Ultra Carnem
Capítulo 8
Às suas costas, as grades foram de novo fechadas. Trinta se afastou para onde as mãos de Lucrécia ou sua bengala não a alcançassem. Havia uma expressão morna em seus lábios, uma mistura de satisfação e desprezo. A metade visível do rosto tomada por um sorriso infantil.
— Me tira daqui! Quero sair daqui agora! — Lucrécia gritou.
— Você não pode fugir de si mesma, queridinha; outra regrinha básica desse lugar.
Lucrécia ainda tentou abrir as grades, empurrou e chacoalhou as barras, mas a desgraçada do outro lado a trancou com uma chave. Trinta não estava mais sorrindo sob os cabelos loiros. Mantinha os braços cruzados e encarava os olhos atordoados de Lucrécia.
— Amorzinho, eu não aguento mais ficar aqui, você precisa me ajudar — disse o homem.
— Não quero ouvir a porra da sua voz, pai ! Não tenha a cara de pau de falar comigo!
— Princesinha, isso não é jeito de falar com o seu pai — o homem disse, e tentou se levantar. Lucrécia o golpeou com a bengala, na altura dos rins. Isso o deteve por algum tempo. Aproveitando-se disso, Lucrécia tomou a criança para si. A menina gritou como um porquinho, seu pequeno nariz estava tomado por muco e ela, prestes a sufocar em seu próprio pavor.
— É seu bebê, Lucrécia. O bebê que seu pai colocou na sua barriga. Não preciso esclarecer para onde vêm os bebês incestuosos, preciso?
— Cadela! Me tira daqui, Trinta! Quero sair daqui agora!
Lucrécia sentiu um movimento diferente em seus braços. Longo demais, frio demais, um pouco ríspido, como se escamas deslizassem por sua pele. Ao devolver os olhos à criança em seus braços, encontrou um réptil. O corpo ainda mantinha o formato humanoide, mas a cabeça era como a de um camaleão. Os olhos se moviam sem sincronia, a coisa grunhia em seus braços como se estivesse sendo queimada viva. Lucrécia insistiu em segurá-la, ciente de que aquele pecado também era seu. Só deixou a criatura cair quando ela mordeu seu polegar direito.
— Você nunca a quis — disse o velho. Lucrécia estava distraída com a coisa reptiliana que se refugiava atrás de um vaso sanitário. Ainda podia ver a cauda se debatendo no meio da sujeira. Quando desviou os olhos, era tarde demais. Seu pai estava de pé, bem à sua frente.
As roupas que usava ainda eram a do seu enterro. Norato Trindade se envolveu com um pessoal barra-pesada depois de adicionar ao álcool o vício em cocaína. Acabou devendo dinheiro a eles e morreu assassinado. A própria Lucrécia tinha escolhido aquele terno. Não custou caro e era bem mais do que o porco merecia. Desceu os olhos para onde as mãos do homem estavam — sobre a barriga. O tecido da camisa estava manchado, sangue novo e antigo se mesclavam em nuances vermelhas e marrons. Norato tentava manter algo escondido, pressionando o ventre e parte do tórax com as mãos encardidas.
— Ele está em mim, Lucrécia. E nunca morre — gemeu. — Você precisa me perdoar, eu não aguento mais!
Talvez para convencer Lucrécia, ou mesmo por um deslize no movimento das mãos, a barriga acabou exposta. Então ela viu. O verme.
A criatura tinha cor leitosa, mas estava toda suja de vermelho. Na boca, possuía três ventosas, de cada uma delas emergia um punhado de dentes afiados. Quando percebeu que estava livre, em vez de pular para fora da carne de Norato, o verme se esticou e mergulhou outra vez contra a pele. Começou a rodopiar e abrir caminho. Norato gritou, cambaleou até os fundos da cela, só parou quando encontrou a parede. Apertou o estômago e deslizou até o chão. Tentava tapar o ferimento que nunca cicatrizava. Um pouco de sangue escorria pelo buraco.
— Me liberte, eu suplico.
Lucrécia estava chorando. Não lembrava muito bem da última vez que fizera tal coisa sem o impulso de dor física. Provavelmente, tinha sido quando enterrou aquele filho da puta — e suas lágrimas eram de felicidade.
— Estão apenas começando com você, papai. E quer saber? A magrela — Norato a chamava assim, quando estava de cara cheia e a violentava — está por cima agora. E você está no chão, na lama, no Inferno de onde nunca deveria ter saído. Vou fazer o possível para o seu sofrimento durar para sempre.
— Eu me arrependi, Deus sabe que sim! — ele disse.
Um rugido tomou os corredores e cada bloco da prisão. O espaço vazio fez o ruído se repetir inúmeras vezes. As estruturas humanas emparedadas gritaram. Norato continuava com a inteligência de um plasmódio. Dizer o nome de Deus ali embaixo? Era como cuspir na cruz no andar de cima.
— Não, você não sabe o que é arrependimento — Lucrécia disse. Norato se deitou abraçado ao ventre. Seu verme eterno o roía por dentro. Lucrécia conseguia ouvi-lo, sua mastigação úmida e faminta.
Enquanto apreciava o sofrimento daquele bastardo, um movimento perto do aparelho sanitário chamou sua atenção. Ela se afastou em direção às grades, caminhando de costas, na expectativa que o próximo castigo pertencesse a ela. Entretanto, sabia que não tinha culpa na geração da criança incestuosa. Ela também era uma criança na época. Frágil demais, crente demais.
O que deixou o espaço da privada foi a forma transmutada da criança. Ela tinha uma boca enorme agora, com três fileiras de dentes — duas em cima e uma na arcada inferior da boca. A coisa era incrivelmente forte, caminhava ereta sobre as patas traseiras e não era muito maior que um gato. Seus olhos continuavam como antes.
— Não! De novo, não! — Norato gemeu.
Então a criatura se lançou sobre o rosto desprotegido dele — as mãos de Norato ainda se concentravam na barriga, a apertando para que o verme não se movesse tão depressa. As garras dianteiras do bebê réptil perfuraram o rosto de Norato, se fixaram nele como as traves de uma sonda de petróleo. As traseiras começaram a golpear seu rosto, arrancando pedaços de carne. Parte desse tecido, a besta réptil consumia, os menores pedaços caíam no chão. Norato gritava desesperadamente, fez isso até que a criatura se interessasse por sua língua. Foi o que motivou Lucrécia a voltar para as grades, ela não queria e não precisava ver mais nada.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou outro visitante.
Lucrécia reconheceu a voz forte que ouvira no Vagão do Turco quando todo aquele pesadelo começou. Trinta recuou um passo largo quando a ouviu. Perdeu a cor no rosto e se encolheu contra a parede. Um dos soterrados tentou agarrá-la e mordê-la, ela o repudiou.
— Eu não…
Trinta chegou a olhar para trás, provavelmente pensando em fugir daquele homem, mas ficou onde estava. Aim se aproximou e apanhou o molho de chaves da cintura da mulher. Depois a empurrou, metendo a mão enorme em seu rosto e a derrubando no chão. Ele abriu a porta da cela e Lucrécia saiu. Ergueu a bengala e correu em direção a Trinta. A mulher não tentou fugir ou se proteger, mas puxou a parte dos cabelos que lhe cobria uma das metades do rosto.
— O que aconteceu com seu olho? — Lucrécia perguntou, incapaz de golpeá-la.
No lugar da órbita havia um buraco escurecido. As pálpebras se afundavam seguindo a concavidade da fenda. Era horrendo, chegava a ser repulsivo.
— 150.030, já chega! — disse Aim. — Não foi para isso que você ganhou sua liberdade.
— Meu nome é Amanda, seu fedido! Amanda Miller — disse Trinta.
Lucrécia perdeu o chão.
— Amanda?
— Eu mesma, sua fedida! Sua vespa espetou meu olho! Você acabou com a minha vida, sua desgraçada!
— Ei! Não fui eu quem colocou você aqui! — disse Lucrécia. Mas não havia muita convicção em sua voz. Por sorte, Aim estava no mesmo corredor, pronto para colocar cada vírgula em seu devido lugar.
— Ela tem razão, Trinta. Foi sua fúria que a condenou. Você envenenou cada alma que cruzou seu caminho. O que esperava depois de matar duas crianças?
— Eu não estava feliz, tá bom? Era meu direito não querer que ninguém mais fosse feliz. E aqueles desgraçadinhos mereceram.
Lucrécia teria perguntado quem eram eles, mas Amanda-Trinta foi mais rápida.
— E eles eram meu sangue, meus sobrinhos. Uma noite eu fiquei de babá para que a safada da minha irmã pudesse trepar com o marido dela. As pestinhas não paravam de chorar. Eu estava alta, então coloquei os dois na banheira e eles ficaram quietos. Também fiquei quieta, duas semanas depois, quando morri de overdose.
— Tenha um pouco de vergonha na cara. Você não teve uma overdose, você usou crack até se matar. Seu caso é claramente um suicídio — disse Aim.
— Ainda estou conversando com o chefe.
— Está sim, e ele não está nada convencido. Além disso, quem a autorizou a usar seu nome terreno? — Aim perguntou. O ar começou a cheirar esquisito, ácido. Lucrécia sentiu seus olhos arderem.
— Quando vocês terminarem, eu quero sair desse lugar. Não quero estar por perto quando o porco acordar — disse Lucrécia.
Aim assentiu com a cabeça. Recuada a ele, Trinta se levantava e espanava a sujeira grudada na roupa. Ela também devolveu o cabelo ao lado danificado do rosto.
Trinta não precisava, mas explicou: — Eu era alérgica. A picada da sua vespa apodreceu meu olho e um pedaço do meu rosto. Eu quase morri.
— Desculpe, eu não tinha como saber.
— Mas o que tirou meu juízo foi a Camila. Tudo o que ela precisou foi um pouco de pomada e um curativo na bochecha. Depois daquele dia, ela nunca mais falou comigo. Meus pais tinham vergonha de mim. Eles me tiraram da escola e me trancavam no quarto quando alguém visitava nossa casa. Acho que a culpa também é deles. Eu não entendo como eles não vieram para cá!
— Sinto muito.
— Não, Lucrécia — disse Aim. — Algo realmente inútil no Inferno é o arrependimento. Além disso, o chefe detesta. — Ele recolocou o cadeado na cela de Norato. O condenado não estava mais gemendo ou se movendo, exceto pelos pés que trepidavam convulsivamente a cada um minuto ou dois. — Eu cuido dela de agora em diante — ele disse a Amanda-Trinta. Apanhou Lucrécia pelo braço e a conduziu até que ela conseguisse controlar as pernas trêmulas de novo.