Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 82 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 5

Era dezembro, e Lucrécia estava na escola, pensando no que receberia de presente de Natal. Poucos metros à sua frente, Amanda e Camila brincavam com as bonecas que receberam antes do dia 24. Não seriam as últimas, mas com toda a certeza seriam melhores que o presente reservado a Lucrécia. Aos nove anos, ela ainda acreditava em Deus e também na pureza humana. Por esse motivo, quando o professor disse que era hora do intervalo, ela pensou que era o momento certo para se aproximar das duas amiguinhas que conversavam perto dos balanços do pátio. Amanda logo percebeu a aproximação e disse a Camila, pouco se esforçando para que Lucrécia não as ouvisse: — Eu não acredito… A fedida está vindo atrás da gente.

Camila deu de ombros, mas girou o corpo garantindo que suas costas a protegessem de Lucrécia.

— Tão brincando do quê? Posso brincar com vocês?

— Não enche — Amanda respondeu.

Lucrécia persistiu e sentou-se perto das duas, no chão. Olhava para as bonecas novinhas em suas mãos, e também para uma mais antiga, desprezada, cujo vestido rosa já estava todo manchado de chocolates, doces e todo o tipo de porcarias que Camila enfiava na boca. Se aquela boneca fosse de Lucrécia, estaria novinha em folha. Ela a colocaria dentro do armário e só brincaria com ela depois de lavar as mãos.

— Posso ficar com aquela? — perguntou. — Eu devolvo, juro por Deus que devolvo. Eu só quero brincar com vocês.

— Não — Camila respondeu. Puxou a boneca suja para mais perto de si e a colocou debaixo de sua perna esquerda. Amanda riu e acrescentou: — Você vai passar pobreza para nossas bonecas. Eu não gosto de você, não gosto do seu cheiro e não gosto do lugar onde você mora. Minha mãe disse que o seu pai é um tarado e que sua mãe é uma vaca.

Lucrécia sentiu uma pontada no estômago. Dizer aquilo do seu pai? Ela nem sabia direito o que significava tarado, tudo o que ouviu é que um tarado machucava meninas e até mesmo mulheres grandes. Porém, infelizmente, sabia o que era uma vaca. Ela se afastou das duas e foi até onde os meninos brincavam. Um deles, chamado Henrique, costumava colecionar besouros. Ele os colocava dentro de um vidro de maionese e ficava ouvindo seu ruído. Os professores da escolinha não aprovavam aquilo, mas Henrique era o que eles chamavam de especial . Ele tinha o miolo mole, e a única maneira de mantê-lo quieto durante o intervalo era deixando-o com seus experimentos. Lucrécia se aproximou e deu uma olhada no frasco de vidro ao lado dele. Henrique a notou quando sua sombra tapou o sol que aquecia seu rosto pálido.

— O que você pegou hoje? Posso ver? — Lucrécia perguntou.

— É meu — o garoto respondeu e abraçou o vidro. A coisa presa dentro do recipiente ficou agitada. Começou a se chocar contra o vidro, fazendo um tec-tec incômodo e assustador. Lucrécia chegou mais perto e conseguiu vê-la. Parecia uma abelha, mas muito maior. Também era mais escura.

— Eu só quero segurar um pouquinho. Por favor. Dou meu chocolate se você deixar.

Aquele era seu lanche. Seu pai deu a ela antes de deixá-la na escola. Tudo o que pediu em troca foi que ela não contasse para a mamãe sobre sua amiga que usava roupas curtas e o beijava na boca. Lucrécia concordou, fazia muito tempo que ela não comia um chocolate. De qualquer maneira, ela não teria enchido a paciência da mamãe com aquele assunto indigesto. Desde que ela começou a tomar remédios e seus cabelos caíram, mamãe não tinha muita felicidade, o melhor mesmo era deixá-la em paz. Papai também precisava de um pouco de sossego, quem sabe assim parasse de beber tanto.

— Só um poquim, tá bão? — disse o miolo mole.

Lucrécia cumpriu sua parte e deu o chocolate a ele. Henrique o enfiou na boca e começou a balançar para a frente e para trás, ele sempre fazia isso quando estava muito feliz ou muito bravo. Pensando bem, ele fazia aquilo na maior parte do tempo. Lucrécia aproveitou para se afastar com o vidro.

— Ei, acorda — chacoalhou e disse ao inseto lá dentro. Olhando mais de perto, conseguiu identificá-lo. Um ano antes, quando seu pai resolveu derrubar um quartinho imundo que havia no quintal de casa, um monte de vespas o atacou. Elas o picaram no rosto e ele ficou deformado uma semana inteira.

Dessa vez, a vespa não se lançou contra o vidro. O que fez foi parar na posição onde estava um dos dedos de Lucrécia. Então, ela fez a coisa mais legal do mundo: colocou seu ferrão para fora, todinho.

— Boa menina — ela disse.

As duas bobonas ainda estavam brincando. Lucrécia se aproximou mantendo o vidro às suas costas, o rosto dispensando uma autoconfiança que não combinava com ele. Talvez por esse motivo, Amanda tenha parado com o que fazia e esperado que a menina pobretona voltasse a se aproximar.

— O que tem aí atrás? — Amanda perguntou.

— A coisa mais legal do mundo — Lucrécia respondeu, se lembrando do ferrão.

— Mentira. Você não tem nada legal — Camila disse. — O que é? Um sabonete para meninas fedidas?

As duas riram e um vento mais frio bagunçou os cabelos de Lucrécia. Eles eram compridos, loiros, e estavam totalmente embaraçados. Lucrécia costumava mantê-los presos, mas naquela manhã mamãe acordou parecendo um zumbi. Ela pediu que papai desse um jeito nos cabelos da filha, mas ele não deu muita bola. Ultimamente, seu principal compromisso era manter as garrafas na geladeira. Ele e mamãe discutiam muito, mamãe dizia que a doença dela era culpa dele, papai dizia que ela era uma puta ignorante e às vezes batia nela. Lucrécia não se envolvia, não seria nada bom apanhar junto com mamãe.

— Vão querer ver ou não?

Amanda e Camila se entreolharam. O que uma menina fedida e suja como Lucrécia Trindade teria a oferecer? Uma boneca sem cabeça? Um vestido furado na bunda como o que ela usava quando ia à missa? Talvez fosse um cachorro pulguento que ela encontrou no pátio.

— Antes diz o que é — Amanda pediu.

— É mágica — ela disse e foi desrosqueando a boca do vidro às suas costas. As duas meninas se mexiam, ameaçavam levantar, moviam o corpo, tentando enxergar o que ela tinha ali atrás. — Querem ver ou não?

— Tá bom, feiosa. Você venceu. O que quer em troca? — Amanda perguntou. — E não pede minhas bonecas porque eu não vou dar.

— Nem eu! — confirmou Camila.

Antes que terminasse de abrir o vidro, Lucrécia sentiu alguém tocando seus ombros. Ela se virou depressa para o inspetor Marques — que parecia uma salsicha amassada — e abraçou o vidro. Ele não pareceu incomodado, ou mesmo curioso com o que ela tentava esconder; aliás, ele nem pareceu notar.

— Seu pai está aqui, ele quer falar com você.

— Agora?

Marques se abaixou até a altura dela. Era um homem gordo e não foi muito fácil para ele fazer aquilo. Voltou a tocar seus ombros.

— Você precisa ser forte, coração. Seu pai vai precisar de você.

— O que aconteceu? Foi alguma coisa com a minha mãe?

Marques baixou os olhos e assentiu com a cabeça. Esperava que Lucrécia começasse a chorar ali mesmo.

— Já vou. Fala pro meu pai que tô indo. Vou dar tchau pras meninas.

O inspetor concordou e começou a caminhar até a entrada das salas de aula com seu andar cocho. Lucrécia viu seu pai em um relance. Ele estava com os cabelos desgrenhados e com o rosto vermelho. Não parecia triste, mas com certeza estava furioso.

— O que aconteceu? — Camila perguntou a Lucrécia.

— Deixa ela ir embora — Amanda disse em seguida. Depois, falou para Lucrécia. — Ninguém gosta de você, fedida. Aposto que sua mãe fugiu de casa para nunca mais olhar para sua cara feia.

Quieta, Lucrécia virou de costas. Movimentou a boca do frasco, garantindo que um leve movimento o abriria. Então ela jogou o pote de maionese no chão e saiu correndo. Logo ouviu as duas meninas gritando.

Naquela manhã cinzenta, não pareceu importante esperar pelo desfecho do ataque. Lucrécia ganhou o corredor que dava acesso às salas de aula, apanhou a mão de seu pai e deixou aquela escola nojenta para nunca mais retornar. Enterraria sua mãe três horas depois, e com ela, a melhor parte de sua vida.