Ultra Carnem
Capítulo 7
Um cheiro bom atingiu os sentidos de Marcos bem antes que ele abrisse seus olhos.
Naquela manhã, ele acordou disposto. Nada da preguiça depressiva que sempre o segurava dentro do quarto, nada de Odeta tentando abraçá-lo, nada de intestino preso. Seria bom acordar sempre assim, com um otimismo absurdo contaminando tudo. A evolução de Randy na noite passada, o sono repentino de Odeta. Pela primeira vez em muito tempo, Marcos estava feliz. E ficou ainda mais quando chegou ao banheiro e encarou seu amiguinho da terra das cuecas. Definitivamente estava maior. Marcos sorriu. A sorte continuava com ele.
Quando saiu do banheiro, o cheiro da cozinha o atingiu com mais força. Parecia bom demais para algo feito por Odeta. Pensou se haveria outra mulher na cozinha. De bunda esculpida e seios duros, magra onde era preciso…
— Acordou, seu dorminhoco? — indagou a mulher de sempre. Odeta ainda estava lá… Mas mastigava uma maçã e usava um vestido limpo em vez do tecido que Marcos confundiria com uma capa da Ultragaz.
— Bom dia, Deta… — resmungou Marcos, se alongando em uma espreguiçada. Chegou mais perto para conferir a mesa assustadoramente cheia. Pães — salgados e doces —, frutas, iogurte. Tinha até suco de laranja.
— Para que tudo isso?
— Para você.
Marcos coçou a cabeça, constrangido. Mesmo parecendo uma morsa, pobre Odeta… ela tentou agradá-lo naquela manhã.
— Senta aqui, toma café comigo — ele disse. Olhou para o café, mas preferiu um pouco de suco de laranja.
— Não mesmo! Estou de regime, Marcos. Quero ficar bonita pra você.
Por muito pouco, ele não cuspiu o suco. Esperava por aquelas palavras desde que Odeta engravidou de Randy — foi naquela época que ela começou a comer por um time de futebol inteiro.
Olhou bem para a mulher. Parecia diferente. Não no físico, mas Odeta tinha uma autoconfiança predatória atrás dos olhos. Ela conseguiria qualquer coisa se mantivesse aquela vontade viva. Marcos suspirou esse desejo e atacou o café da manhã.
Deta parou naquela única maçã. Quando terminou a fruta, passou a separar materiais de limpeza — ficavam na cozinha mesmo, em um armário perto do fogão. Marcos parou de mastigar outra vez. Odeta limpando a casa? Sem visita da minha mãe marcada? , pensou.
Pobre Marcos. Ele sequer desconfiava quantas surpresas aquele dia ainda guardava. Uma delas vinha para a mesa agora. Diretamente da caixa de pandora.
— Bom dia — disse Randy.
— Oi, filho — Marcos respondeu de volta, sem dar muito crédito, sem perceber aquele “bom dia” perfeitamente articulado. Como era rotina, começou a afastar as facas do alcance de Randy.
— Esquece isso, pai. Tô melhorando.
Marcos ergueu os olhos e deixou uma das facas cair no chão.
Notou primeiro os cabelos de Randy. Estavam penteados, ele parecia ter passado gel ou coisa assim. O olhar bobo não estava mais em seus olhos. Aquele que puxava uma cadeira e sentava à mesa era apenas um garoto de onze anos, talvez um pouco menos, mas nem de longe era o Randy sem tutano que costumava sentar bem ali.
— Meu Deus, Randy! Você… Você está mesmo… bem ?
— Acho que sim. Mas preciso de roupas novas. Aqui em casa só tem roupa de bebê.
Marcos foi até ele e o abraçou. Conteve o choro sobre seus ombros finos. Odeta continuou com seus preparativos, enchendo um balde com detergente na pia da cozinha. Ela não parecia tão surpresa com Randy ou consigo mesma.
Santo Deus.
Randy estava bem, Odeta tentava se cuidar. Tudo estava tão perfeito.
Tão quase perfeito. Antes que Marcos perguntasse a Odeta desde quando Randy melhorara da cabeça, seu celular começou a tocar e trepidar sobre a mesa. Ele o atendeu depressa, deixando uma fatia de pão doce mordiscada no prato e se perguntando se o aparelho o acordaria de um sonho bom.
— Alô?
— Arô! É Nakura! Computadô pifou de novo, Marco!
— Não é possível… trocamos a peça ontem, seu Nakura.
— Não interessa. Peça pifou. Precisa conserto novo. E de grátis, né?! Tô esperando, Marco — ele disse e terminou a ligação.
— Tava bom demais… — Marcos desabafou, batendo o telefone contra a mesa.
— Vai dar tudo certo — disse Odeta. Estava de costas e tentava desencardir dez anos de gordura da parte de cima da geladeira. Marcos observava sua enorme bunda sacolejando como um saco de geleia.
Marcos terminou o pão, deu um beijo em Randy e saiu. Queria ficar por lá e conversar com ele o dia todo, descobrir se a evolução espantosa era permanente, levá-lo ao médico mais tarde. Estava tão empolgado que também sentiu vontade de dar algum carinho a Odeta. O bom senso disse que era cedo demais para isso. Podia ser um plano, afinal. Para conseguir completar aquela famosa dança do acasalamento.