Ultra Carnem
Capítulo 32
Apesar da expectativa da manhã, a noite parecia mais escura agora. Um silêncio mordaz tomava conta de tudo. A garoa havia parado, não havia ninguém na rua. Mesmo os silvos dos morcegos e o zumbido do transformador do poste de luz pareciam ter deixado de existir. O único som que Nôa conseguia ouvir era o motor do carro de Liza, um último favor que ela lhe prestou antes de morrer. Nôa estava de costas para ele, juntando o que apanhou da igreja depois de ligá-lo.
— Precisando de uma mãozinha? — alguém perguntou. Nôa girou o corpo depressa, mas algo dentro dele reconheceu o dono daquela voz bem antes que os olhos o fizessem.
— Você? O que está fazendo aqui?
O rapaz de jaqueta de couro estava apoiado na porta aberta de seu Maverick, que, de alguma maneira, não fez ruído algum ao chegar na igreja. O carro de Liza estava estacionado diante dele, ainda ligado. Os faróis iluminavam o asfalto serenado à frente.
— Não estou roubando uma igreja. — Lúcio disse e se afastou da porta do carro. Caminhou em direção a Nôa. O rádio tocava um blues de Robert Johnson.
— Estou ocupado, Lúcio. Não é uma boa hora — Nôa disse e avançou em direção ao carro de Liza. Lúcio deu um passo para o lado e se colocou no caminho dele.
— Ah, sim. Eu acho que é — disse. — É a hora perfeita .
— O que você quer? Por que está me seguindo desde Três Rios? Lúcio riu, mostrando aqueles dentes brancos e irritantes. Era um cara bonito, seguro, mas tinha aquele mesmo perigo silencioso que fazia todos desconfiarem de Marlon Brando.
— Vamos esclarecer algumas coisas, Nôa. Primeiro, não sou eu quem está atrás de você. Não sou eu quem detesta a própria existência e precisa vasculhar os pertences de um menino cigano para dar sentido à própria vida. Não fui eu quem permitiu que a pessoa que mais me ama no mundo fosse morta. Foi isso que aconteceu com a doce Liza, estou certo?
Nôa recuou um passo, depois outro. Acabou tropeçando e derrubando os quadros no chão. A estatueta escapou do mesmo destino por muito pouco — Nôa conseguiu ampará-la com a mão direita.
O rapaz de jaqueta parecia mais alto agora. Mais forte. Deus do céu, ele parecia invencível. Nôa se esforçou para controlar a respiração e perguntou: — Quem, diabos, é você?
— O próprio. E quero o que me foi tomado.
Nôa se abraçou à estatueta e olhou para os quadros espalhados ao seu lado.
— Não! São meus. Eu me esforcei para conseguir tudo isso. E não me venha com essa de Deus e o Diabo. Que eu saiba, nenhum dos dois dirige uma porra de Maverick ou perde seu tempo em um país como o nosso.
— Nôa, Nôa… Onde você está com a cabeça? Citando Ele? — apontou para o céu. — Eu não falo com o patrão faz muito tempo, mas você deve imaginar que não temos uma boa relação. No entanto, supondo sua total falta de bom senso, posso contar algumas coisas sobre mim. Eu ando por aí. Escutando seus anseios, me esforçando para ser útil, enquanto as ovelhas rezam para o pastor errado. E esse país? Nôa! Eu chamaria esse lugar de lar. Pluralismo religioso, fornicação, corrupção, ódio, delitos em cada esquina. Isso aqui só não é melhor porque vocês ainda não liberaram as drogas e o porte de armas. Mas estou trabalhando nisso, eu garanto… — disse e sorriu, com a metade esquerda dos lábios. — O caso aqui, sr. Nôa, é que você vai me entregar tudo o que roubou de Wladimir Lester.
— Lester está morto! Eu não roubei nada que pertença a você!
— Sim. De fato, Lester é o dono legítimo. Mas eu sou o procurador dele. Mostraria nosso contrato a você, mas… Vamos resumir, ok? Minha paciência não está das melhores nessa noite gloriosa.
Nôa fez um movimento para ficar de pé, Lúcio apontou o dedo para ele, na forma de um gatilho.
— Fique onde está se não quiser perder as pernas. Falo sério, rapaz.
O homem de jaqueta de couro caminhou mais alguns passos. Então, em um salto preciso, empoleirou-se no encosto do banco de concreto que havia atrás de Nôa. Mergulhou a mão em um dos bolsos da jaqueta, puxou e acendeu um cigarro.
— Você ainda me deve aquela cerveja, Nôa. Eu nunca esqueço um trato. E sobre Wladimir Lester… Rapaz, vou contar uma história bem triste para você. — Ele tragou o cigarro. Nôa sentiu a velha vontade de fumar crescendo dentro dele. Mas não aceitaria mais nada do demônio. Lúcio continuou: — Um dia desses, eu estava em casa, cuidando das finanças, então ouvi um menino clamando por atenção. Como se tratava de um cigano, não dei muito crédito, sabe? Não dá para confiar nessa gente. Mas aí alguém me disse quem era o pai do menino. Nós costumávamos negociar às vezes. Resolvi ouvir a criança, e o menino me contou sobre uma trapaça do velho Juan Lester. Para cima de mim? Por favor…
— Não quero ouvir mais nada. Por favor, me deixe ir embora com os quadros.
— Se me interromper outra vez, faço sua língua virar espuma. — Os olhos do homem ficaram laranjas, com a cor do fogo. Nôa sentiu sua alma congelar perante o outro, sua esperança o abandonou e ele desejou a morte. Precisou enterrar as unhas no concreto do chão para afastar a ideia.
— Eu fiz tudo pelo menino — continuou Lúcio. — Dei poderes a ele, o livrei do bando de sacanas que queriam torturá-lo até a morte. Eu o ajudei quando as outras crianças tentaram acuá-lo e persegui-lo. Então, Wladimir Lester decidiu me desafiar e crescer. Eu o mantive uma criança por muito tempo, gostava dele assim. Todos amam as crianças. Mas se ele realmente queria se tornar um adolescente idiota, quem era eu para negar? O livre-arbítrio é minha lei preferida, sabia? Dar a chance de criaturas como vocês pensarem por si mesmas… Não nego que torna meu trabalho bem mais fácil. O fato é que o menino cresceu, Nôa, e decidiu que não desejava mais meus favores. Wladimir Lester queria sua alma de volta. Foi quando o cretino escondeu suas obras da minha visão. Colocou cada pedaço de sua arte nas mãos de imbecis como você.
— Você não é o Diabo? Como ele conseguiu enganá-lo?
A figura do homem aqueceu o ar ao seu redor. Nôa podia sentir o calor, conseguia ver o ar liquefeito se rebelando contra ele. Lúcio respondeu olhando para cima, para o céu que começava a ganhar alguma luz.
— Persegui as obras do menino por décadas. Encontrei muitas delas. Entretanto, algum idiota resolveu colocar as mais importantes dentro de uma igreja. É só aí que você entra no jogo, Nôa. Eu precisava de alguém ambicioso, persistente e descrente o bastante para invadir uma catedral condenada e reaver o que estava escondido dos meus olhos.
Lúcio deixou o banco em outro salto e parou ao lado de Nôa. Desceu sobre os joelhos e colocou os braços entre eles.
— Agora que já conhece a história, quero o que está no seu bolso esquerdo. Não me faça abrir sua carne para conseguir.
— Não… Não depois de tudo.
— Aquela cerveja, Nôa. Você ainda me deve.
Nôa mergulhou a mão no bolso da calça e puxou o tubinho de vidro. Decidiu mantê-lo em suas mãos. Ele tremia, seus olhos estavam cheios e vermelhos. O demônio conseguia sentir sua ira, sua fúria.
— Por que precisa da tinta? Eu posso ficar com ela, Demônio. Posso pintar para você, continuar de onde o menino parou. Você ficaria famoso de novo, teria seguidores que não poderia numerar.
— É uma boa proposta, Nôa. Mas o que você tem nas mãos está além de sua capacidade de entendimento. Essa tinta deixou de ser produzida quando Wladimir se afastou da minha presença. Lester é parte dessa tinta e ela é parte dele. Só preciso que me entregue o tubinho e siga com sua existência infeliz. Posso até deixar sua vida mais confortável, é claro, desde que não continue testando minha paciência.
— Depois de tudo…
Nôa encarou a criatura à sua frente. Seu pai não era muito religioso — ao contrário da mãe —, mas algo que ele sempre disse é que não se pode confiar no Diabo. A mão de Nôa projetou o tubinho à frente e, pela última vez, seus olhos se deixaram seduzir pelo brilho que havia dentro dele. Nôa segurou o frasco e o abriu com o polegar. Então o enfiou na boca. Sentiu o líquido adocicado e ferruginoso inundar sua língua, sentiu a garganta queimar como se engolisse brasas.
O demônio sacudiu a cabeça em desdém. Em um relance, estava com a garganta de Nôa entre os dedos. Ou melhor, entre as garras.
— Seu macaco imbecil. Acha mesmo que pode me derrotar?
Nôa tentava dizer algo, mas as mãos do Demônio — e o líquido que derretia sua garganta — não permitiam. Seus pés começaram a se agitar, as mãos se abraçavam ao estômago pulsante.
Com a mão livre, o demônio apanhou o tubo de vidro jogado ao chão. Olhou nos olhos de Nôa com profundo desprezo e mergulhou o recipiente em seu coração. Nôa bufou e esticou os pés em um chute pela última vez.
— Sua alma me pertence, Nôa. E você vai me entregar cada gota dela.
Nôa olhou para baixo, o sangue de seu coração estava preenchendo o tubinho, se mesclando ao quase nada que resvalava pelas paredes. O demônio levantou o pescoço e gritou, irritado com os primeiros raios de sol que transformavam o céu na casa de Deus. Quando o tubo se encheu pela metade, deixou o corpo sem vida de Nôa estirado no calçamento.
Em seguida, apanhou os quadros e a estatueta cigana. Colocou-os no banco de trás do carro. Pouco antes de dar a partida, guardou o tubinho em um dos bolsos da jaqueta. Ainda tinha dúvidas se aquilo serviria para alguma coisa, diluído com o sangue daquele ser patético, mas teria que funcionar. O Maverick ganhou as ruas depois disso, emborrachando o asfalto e desaparecendo para sempre de Acácias.