Ultra Carnem
Capítulo 23
Antes de descobrir o que o espelho escondia, Marcos acordou vomitando azedume e restos de fumaça, e ouvindo a chuva que continuava castigando o mundo lá fora.
Precisou de alguns minutos para conter a tremedeira e a falta de ar, também da Coca-Cola que estava no frigobar. Só então apanhou o paletó — que meteu na cabeça para se proteger da tempestade —, saiu do escritório e entrou no Ford estacionado na calçada. O mundo parecia insano. A escuridão atingia a cidade sem piedade, todos correndo para casa. Deus estava com raiva e Marcos concordava com Ele. Até para o Diabo o castigo de Cat e daquele rapaz pareceria severo demais. Mas ele não conhecia as preferências do Demônio ou do Inferno… Não ainda. Depois de cinco minutos dirigindo seu carro, se interessou pelas horas. Fez as contas que precisava. Seu sono conturbado não durou mais de trinta minutos. Se andasse depressa, resolveria tudo antes do jantar.
— Droga! — gritou em seguida. Puxou a direção do carro com força para a esquerda.
Com a ventania, uma árvore despencou e quase acertou em cheio o teto do Ford. Acabou acertando a traseira de raspão — mas não era nada que fizesse Marcos desistir de seu intuito. Aquela loucura acabaria hoje, mesmo que ele precisasse devolver cada centavo recebido naquela maldita tarde de quatro meses atrás.
Granizo despencava do céu enlouquecido. Marcos era um dos poucos motoristas a enfrentar o aguaceiro. Raios riscavam a tarde anoitecida. Então um maluco de bicicleta entrou na frente do carro, vindo de lugar nenhum. Marcos freou, castigando o pedal do carro. Tarde demais. A bicicleta voou pelos ares junto com o passageiro. Um velho negro, de terno, carregando um quadro que agora beijava o asfalto. Marcos parou o carro e pensou se deveria ajudá-lo ou continuar socorrendo a si mesmo. Já ia destravando a porta e descendo, quando, pelo retrovisor, percebeu o homem de pé. Ele mancava um pouco, mas ficaria bem. Voltou a acelerar, foda-se, não podia salvar todo mundo. Que porcaria, nem a si próprio estava conseguindo salvar. A raiva e a indignação cresciam dentro dele. Pobre Cat. Todo aquele sangue. Agora ele também queria sangue. O sangue frio e venenoso daquele homem. Do dono daquele anel de prata que tentava acabar com tudo que ele gostava.