculos, franziu a testa quando sentiu o cheiro de circuito queimado.
— Tá vendo essas pecinhas esfumaçadas? Já era. O senhor vai precisar de outra CPU . Uma nova. Por acaso tenho uma no meu carro.
— Deve tê sido fira do puta do menina . Ela não pensa, não pensa! — disse, golpeando a própria cabeça. Depois, mais afetado ainda: — Catína. Vem aqui!
Cat atravessou correndo o corredor entre as bancas. Os melões para cima e para baixo, quase acertando o queixo quadrado perfeitamente esculpido no rosto. Marcos assistiu em slow motion, pensando em uma música do Beach Boys.
— Que foi, paizinho?
— Um mês de castigo.
Os olhos ficaram confusos. Os seios subindo e descendo com a respiração apressada.
— O que foi que eu fiz?
Marcos enxergou alguma culpa por trás da indignação daquela pergunta. Gostosa daquele jeito? Cat devia merecer algum castigo. De um jeito ou de outro, ela devia ter feito algo muito, muito errado pelas costas do japonês.
— O que fala desse aqui? — Nakura estendeu o copo de suco para ela.
— O quê?… Suco?
— Suco, sim . Mas balcão não lugar de suco! — golpeou a bancada.
Agora, Nakura comia metade das letras desnecessárias à compreensão. Japoneses são práticos; economizam espaço até na fala. — Tá de castigo, Cat! Mês inteiro.
— Pai… — disse, abraçando o velho.
Marcos pensou que nenhum homem perderia uma ereção com um abraço daqueles, mas Nakura continuou com sua expressão de chuchu esmagado, como se Cat não existisse.
— Sem conversa, Catína . Já pra quarto. Depois gente fala direito.
Cat parou de abraçá-lo e voltou para os fundos do mercado. Foi até a escada em caracol que dava acesso ao andar de cima, onde era a casa da família. Marcos aproveitou para reparar nela outra vez. Além dos peitões, Cat tinha uma bundinha linda. Cat era mais perfeita que uma Ferrari movida a ar com seguro-manutenção eterno. Peitos grandes, pernas grossas, bundinha dura, lábios grossos precisando de prática. Marcos tornou a se agachar, evitando que o japonês visse algo que ele não pudesse explicar propulsando suas calças.
— Quanto fica conserto, Marco?
Com tudo o que já tinha roubado de Nakura nos meses anteriores, Marcos teve pena de esfolá-lo de novo. Para ser justo, cobraria da CPU só o custo e a gasolina. Seu pai chamaria aquilo de coisa de idiota . Ou falaria algo como: Se é pra roubar; roube direito.
— Seiscentos paus.
Nakura coçou a barbinha rala e esbranquiçada do queixo.
— Faz em duas?
— Duas fica ruim… Faço seiscentos e cinquenta em duas.
— Fechado — respondeu. — Pode trocar aparelho.
Marcos terminou de desconectar os fios e levou a CPU ferrada para o Fiat 147. Colocou a outra no lugar, sem muita dificuldade. Com o equipamento novo, teria um pouco de sossego. O próximo passo seria trocar a impressora fiscal, que também era um lixo. Ou talvez fosse melhor dar um tempo a Nakura. Clientes são como sapos na panela, você precisa cozinhá-los devagar, senão saem correndo.
— Terminei aqui, seu Nakura.
— Já testou?
Marcos ligou a CPU , levantou-se, e saiu do biombo de cimento. Esperou que a tela ganhasse vida.
— Testado — disse.
Nakura apertou uns botões. Pareceu satisfeito. Enfiou a mão no bolso direito da calça e puxou um maço de notas.
Antes de entregar, colocou os óculos e conferiu o dinheiro, nota por nota (duas vezes).
— Tá aqui o que é seu — disse.
Marcos apanhou a grana sem muita dor na consciência. Dinheiro e consciência são coisas distintas. Mesmo assim disse: — Dá uma chance pra garota, seu Nakura. Ela não fez por mal…
O velho deixou os óculos baixarem e olhou para Marcos por cima das lentes: — Computador, problema seu. Filha, problema meu. Hoje suco, amanhã barriguda em casa. Boa volta pra você, seu Marco.
— Tá certo — resmungou. Nakura não voltou a falar com ele. Já estava de costas, atravessando o mercadinho.
Marcos despachou seu remorso por Cat quando cruzou a porta do mercado. Seu dia terminaria logo, depois da próxima ocorrência. Então ele teria o dia inteiro para gastar seu tédio na garagem alugada que fazia de escritório. Quatrocentos paus só para ficar longe de Odeta. Dinheiro bem gasto.
O 147 com pintura queimada o aguardava na rampa do mercado, lembrando seu dono de que eles precisavam fazer grana. Se aquela desatualização sobre rodas parasse de andar — e Deus sabia que não faltava muito — seria o fim dos negócios. E Marcos não conseguiria sustentar seu garoto especial sem o emprego. Algo que Randy não merecia. Além disso, em Três Rios não estava sobrando emprego em sua área. Antes a situação era um pouco melhor, mas agora, com todo moleque espinhento se achando Bill Gates? Calamidade.
Já dentro do carro, Marcos tentava entender seus próprios garranchos em um papel com o endereço ao qual deveria ter chegado há meia hora. Técnicos de computador são como prostitutas, profissionais agressivos — se ele demorasse muito, perderia aquele chamado. Provavelmente para algum adolescente metido à besta, vestindo uma camiseta do Slipknot e cheirando a maconha.
Com o trânsito como estava, demoraria pelo menos mais meia hora até a loja de raridades. Para ajudar, era dia 5, quando todo pobretão da cidade recebe sua miséria e sai, doido para gastar tudo. Pobretões como ele. Gente que trabalha para comer e pagar aluguel, fingindo que a vida se resume a isso. Acordam cedo para enriquecer supermercados, imobiliárias e qualquer um que seja mais esperto que eles mesmos.
Um trovão o trouxe de volta para a realidade. A previsão do tempo se enganou de novo e era sempre terrível lidar com equipamentos eletrônicos quando o céu despenca em água.
O calor parecia não se incomodar nadinha com o desconforto humano, e ficou ainda pior com o tempo úmido e condensado. O Fiat estava um forno. A camisa de Marcos estava aberta até o meio da barriga, as mangas arregaçadas. Graças a Deus estava quase chegando. Com muita, mas muita sorte, a tal lojinha teria ar-condicionado…