Ultra Carnem
Capítulo 23
Enquanto caminhavam pelo jardim, Nôa percebeu que o lugar — chamado de Doce Recanto — não era exclusivo para doentes mentais. Também havia velhos com seus olhares perdidos, suas carcaças cansadas e suas histórias incríveis que ninguém tinha tempo para ouvir. Sentiu, talvez pela primeira vez em anos, saudades de seu avô. Onofre era um bom homem, um que, ao contrário do neto, percebeu que a vida poderia ser boa sem grandes inspirações. Ele era marceneiro, pai de seis filhos, alguém que limitava seus dotes artísticos a embelezar a casa dos outros. Nôa jamais conseguiria fazer algo parecido com seus quadros. Ele tinha uma chama dentro dele, um fogo que o consumia desde que descobriu ter consciência. Liza costumava chamar aquilo de maldição. Talvez tivesse razão.
Quando finalmente cruzaram o jardim, Nôa seguiu a enfermeira, que descobriu se chamar Celeste, até o interior de uma das instalações. Passaram por um pequeno hall com um conjunto de estofados escuros onde um homem careca não desviava os olhos da TV e, depois, chegaram ao que parecia um salão de jogos.
O próximo homem que Nôa viu estava jogando damas, sozinho. Porém, em seu mundo, o velho tinha companhia. Sempre que movia uma peça ele sorria e fazia alguma gracinha. Depois mudava de lado e escolhia outra peça, a pedido do parceiro invisível.
— O nome dele é Bismark — disse Celeste. — Veio morar conosco em 1995. A família disse que ele serviu o Exército e ficou desorientado depois disso.
— Ele parece maluco para mim…
— Mas não é. O problema é que Bismark ficou sozinho tanto tempo que se esqueceu de dar importância ao mundo. Acontece com muita gente velha. Agora me diga, seu Nôa: o que você quer com nosso amigo silencioso?
Nôa absorveu o impacto. Tentou ganhar tempo e não dizer nada idiota.
— Tivemos um amigo em comum. Eu tenho esperanças de descobrir seu paradeiro.
— Vai perder seu tempo. João Paulo não fala nada que se compreenda. Aliás, até dois meses atrás ele não falava nada, até pensamos que tivesse ficado mudo de verdade. Então ele acordou aos berros em uma noite de quinta-feira. Tivemos que segurá-lo e aplicar sedativos para que se acalmasse. Bem, seu amigo não está exatamente falando, mas às vezes grunhe e geme como se tentasse dizer alguma coisa. Quanto tempo faz que o senhor não o vê?
— Muito tempo — disse, pigarreando.
— Vamos. — Celeste recomeçou a andar. — Ele está no pátio interno. Seu amigo não gosta muito de ficar fora dos muros. Nós tentamos levá-lo até o jardim mais de dez vezes; na última, ele quebrou o nariz de um enfermeiro.
Nôa engoliu em seco, fazendo a garganta estalar. Ele precisaria conversar com o homem a sós, e saber que ele arrebentara o nariz de outra pessoa não era de modo algum uma boa notícia.
Os dois atravessaram o salão de jogos e tomaram um pequeno corredor. Havia obras de arte ordinárias nas paredes, duas delas representavam frutas. O terceiro quadro, que ficava de frente para uma grande porta de vidro aberta, mostrava um ramalhete de valquírias. Os três quadros já estavam desbotados e esquecidos, como as pessoas internadas naquele lugar. Ao lado da porta de vidro havia uma velha. Quando Nôa chegou mais perto, ela o agarrou pelo braço, com força.
— Você veio me visitar?
— Infelizmente, não. Mas podemos conversar mais tarde.
— Eu não gosto de ficar para depois — ela disse. Soltou o braço de Nôa e mostrou-lhe a língua.
Celeste riu da provocação e deu um passo em direção à abertura da porta de vidro. Nôa a seguiu, ficando o mais perto dela que podia.
Havia duas outras pessoas no pátio onde estava João Paulo. Um homem de uns quarenta anos brincando com bolinhas de gude e uma velhinha. A mulher fazia tricô e não perdeu nenhum ponto com a entrada de Nôa e Celeste. O homem também não parou com seu jogo. O terceiro elemento, que devia ser o homem que procuravam, estava mais aos fundos, sentado em uma cadeira de vime. Suas pernas estavam protegidas por um cobertor, ele não tinha mais de cinquenta anos. Os cabelos estavam sem corte e havia mechas brancas pelas têmporas. Longe daquela condição deprimente, ele seria até charmoso. Mas ali, com o queixo despencado e o olhar perdido, não era mais que outro condenado ao esquecimento.
— Jota? Eu trouxe alguém para visitá-lo.
O homem sequer moveu os olhos. Seu olhar continuou fixo no meio do pátio, desfocado. Respirava profundamente, como alguém que ainda dorme. Seu queixo pendido o fazia inspirar o ar com algum ruído.
— Vou pegar uma cadeira para você se sentar enquanto conversam — Celeste disse a Nôa. — Ou tentam conversar — completou. Ele agradeceu e esperou que a enfermeira retornasse. Não demorou muito tempo. Celeste encontrou uma cadeira ali mesmo, no pátio.
Nôa ocupou o assento e ficou olhando na mesma direção do homem, tentando acompanhar o ritmo de sua respiração. Criar empatia é a chave para uma boa conversa. Era o que dizia seu pai. Para Nôa, a animação das conversas do velho tinha bem mais a ver com garrafas de cerveja.
Quando Celeste desistiu de fingir que cuidava das duas outras pessoas a fim de observá-lo e se afastou, Nôa disse: — É bem tranquilo aqui. Consigo ouvir pássaros, o lugar é limpo e fresco. Aposto que cuidam muito bem de você — disse para o homem que parecia tão interessado naquela conversa quanto na urina que descia por sua sonda. — Eu gostaria de ficar em um lugar assim quando envelhecesse ou precisasse de amparo.
Nôa terminou a frase e alguém deu um grito no salão de jogos, assustando o velho.
— Parece que não é tão tranquilo, afinal — falou, se corrigindo. — Mas você entendeu o que eu quis dizer.
Enquanto olhavam para o pátio, um urubu desceu do ar e pousou no meio do concreto. Ele bicou o chão três vezes, saltitou e abriu as asas, então ficou de frente para Nôa e para seu novo amigo silencioso. João Paulo esfregou os braços como se estivesse com frio. Para Nôa, ele parecia uma criança assustada.
— Parece que temos companhia — disse o rapaz.
Não demorou muito e o homem que brincava com bolinhas de gude atirou uma das esferas na ave. O pássaro rixou alguma coisa com ele e, em seguida, alçou voo. Foi nesse momento que Nôa também se assustou, porque o homem ao seu lado perguntou com uma voz rouca e frouxa: — Quem mandou você aqui?