Ultra Carnem
Capítulo 9
O pátio era o melhor lugar do casarão. Havia dois pés de romã e um limoeiro. O resto do terreno era calçado. O ar puro soprava entre os cabelos dos vivos, enquanto uma estátua de Nossa Senhora olhava para a agitação das crianças. Elas corriam de um lado para o outro, brincando de pega-pega, cabra-cega e o que mais fosse motivo para queimar sua energia inesgotável. Suzana cuidava do joelho ralado de Japonês que tinha acabado de levar um tombo. Giordano foi até eles quando o curativo estava perto de terminar.
— O que aconteceu com você?
— Aquele gordo me empurrou!
— Sempre o Buba… Será que esse menino nunca vai parar de implicar com os outros?
— O mundo também é assim, padre — Suzana respondeu sorrindo. — É bom que eles aprendam cedo. E seu joelho não está tão mal. Foi só um ralado, Ernesto. Depois eu converso com o Leonardo.
— Se você bater nele, ele bate em mim de volta. É melhor deixar pra lá. — Japonês secou os olhos. Buba o encarava com os braços cruzados, à frente da estátua da santa. — E nem tá doendo mais. Olha só — reforçou o passo, forçando a botina de couro contra o chão.
— A decisão é sua, Ernesto — disse o padre. O menino saiu correndo e logo estava junto com Buba, implicando com outro dos meninos. Giordano sacudiu a cabeça, lamentando que as crianças se comportassem como adultos tão cedo.
— Quem era? — perguntou Suzana.
— Perdão?
— Na porta, padre. Quem tocou a campainha?
Giordano continuou olhando para as crianças, calado e introspectivo.
— Onde está Lester?
— Ele pediu para ficar no quarto. Normalmente eu não permitiria, mas é o primeiro dia dele. Pensei que poderia ficar sozinho até sentir vontade de estar com os outros.
— Até ter coragem, você quer dizer?
Suzana estava sentada em um murinho de concreto que cercava o pátio. O padre ocupou um lugar ao seu lado. Olhou para o céu cinzento que desistiu da chuva por algum tempo. Ele parecia triste.
— As crianças são como passarinhos que nasceram na gaiola. Se você deixá-los lá dentro com comida e água, não sentirão falta do lado de fora. Nosso novo passarinho ficou muito tempo na gaiola dos ciganos, então acho que devemos forçá-lo a sair o mais cedo possível. Sobre sua pergunta, o homem que tocou a campainha era um oficial da lei.
Suzana voltou a olhar para o sacerdote, deixando as crianças de lado por alguns segundos. Sua boca perguntaria alguma coisa, mas o padre continuou:
— Aconteceu uma tragédia com o povo que trouxe o menino.
— Santo Deus…
— A caravana caiu na Serrinha e se incendiou. Não há esperança de sobreviventes. O oficial da lei disse que encontraram mais de quarenta corpos.
— Jesus Cristo, padre! E como nós…
— Eu converso com o menino. Por hora, precisamos garantir que nenhum dos outros saiba o que aconteceu. Você conhece as crianças…
— Pobrezinho. Antes de ir para o quarto, ele pediu uma folha de papel e um lápis, queria se distrair e rabiscar um pouco.
Giordano se levantou e já ia saindo quando Suzana o chamou de volta.
— Sabe o que é mais estranho, padre? Ele se voltou para ela.
— Ele não parece triste em ter sido abandonado ou com a implicância dos meninos. Sua única preocupação até agora foi desenhar um pouco.
Sem muita surpresa, por ter notado o mesmo, Giordano continuou caminhando para dentro do casarão. Às costas da freira, protegida por uma coluna amarela de cimento que sustentava a parte destinada a uma sala de aula, uma menina deixou o esconderijo e correu até Buba e Ernesto.