Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 17 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 17

A pior noite da cidade continuava sem uma lua no céu. Os animais estavam calados, o sereno não vinha acalmar a terra, as pessoas se aglomeravam em volta das velas.

Os três rivais de Lester correram para o refeitório para encher a barriga de comida. Junto com os outros, fizeram papel de santos e ajudaram madre Suzana nos preparativos da quermesse. Antes de comerem, rezaram com o padre Giordano. A agitação era tanta que alguém só percebeu a ausência do menino cigano perto das nove da noite — ou talvez tenham notado e o deixado de lado, como um leproso qualquer. Não por acaso era Ágata chegando à porta número oito. Ela tinha ouvido de uma das meninas o que aconteceu mais cedo naquele mesmo quarto.

— Lester? Tá tudo bem com você?

Sem uma resposta, ela colou os ouvidos na madeira e se pôs a ouvir. Alguma coisa acontecia dentro do quarto, um som similar a uma vassoura espanando o chão. Mas Ágata duvidava muito que Lester estivesse ocupado com uma faxina.

O som logo ganhou companhia, um ofegar, rápido como o de um cão.

Ágata ergueu os braços e bateu na porta com força.

— Abra, Lester! Se não abrir, vou chamar o padre!

Ela bateu mais vezes, seus punhos já estavam doendo. Estava prestes a desistir e buscar Giordano quando a porta se escancarou. Era estranho, mas não havia ninguém operando a maçaneta. A menina recuperou o equilíbrio dois passos depois, já dentro do quarto.

Lester estava à sua frente, de costas. Os braços estendidos, uma de suas mãos segurava um pincel. Seu corpo banhado apenas pela luz que entrava do corredor e pela chama de uma vela. A garota quase saiu correndo quando ele se virou para ela.

O rosto do menino era uma pintura sangrenta e esfolada. A pele fina estava agora trincada, sulcada, perecendo com o ressecamento da tinta. Os olhos do menino cigano não estavam brancos, mas consumidos pela escuridão. Ao lado de Lester, um pouco recuada, a última expressão de seu gênio transferida para uma tela. Rostos de todas as formas sofriam. Pedaços humanos se entrelaçavam a eles, uma estranha ramificação vermelha permeava a carne ali representada. O quarto estava gelado, um cheiro horrível de carniça penetrava seu nariz. No chão, uma poça do que provavelmente era urina.

— Lester! O que aconteceu aqui? O que você fez?

Atrás do menino, projetada na parede que sustentava a única janela do quarto, uma sombra enorme. O dono da forma não aparecia no mundo dos vivos, mas a silhueta borrada do chão ao teto não deixava muitas dúvidas. Seus quase dois metros de escuridão terminavam com chifres, as asas pontudas, o som de cascos batendo no chão quando a sombra marchava. Ágata tentou se mexer, mas seus joelhos vacilaram. Sua garganta fez o mesmo quando tentou gritar por ajuda. Percebendo a intenção da menina, Lester levou o dedo aos lábios trincados.

— Você não quer fazer isso.

Alguém gritou “Tá com você” do dormitório. Ágata conseguiu voltar ao mundo, escapar do horror por um segundo. Tempo suficiente para recuar um passo.

— Não tão rápido — Lester disse.

A porta se chocou atrás dela, o estampido fez as janelas trepidarem. Quanto tempo levaria até alguém chegar ao quarto depois daquele estouro? Não o bastante, porque a figura da parede começou a avançar. A sombra não estava mais confinada, estava viva, caminhando, suas asas farfalhavam riscando com negrume o ar parado do quarto.

— Lester, sai daí! Tá indo para cima de você! — ela gritou.

Em vez de ouvi-la, o garoto deixou o pincel cair no chão e o trocou por uma estatueta. Abriu os braços, como um homem crucificado. Ágata não conseguia entender como ele era capaz de sustentar a peça de gesso com um só braço. A sombra tomou sua atenção em seguida, esticou suas mãos e as colocou sobre os ombros de Lester. Ele sorriu, um sorriso adulto e depravado.

Mesmo para alguém com a tenra idade de Ágata, não havia dúvidas de que o menino estava perdido. Ele mesmo devia ter invocado aquela coisa. Era o que se comentava pelos corredores: que os ciganos, todos eles, têm parte com o Demônio. Mas Lester conseguia ser tão doce, tão indefeso, não parecia possível. Como também não parece possível odiar uma criança ou a nossa própria mãe. Giordano costumava dizer, às vezes, quando uma criança parecia deprimida demais, que o mundo também é feito de decepções e surpresas desagradáveis. Ele estava certo.

Ágata correu até a porta e agarrou a maçaneta. O metal estava tão quente que sua mão chiou ao tocá-lo. A garota insistiu, apanhou o babado de seu vestido e o usou para proteger a mão. Foi inútil — a maçaneta parecia soldada. Ela desistiu e virou-se para Lester.

— Eu não fiz nada para você! Sou sua amiga, lute contra ele, Lester! Lute contra o Demônio!

Lester sorriu abrindo novos sulcos na pele untada de tinta. Saliva escorria por sua boca, tão exuberante que respingava pelo queixo. Seu corpo também estava maior, havia músculos adolescentes em seus braços. Deus! O que era aquela coisa?

— Ninguém nunca faz nada — ele disse. — Gente ruim vive e gente decente morre. Pessoas boas não tem chance nesse mundo.

— Mas você é uma pessoa boa, Lester! Eu sei que é!

Ele chegou mais perto e Ágata se espremeu junto à madeira da porta. Lançou os olhos para a janela fechada. Não adiantaria. Mesmo que ela corresse muito e conseguisse passar pelo menino e abri-la, acabaria nas grades. E Ágata não faria isso. Com ou sem grades, ela estava convencida de que traria seu amigo de volta, estava certa de que Lester era uma vítima da escuridão.

Assim, observou-o enquanto ele avançava os passos que precisava para alcançá-la. O rosto da menina estava vermelho e úmido, seus olhos injetados e cheios de novas veias. Ela ainda forçava o corpo contra a porta. O padre Giordano dizia que Deus sempre está atento, que ele nunca abandona uma ovelha de seu pasto. No entanto, o que Deus havia feito por ela até ali? Havia permitido que nascesse para depois a colocá-la em um depósito de crianças rejeitadas, com um padre hipertenso e uma freira que não assumia a mulher que havia dentro de si. Deus a odiava, isso sim. Talvez odiasse todo mundo.

— Não me machuque — pediu.

— Preciso de você, menina. Vou homenageá-la, você viverá para sempre — disse a voz grossa que deixou a garganta de Lester. — Você vai deixar esse mundo com um pedido, por isso colocarei sobre seu jugo os desejos da raça humana.

— Eu não quero! Só quero sair daqui!

Lester chegou mais perto. Sua mão direita agarrou o pescoço de Ágata. Ele a içou a alguns centímetros do chão e aproximou seu rosto. O cheiro que ela sentira antes não era do quarto, não era de algo vindo de fora que entrara pela janela. Era dele. Lester fedia como um animal morto.

— Já está decidido — disse a ela.

Logo depois, torceu seu pescoço. Os olhos de Ágata não mostravam ódio ou desejo de vingança. Eles apenas não acreditavam. Acabada a torção, Lester levou o corpo morto ao chão e posicionou a mão esquerda sobre sua boca.

— Sua alma ficará nesse corpo — disse, retomando a voz infantil. — E esse corpo ficará dentro da estátua de minha mãe. Vocês vão dividir dádivas e maldições. Em cada pedido, as duas vão decidir o merecimento. Que as tuas chagas protejam o espírito dos desejosos.

Lester baixou as pálpebras de Ágata e se afastou um pouco. Rodeou o corpo até chegar à estatueta. Ela era perfeita. Cada traço, detalhe, a cor amorenada da pele. Os olhos, como em todas as grandes obras, pareciam seguir quem os encarasse. Finalmente ficaria pronta. Sem a proteção da maldita velha chamada Sarah, sem a interferência dos ciganos, Lester poderia enfim completar seu intento. Ele seria relembrado para sempre, suas obras atravessariam o tempo e encheriam o mundo com sua glória.

— Que seja feito — disse.

Um som pastoso brotou de dentro do cadáver infantil. Lester sacudiu a cabeça e ganhou seus olhos de volta. O negrume começou a deixá-lo, escorrendo pela pele como a sujeira que realmente era. A mancha tomou a direção do cadáver, e Lester pousou a estatueta no chão, ao lado do corpo. Em segundos, havia um trecho negro conectando a estátua e a menina. O rosto de Ágata começou a murchar. Primeiro as maçãs vermelhas, depois o queixo afilado. As orelhas se tornaram dois pontos de carne, depois, duas covas. O corpo juvenil seguia o ritmo, envelhecendo e encolhendo. As roupas sobrando ao seu redor. Ao mesmo tempo, a estátua ganhava vitalidade. O brilho exagerado do verniz havia deixado a superfície; em seu lugar, uma oleosidade orgânica surgiu. Lester passou os dedos sobre a pele do rosto da Ciganinha e os levou até a boca. Salgado como suor.

Restavam os olhos e a boca de Ágata. Essa última não demorou a se transformar em um traço fino e enrugado. Só quando os dentes apodreceram e retrocederam às gengivas, os olhos tomaram destino similar. Lester olhou de volta para a estátua e os olhos da peça o acompanharam. Não como antes. Agora, estavam cheios de vida.

Quando a porta do quarto trouxe outro visitante, não havia mais nada de Ágata. Nem mesmo as roupas.