Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 66 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 14

O dia seguiu calmo, com a maior parte dos problemas resolvidos depressa e sem novos ataques sexuais do computador ou da secretária. Se o excesso de estímulos era o que o estava ligando de alguma maneira àquele psicopata, Marcos puxaria o plugue da tomada antes que fosse tarde demais.

Por volta das três da tarde, ele se afastou da tela e coçou seus olhos. Depois de cinco horas na frente do computador, eles começavam a perder o foco. As lentes novas que usava agora deveriam resolver esse problema, mas lentes de contato não curam enxaqueca. Sua cabeça ameaçava explodir. Talvez fosse sede (almoço picante no chinês da esquina e pouca água durante o dia). Obedecendo à garganta seca, Marcos deixou sua mesa e foi até o pequeno frigobar do escritório. A cabeça latejava, dizendo que era hora de encerrar o dia e tomar uma dipirona. As persianas da janela já estavam abaixadas para diminuir um pouco da luz. Não que adiantasse muita coisa, visto que a luz que o incomodava saía do seu ganha-pão.

A lâmpada do pequeno refrigerador pareceu um sabre de luz quando ele o abriu. Marcos resmungou e cobriu os olhos, tateando pelo interior do aparelho. Apanhou um copo e uma garrafa de água mineral. Preferia vodca, o suco da Rússia que sempre ajudava em suas dores de cabeça. Ok, como se a vida já não estivesse confusa o suficiente sem álcool…

De volta à mesa, colocou o computador em um site de rádio que gostava de ouvir — a Kiss FM — e aumentou o volume. “More Than a Felling” tocava. Marcos deixou-se pender um pouco na cadeira, forçando-a para trás e esticando os pés sobre a mesa, aproveitando o que a vida lhe permitia agora. A garrafa d’água estava na mesa, o copo ainda estava em sua mão esquerda, transmitindo um pouco de frescor do freezer.

E daí que estivesse tendo uma neurose?

Sua família estava bem e isso era o mais importante. Porque no fundo, apesar de todos os risos, sexo e depósitos polpudos, sua cabeça ainda estava estacionada nos tempos difíceis. Alguns meses não eram suficientes para esquecê-los, talvez anos não o fossem. Marcos levou o copo em direção à testa — quando sua cabeça doía como agora, algo gelado sempre fazia a dor melhorar. Só então percebeu que havia alguma coisa em seu interior.

Apesar da vontade de atirá-lo pela janela, Marcos colocou o copo sobre a mesa. Depois cheirou o líquido vermelho.

Parecia ferruginoso.

Tornou a cheirar.

Afastou-se em seguida e agarrou o descanso de braços da cadeira com força. Aquela coisa era sangue. Ou talvez fosse uma piada de mau gosto com um nível de detalhamento incrível. Ainda trêmulo, Marcos pulou da cadeira e correu até o frigobar. Vasculhou todo o interior.

Além de uma barra de chocolate, uma vodca e duas latas de soda, havia um pacote pardo no congelador. Marcos o puxou para fora.

Foi desfazendo o embrulho, sem deixar que rasgasse. Era um papel grosso, plastificado por dentro, como o papel onde se embrulham queijos e apresuntados nos supermercados. Levou a coisa até a mesa e continuou a abri-lo cuidadosamente. Quando terminou, precisou conter o vômito.

Um pouco de carne, uma orelha e dois dedos.

— Marcos? — ele ouviu batidas à porta.

Sem saber o que fazer, Marcos fechou o embrulho de qualquer maneira e o colocou sobre as pernas, usando a mesa como trincheira.

— Não entre, Carol! Não entre aqui ou eu te ponho no olho da rua!

— Tá tudo bem aí? — Um giro incompleto na maçaneta. Marcos correu até a geladeira e atirou o pacote lá dentro, já pingava um pouco, a porcaria descongelou depressa. Socou a porta e começou a correr de novo. Caiu pelo caminho, ruindo em um baque seco com o joelho no chão. Levantou-se e continuou. A porta semiaberta já deixava um tímido feixe da luz mais forte do outro lado entrar, ele a empurrou com força. Carol se afastou antes de ser atingida no rosto.

— Eu mandei não entrar, porra!

— Que bicho te mordeu, Marcos? Credo!

— Vá pra casa, Carol. Minha cabeça está me matando.

— Mas ainda são três da tarde e…

— Dá para me obedecer pelo menos uma vez na vida? Estou dando uma tarde de folga e não vou deduzir do seu salário. Deus!

Dois segundos de reflexão.

— Não quer uma aspirina? Tenho na minha bolsa…

Marcos não respondeu. Continuava segurando a porta e olhando para o maldito frigobar.

— Tudo bem, Marcos. Você ganhou.

Ele ouviu o computador desligando do outro lado da porta. Depois uma reclamação distante. A porta da frente batendo com força extra.

Ainda colado à madeira, Marcos deixou todo ar dos pulmões sair e trouxe ar novo de volta. Raramente se descontrolava daquela maneira, mas até pandas devem ter seus dias ruins. Deus seja louvado… Alguém com pesadelos na cabeça e pedaços de gente na geladeira tem esse direito.

Ele continuou onde estava por algum tempo, temendo que Carol voltasse e invadisse seu pequeno bunker. Só depois de cinco minutos de silêncio se afastou, pensando em como poderia se livrar daquelas…

Com a pressa em esconder tudo, tinha feito a maior lambança na porta da geladeirinha. Suas digitais ensanguentadas estavam em quatro ou cinco pontos. Precisava limpar aquela bagunça antes de se livrar daquelas obscenidades. Sua mente ágil não demorou a pensar em possíveis implicações. Porque a polícia não iria ajudá-lo, não sem ter nenhum suspeito. Sem pistas, o mais provável é que acabassem o incriminando dos assassinatos de alguma maneira que só a corrupção conhece. No entanto, o que mais o atordoava não era a polícia.

Por que esse animal está atrás de mim?

E claro que se tratava do tal maníaco, quem mais sai por aí arrancando mindinhos e orelhas?

O que esse assassino quer comigo? Por que esse monstro deixou seu almoço aqui?

Carol?

Ou alguém enciumado fodendo com ela.

Pode ser isso, ou…

Ela está tentando me incriminar. Por isso deixou que o assassino plantasse esse saco de carne no meu frigobar. Mas por quê? E por que ela não chamou logo a porra da polícia e me ferrou de uma vez?

Não. Não a Carol.

Merda, merda, merda!

Não havia muito material de limpeza no escritório, nem mesmo uma pia decente. Em um primeiro instante, a ideia de jogar tudo como estava na privada pareceu brilhante, mas…

Pode entupir. Ou alguém pode encontrar os pedaços, algum ex-funcionário revoltado, demitido da construção civil, que não encontrou nada melhor pra fazer do que achar restos de gente misturada com bosta no esgoto.

— Vou dar um jeito em vocês — disse baixinho.

Apanhou o único objeto cortante do escritório (uma faquinha quase cega que esquecera no frigobar, junto com um prato borrado pelo último pedaço do bolo de aniversário de Odeta) e o saquinho de porcarias. Levou tudo para o banheiro. Era hora de trabalhar.