Ultra Carnem
Capítulo 13
— Bom dia, sr. Marcos. Dormiu bem? Tá com uma cara esquisita…
Essa era Carolina. A secretária playmate de Marcos. Começaram a transar há um mês e meio. Sempre no escritório, bem longe dos olhares de Odeta ou Cat.
— Dormi com os anjos, Carol. Estou preocupado com a onda de violência, só isso.
— Tá falando do Açougueiro, né? — Carol mascava um chiclete com a boca aberta, tornando-a quase uma prostituta profissional. Aquilo sempre excitava Marcos, mas não naquela manhã. Ela continuou: — O povo dessa cidade não fala de outra coisa.
— Vi a notícia pela TV — disse Marcos. Foi para sua sala enquanto conversavam. Marcos afastou a cadeira da mesa, colocou o paletó sobre ela e se sentou. Também ligou o notebook. — Quando isso tudo começou?
— Pelo que a polícia sabe, faz uns três meses. Dizem que o maluco começou matando animais pequenos, depois passou para animais maiores. O pessoal da periferia encontrava cães, gatos, encontraram até um cavalo. Ninguém deu muita bola, acharam que era macumba. Mas aí apareceram duas prostitutas… A polícia se envolveu depois disso.
— Viu tudo isso na TV ?
Carol riu.
— Eu me atualizo, chefe… Quer que eu te atualize? — perguntou. Sentou sobre a mesa de Marcos e esticou a goma de mascar com os dedos. Devolveu a goma à boca, chupando o indicador. A língua fazendo o que sabia.
— Hoje não, Carol. Precisamos fazer dinheiro.
Carol deu de ombros.
— Vou dar uma dica, mesmo assim. E essa é de grátis — insistiu.
Marcos baixou a tela do notebook e retirou as mãos do teclado.
— Tem tudo em um site — continuou Carol. — Sobre o Açougueiro. Tenho um amigo que consegue informações direto da polícia. O irmão dele é investigador.
Marcos dispensou um suspiro. Ele queria mesmo saber mais?
— Hoje não, Carol. Se eu continuar falando desse cara, vou vomitar — disse e voltou a erguer a tela do notebook. — Liga para o pessoal da matriz e transfere pra mim, por favor. O dia tem pepinos demais para oito horas, é bom começarmos logo.
Enquanto Carol descia da mesa e ajustava o vestidinho cinza, Marcos acessou pelo notebook a intranet da empresa. Antes que Carol saísse da sala, a máquina fez sua parte e completou a inicialização com a música terrível de algum programador deprimido. Marcos deu uma olhada no traseiro durinho de sua secretária, prometendo a si mesmo que naquele dia não perderia nem um segundo com ela ou com os sites de pornografia que costumava frequentar.
O gomo mais podre da internet começou a afetá-lo cedo, logo que ingressou no ramo de computadores. Sempre tinha algo novo, alguma vagina virtual para visitar, alguém que filmava a própria transa. Começou com mulheres, o absolutamente normal de um cara novo e feio. As ciberlibertinagens eram só um alívio, uma medicação. Foi só depois de se casar com Odeta que Marcos evoluiu das mulheres para os transexuais e hermafroditas. Daí, para bestialismos e brutalidade. A última fronteira, a última muralha instransponível, eram as crianças. Mas Deus, Marcos nunca aguentou — ou quis — ver muita coisa.
— Você está me enlouquecendo, seu desgraçado? — perguntou para a tela.