Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 54 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 2

Sessenta dias depois.

A miséria parece gostar de alguns, mas talvez exista apenas para medir a capacidade humana de sair do lodo. Marcos era uma dessas pessoas, alguém que não imagina o quanto o azar e a sorte podem ser próximos.

Em outro bairro da mesma Três Rios, ele acordou com os olhos arregalados depois de um pesadelo horrível. Apesar do corpo suado e do coração acelerado, ficou na cama até que o alarme do relógio tocasse, às sete. Preferia ter algum motivo para levantar antes, mas na verdade não tinha — não um bom motivo. Sua esposa, que aos seus olhos parecia quarenta quilos acima do peso, pouco o animava e seu emprego — técnico em informática, daqueles ruins que ganham algum dinheiro montando CPU s e trocando pentes de memória — não era exatamente inspirador . Talvez a única coisa boa que Marcos tivesse feito na vida fosse mesmo o pequeno Randy (o nome era uma homenagem do pai — que um dia tocara guitarra — a Randy Rhoads).

Pobre Randy. Não fosse sua cabeça ruim, seria um ótimo garoto, e ora essa, mesmo com suas limitações, ele era o máximo. O menino era o fator empolgante que fazia Marcos enfrentar mais um dia de clientes que jamais o tirariam de sua vida lastimável. Deus! Até sua casa — o castelo sagrado de qualquer exemplar macho da espécie humana — parecia um chiqueiro. Óbvio que a dona daquele palácio poderia melhorar tudo se dedicasse um pouco do tempo livre à sua casa, talvez até perdesse alguns quilos, quem sabe deixasse de parecer uma grande leitoa? E uma leitoa no cio — e Deus sabe que estava cada vez mais difícil fugir de suas investidas.

Mas ficar reclamando na cama não ajudava ninguém a fugir do fracasso.

Marcos se esticou, estalou as costas e foi até o banheiro. Coçou a bunda pelo caminho.

Apanhou um dos itens essenciais das manhãs de qualquer pessoa normal. O tubo de pasta de dente estava tão liso quanto uma folha de sulfite. Pelo jeito, Odeta tinha se esquecido de fazer compras. De novo . Marcos desistiu do tubo e gargarejou com Anapion vencido que encontrou no armário. Desprezou o espelho quando fechou o armarinho branco e descascado.

Não precisava de um pedaço de vidro velho para, mesmo com quarenta anos, sentir-se um cinquentão acabado. Sua magreza adoecida, suas olheiras. Os malditos cigarros que marcaram seus dedos e destruíam sua pele.

O banheiro era amplamente compatível com sua aparência. Pequeno, úmido, com louças verdes que deviam estar ali há uns trinta anos. O boxe do chuveiro era uma vergonha feita com uma lona de plástico florido suspensa por argolas enferrujadas. O cenário perfeito para um suicídio — era o que pensava Marcos todas as manhãs. Se pelo menos ele tivesse uma banheira onde se afogar, teria resolvido o assunto há anos, mas não morreria no chão, como uma barata que inalou inseticida. Uma barata que morreria olhando para o teto todo mofado, do qual em vários pontos a tinta soltava placas secas, implementando o risco de esmagá-la mesmo depois de morta. Nem pensar em morrer deitado naquele piso marrom-cocô cuja maior serventia era esconder a preguiça de Odeta. Não… Nem as baratas se sentiam à vontade naquele lugar. Preferiam a casa dos Almeida, do outro lado da rua. A família perfeita, a prova cabal de que nem todos odeiam suas vidas. Jeferson Almeida … Ele, sim, vivia bem. Ele, sua filha adolescente e sua mulher que parecia outra adolescente.

Depois de depositar a urina da noite na privada e botar suas roupas de trabalho (calça jeans e camisa azul “cobrador de ônibus”), Marcos foi tomar café da manhã. Café mesmo, puro . Nada de leite misturado, frutinhas coloridas, pães fofinhos e coisas normais em uma mesa matutina. Apenas o suco preto de cafeína e a cara de pau da esposa, propositalmente incapaz de preparar uma primeira refeição decente.

O pequeno Randy (de onze anos de nascença, mas três na cabeça) se distraía com alguns carrinhos quando o pai passou por ele. Era sorte o garoto não perceber muito do mundo. Se pudesse escolher, Marcos trocaria de lugar com ele. Principalmente pela manhã.

— Cara feia logo cedo, amor? Que foi? — indagou Odeta.

Pergunta redundante. Bastaria olhar para aquela camisola branca que ficaria sobre ela o resto do dia para perder o apetite. Não costumava reparar muito em Odeta, mas achava que aquele trapo estava nela há duas semanas — fazia cinco dias que Marcos tinha percebido um enorme escorrido de molho de macarrão no tecido. Ainda estava lá. Jesus… A mulher com quem se casara parecia um galão de água mineral naquela maldita roupa.

— Dor nas costas — disse e entornou meia xícara de café. — Já vou indo, Deta.

— Dia cheio?

— O de sempre.

O dia cheio de Marcos se limitaria a dois clientes: o dono de um mercadinho de frutas a uns dez quilômetros de sua casa e uma loja de quinquilharias. Esse último era um cliente novo — não que isso significasse alguma coisa relevante na profissão xexelenta de Marcos.

— Cadê meu beijo? — ela perguntou, antes que Marcos escapasse. Ele não tentou resistir. Foi até o meio da cozinha e tocou seus lábios, como se tocasse a lepra.

Marcos deu as costas a ela como quem foge de um caminhão jumbo desgovernado.

— Vê se não se cansa muito, gostosão — disse ela. Depois, um leve aperto em sua bunda seca. Marcos continuou de costas; evitou outra troca de olhares e deu um passo mais largo. Passou por Randy no meio da sala. Deu um beijo em sua cabeça e atravessou a porta da frente, já entorpecido com a doce alegria de sair de casa. Esta porém, durou bem pouco…

— Aiii!

Havia um carrinho de Randy do lado de fora. Um Mickey, sentado em um jipinho barulhento, movido à corda. O tipo de brinquedo que as crianças de hoje não dariam a mínima, mas não Randy. Para ele, o carrinho descascado era o máximo, principalmente porque conseguia dar corda nele. E sozinho !

— Merda de brinquedo — disse Marcos, massageando o tornozelo torcido. Voltou a abrir a porta e colocou o jipinho para dentro da casa, mas só com as mãos atravessando a abertura. A irritação em seu rosto não melhoraria o dia de Randy…

Enfim foi para seu Fiat 147. Como o carro dormia na rua, estava fresco lá dentro, o orvalho da noite ainda manchava os vidros com suas gotas. O sol lá em cima já lutava para acabar com isso, fritando o mundo com seus raios cancerígenos. Marcos rapidamente conferiu as ferramentas e suprimentos e acelerou para o mercadinho União. O lugar era uma tragédia, mas com um pouco de sorte, veria a filha do dono. Ela ficava por lá de vez em quando, arrumando as frutas. O que Marcos mais gostava em Catarina eram suas frutas, seus melões . Sim… Grandes melões, maduros e pouco cobertos. O dono do mercadinho não era pai biológico de Catarina. Ele devia ser um homem bom, afinal, nunca trocou a mãe pela filha. Berenice era uma baiana fogosa que pegou seu Nakura de jeito quando percebeu que ele tinha algum dinheiro. Era mãe solteira, acabou se casando com ele e abocanhando metade do mercadinho. No fim, eram todos boa gente, pessoal trabalhador. Marcos tinha um pouco de inveja do seu Nakura. Morar na mesma casa que Catarina, pegar a mãe pensando na filha, espiar pelo buraco da fechadura… Marcos, ao contrário de seu Nakura, não se qualificava na chamada moralidade cristã . Sexualmente falando (e longe de Odeta), era quase um huno .

— Não é possível… — reclamou cinco quarteirões depois de ligar o carro.

A rua estava bloqueada. Algum gênio resolveu arrebentar o asfalto logo cedo. Isso significava sacrificar mais um pedaço do lucro e aumentar o percurso em uns cinco quilômetros.

Marcos encontrou o motivo em um enorme banner. Nele havia um homem sorrindo a nova porcelana dos dentes e dando um “joinha” cheio de confiança.

Todo prefeito que se preza começa a abrir buracos na rua, para mostrar serviço, quando as eleições se aproximam. Não era diferente com Jorge Gusmão, o prefeito que se candidatava para seu segundo mandato. Marcos o conhecia, estudaram juntos e, enquanto Marcos queimava nicotina no banheiro, Jorginho estudava de verdade. O resultado estava bem ali: o valentão comia capim e o CDF virou prefeito. Levemente irritado com a lembrança, colocou o carro em ponto morto e botou a cabeça para fora: — Ô, patrão? Deixa eu atravessar, vai… Vocês ainda nem começaram a quebrar — disse. Não custava nada darem um jeitinho. Não no Brasil, www.terra-de-ninguém.com.br.

— Segura aí, amizade. Vou falar com o chefe — disse o homem. Um baita negão (afrodescendente de porte grande e musculoso) que mastigava uma maçã encardida e se apoiava em uma pá.

— Ô, seu Marcelo? — gritou, dando dois passos para trás.

Se fosse pra gritar, eu mesmo tinha feito isso , pensou Marcos.

O homem com o rego encardido e exposto continuou: — O cara no Fiat ali — não disse Fiat e sim Fiête — tá pedindo pra passar.

O encarregado do quebra-quebra era um pouca sombra com um cabelo arrepiado e arrogante crescendo no cocorote.

— Manda ele se foder. A gente tem prazo aqui — respondeu “seu Marcelo”. Baixinho é fogo quando o assunto é facilitar as coisas. Tudo bem que para eles a vida seja mais complicada, que apanhem demais na escola, que não consigam as melhores garotas… Pode ser por qualquer motivo, mas o fato é: todo cara com menos de um metro e setenta é complicado.

Impotente, o negão (afrodescendente de porte grande e musculoso) deu de ombros para Marcos, se esquivando de alguma culpa. Marcos buzinou chamando a atenção de Marcelo, o Baixinho. Então esticou o braço pra fora do 147 e cresceu o dedo médio, para cima e para baixo, penetrando a atmosfera. O pessoal riu e Marcos tomou o desvio obrigatório, ligeiramente vingado.