Ultra Carnem
Capítulo 11
Na saída do auditório, no andar de baixo, onde chegaram depois de tomar um elevador, Lucrécia e Aim passavam por um grupo dos tais demônios. Sobre a crosta terrestre, um Damaled pareceria um homem comum, mas, na dimensão infernal, ele mostrava a própria carne. Lucrécia se recostou à parede, tentando não esbarrar em nenhum daqueles seres nojentos.
A pele das criaturas era como a dos porcos. Branca, gordurosa, os folículos pilosos eram grossos e encharcados de sujeira. Eles não cheiravam muito bem, o que se desprendia dos corpos era uma mistura rançosa de suor e azedume. Suas orelhas longas e nuas de pelos pendiam pela cabeça, como tiras de carne. Também tinham poucos dentes, o que piorava seu aspecto horrível. Estavam nus e não havia vestígio do sexo que não fosse um pequeno pingente de carne.
— Mestre! — disse um deles a Aim. — Quem é ela? É a mulher? A que vai ajudar a gente? Eu poderia caminhar com ela? Mostrar o lugar? — Ele deu um passo em direção à Lucrécia, e ela se espremeu contra a parede. — Sei onde conseguir comida de gente, moça! Igualzinha a lá em cima. Ou, se a senhora quiser, podemos arrumar uns rapazes. Ou umas garotas. Eles vão deixar você doidinha! E cocaína? Tenho heroína, ácido, um monte de coisas boas, eu posso levar a senhora até onde elas ficam — A coisa salivava, e Lucrécia também. Garotos, as drogas, tudo a interessava bem pouco, mas a comida? Senhor Diabo! Alimentos a tentaram de verdade. Só de imaginar um bom bife e um copo de refrigerante gelado… Talvez devesse considerar a proposta. Exceto que aqueles mesmos bastardos gentis poderiam ter facilitado sua descida, bem antes que Lúcifer o fizesse.
— Se afaste de mim, aberração — ela disse e estocou a barriga da criatura com a bengala. Outros Damaleds se afastaram com a agressão. Aim sorriu e tocou a madeira envernizada da bengala.
— Depois. Agora precisamos continuar.
— Você não disse que está no comando dessas… coisas ?
— Hoje, não. Meu antigo instrutor var tomar o meu posto.
Lucrécia lançou os olhos para o palco, as luzes piscaram e se firmaram novamente. Havia alguém ali, de barbas mal aparadas, olhos pequenos e rápidos. Não era muito alto e usava uma túnica encardida. Trazia um pedaço de corda envolta no pescoço.
— Ele é quem eu estou pensando?
— Judas. Em carne, osso e espírito. E antes que me pergunte sobre a corda no pescoço dele, não é escolha do pessoal daqui. Judas ainda está bravo com o que aconteceu com ele na Terra. Mantém aquilo no pescoço para lembrar-nos como o dono do Céu pode ser rancoroso. Não foi exatamente suicídio, como eles ensinam lá em cima.
Continuaram caminhando pelo piso inferior até encontrarem uma porta amarela. Algum ruído escapava pela abertura e Aim a recostou para que Lucrécia não ouvisse nada do que ainda não precisava saber. Ela podia ser esperta e ter impressionado o chefe, mas espíritos recém-chegados ao Inferno costumam fazer o mesmo que faziam em vida: merda. Terminou abrindo uma segunda porta, vermelha, dez passos depois daquela porta amarela.
A sala onde ingressaram era redonda, tinha cerca de seis metros de diâmetro. Dela, várias saídas emergiam, cada uma protegida por uma porta. Todas eram igualmente cinzentas, e não eram grandes como as portas do corredor de celas — mais tarde, Aim explicaria a ela que o nome certo do primeiro nível era “Ala dos Menores Tormentos”. Aim caminhava para uma das novas portas, a terceira da esquerda para a direita. Ele levou a mão à fechadura prateada, mas antes que continuasse, Lucrécia o interpelou apanhando sua mão livre.
— Quero saber para onde está me levando. E quero saber agora!
Os olhos de Aim se escureceram, a cortina negra deslizou como petróleo sobre os globos oculares. A mulher se afastou com medo que ele retomasse a forma demoníaca que presenciara meses antes — que parecia ter sido ontem —, no Vagão do Turco. Aim era até bonitão em carne humana, então melhor que ficasse assim.
— Não abuse de sua sorte. Você passou a perna em muita gente desde que chegou aqui, e eu me incluo nessa. De agora em diante, você obedece, quietinha, se não quiser passar algumas noites com o seu velho.
— Não fiz por mal, Aim. Só estou confusa. E também sinto fome.
Ele resmungou algo mal-humorado na língua reptiliana dos demônios e abriu a porta. Uma lufada de vento quente e úmido atingiu Lucrécia. Junto a ela, um odor sufocante de velas. A mulher esperou que Aim avançasse, mas ele não se moveu além da abertura.
— De agora em diante, você fica sem minha assistência. Tem alguém do outro lado que vai responder às perguntas necessárias.
— Lúcio?
Dessa vez, Aim gargalhou. Precisou levar as mãos à barriga para conter a própria deselegância. Lucrécia começou a encolher de vergonha, olhando para o seu vestido. Ela ainda era a mesma, uma ninguém, uma pobre coitada fedendo a gordura e ressentimento. Aim não se comoveu e, parando de rir, sugeriu que ela avançasse e fechou a porta.