Ultra Carnem
Capítulo 3
Liza retornou do trabalho — um estúdio de tatuagens — perto das oito da noite. Nôa não estava em casa. A porta do ateliê estava destrancada, a janela aberta iluminava toda a sujeira deixada para trás. Pincéis ressecados, tinta escorrida no piso frio e nas paredes, três camisetas e uma calça que só serviriam como pano de chão. O banheiro que ficava na suíte transformada em estúdio recendia um pouco de Nôa. Liza respirou fundo para não atear fogo em tudo e recostou a porta.
No prato que ainda enfeitava a mesa, havia um bilhete. Nôa dizia que precisava de um tempo para se reencontrar. Ele também deixou algum dinheiro para trás, parte da miséria que não conseguiu torrar nos últimos meses. Trêmula, Liza deixou o dinheiro e o bilhete onde estavam e apanhou o telefone. Ouviu o toque desinteressante na linha até perder a ligação. Em seguida, tomou a chave do carro nas mãos, pensou em procurá-lo. Caminhou até a porta da frente e tocou a fechadura. Seus ombros caíram em seguida. Liza atirou a chave o mais longe que pôde e disse: “Foda-se, então, Nôa”. Se seu homem quisesse agir como uma criança mimada, que assim fosse. Quem ele pensava que era? Depois de tudo o que ela fez… De acolhê-lo, suportar suas crises, depois de dizer a ele palavras doces que nunca recebeu de volta. Que Nôa fosse para o Inferno. Insistir em um relacionamento desgastado é como consertar um carro velho: você só faz quando não tem outra opção.