Ultra Carnem
Capítulo 11
Logo os sons de Dimitri deixaram de ecoar. Aquele era o sinal que Nôa esperava. Devagar, ele se arqueou pela divisória da antessala e conferiu se o corredor estava vazio. Ouvia alguns homens se agitando em algum lugar distante. Alguém insistia para que fosse chamada uma unidade de resgate, outro dizia: “O irmão nunca teve uma convulsão antes, ele tem uma saúde de ferro”. Em pouco tempo, Nôa não conseguia ouvir mais nada; estava de volta à sala de Dimitri. Pensou em fechar a porta, mas desistiu da ideia quando checou a janela e encontrou grades. Mas não seria um problema tão grande se fosse encontrado bisbilhotando lá dentro. Eles fariam o quê? Chamariam a polícia? Grande coisa. Nôa tinha mais medo dos sacerdotes.
Com a saída apressada, Dimitri não chegou a fechar o armário de carvalho. Era a chance perfeita de obter aquele álbum de fotografias e, quem sabe, um bônus. Após colocá-lo dentro da mochila, Nôa foi até os fundos da sala. Em um pensamento cínico, calculou o que Deus acharia de um homem que rouba padres. No fundo, não era nada de mais, havia muitos padres roubando homens por aí. Supondo que Deus fosse justo, Nôa seria uma espécie de contrapeso na balança.
Dentro do armário havia dezenas de livros. Na primeira prateleira, à frente dos volumes, havia um cachimbo e uma foto de Nossa Senhora. Na mesma divisória, Nôa se surpreendeu ao encontrar um monte de seringas ainda na embalagem. Ao lado delas havia um frasco vazio de insulina. Ele quase teve pena de Dimitri.
Alguma agitação no corredor o levou de volta à porta. Aquilo não seria um problema. Nôa fingiria que esquecera algo dentro da sala e sairia antes que alguém notasse a ausência do álbum de fotografias. Entretanto, o som não avançou, e ninguém apareceu pelo corredor.
O rapaz voltou ao armário e bateu os olhos pelas prateleiras inferiores. Mais livros. Encadernamentos azuis índigo, marrons, de couro e de plástico vagabundo. Na terceira prateleira, Nôa ficou interessado em um deles. Folhas douradas, capa vermelha e bastante surrada pelos anos, devia ter umas mil páginas. Claro que o puxou para dar uma olhada. Folheou as páginas, sentiu seu cheiro. Não era o que procurava e sim um livro de orações romanas. Estava o devolvendo à prateleira quando notou algo na parte de trás, escorado nos fundos do armário e pressionado por outros livros.
— É isso, tem que ser isso — disse a si mesmo, por mais que “isso” continuasse sendo um mistério.
As vozes tornaram a aumentar. Nôa tentou retirar o volume sem derrubar os livros que estavam à frente, mas uma chuva de papéis antigos tombou sobre ele. Uma Bíblia enorme vergou-se e acertou seu pé esquerdo. Ele suprimiu o grito, não tinha tempo para sentir dor. As vozes aumentaram do outro lado da porta. Antes que fosse apanhado, guardou o volume resgatado dentro da mochila e deixou a sala. Atrás dele, ouvia os homens se agitando pelo corredor.