Ultra Carnem
Capítulo 11
Fazia frio e tudo cheirava a sangue. Todas as cores eram o vermelho aos olhos de Marcos. Chão, paredes, lençóis. Ele estava feliz. Parecia um sonho, mas o gosto do sangue que ele bebia em um copo vagabundo era salgado e quente, como nenhum sonho poderia proporcionar. Um pouco de soda mesclava-se àquele gosto. Havia corpos pelo chão, pedaços de corpos. Uma coxa humana enfiada em uma meia três quartos estava ao seu lado, um tronco sem um dos braços dormia no carpete; uma cabeça permanecia em cima da TV , sangrando sobre a tela. Marcos sentia uma ereção poderosa e constante, parecida com a que um dia experimentou em um corredor onde repousava a Ciganinha. Havia outro corpo no quarto. Mais inteiro e feminino. O tórax aberto e oco, escavado. Suas vísceras estavam jogadas ao lado, cobertas por algo fluido e transparente. Marcos sabia o que era aquilo; aquela gosma havia saído de um homem. De algum modo, ele sabia. E se regozijava. Apanhou um cigarro e se aproximou da janela. Tentou não sujar o filtro amarelo com o sangue das mãos. O sangue era bom para muitas coisas, mas não prestava um bom serviço combinado ao cigarro. O tabaco é um prazer egoísta. Ele tragou e segurou um pouco da fumaça no peito. Sentiu alguma culpa roendo sua consciência confusa e imaginou que aquele corpo que fumava perto da janela talvez não fosse o seu. Marcos nunca teve um anel de prata de São Jorge no anelar da mão direita.
Quando teve coragem de piscar os olhos, estava dentro de Odeta. Da linda e reformada Odeta a qual ele adorava possuir com alguma violência. Marcos continuou se movendo, gemendo, só saiu de cima dela quando terminou. Rolou seu corpo para o lado e respirou fundo algumas vezes.
— Que foi, amor? Você tá suando frio — ela disse, acariciando seu peito.
— Acho que apaguei por um momento. Eu… Saí de mim.
— Sinal que foi bom — disse Odeta. — Para desmaiar, deve ter sido.
— Foi fantástico — respondeu. Os olhos pararam no teto. Odeta virou de lado, procurando o travesseiro. Em segundos, estava dormindo.
Marcos não. Ele ficou estudando o teto e tentando entender o que acabara de acontecer. Há semanas os pesadelos iam e vinham com uma frequência assustadora. Marcos culpava o estresse com os novos clientes e a fusão com a Abbey Softwares, mas, no fundo, imaginava que esse era um motivo frágil demais para suas desordens noturnas. Pelo menos uma vez por semana ele acordava empapado em suor. Vivia cenas grotescas, presenciava rostos desconhecidos e desfigurados pelo pânico. Mas Deus, esse último o fez pensar em um analista. Não seria possível nessa semana, mas quem sabe na próxima? E a contar com mais um pouco da sorte que vinha tendo, os pesadelos talvez nem durassem tanto.