Ultra Carnem
Capítulo 21
Marcos pensou bastante na sugestão de Carol, sobre voltar para a loja de bizarrices. Foi como se o dia percebesse seus planos. Em menos de uma hora, tudo virou escuridão; o céu ficou carrancudo e Três Rios se preparou para uma tempestade. Marcos dispensou Carol antes que o mundo desabasse sobre ela. Pensou em se oferecer para levá-la até em casa, mas acabou preferindo escoltar uma vodca para dentro da garganta. Agora estava de pé, em frente à janela, sentindo o copo esquentar entre os dedos.
Deus, o que está havendo? Por que isso está acontecendo comigo? O que eu preciso fazer? Ser fiel a Odeta? É isso? Aumentar as doações para o Grupo de Apoio a Pessoas com Câncer? Me diz que eu tenho que fazer, poxa…
As nuvens do céu refletiam o humor divino e ameaçavam derrubar os santos de seus tronos. Ventava muito. Pela janela do escritório, Marcos via pedestres correndo como baratas sem lar. Sentia inveja deles. Afinal, para onde ele iria? Não estava seguro no escritório, não estaria seguro em casa. E claro que seus nervos se retorciam com a expectativa.
Marcos pegou outro cigarro e o meteu entre os dentes com raiva. Dessa vez sem crises de tosse.
Tenho que descobrir o que está acontecendo.
Pensou em Cat outra vez. Recheada e decapitada como uma porca. Aquilo não foi justo. Seria mais honesto ter acabado com ele , que não abria mão de suas taras, mas ela? O que a coitadinha fez para merecer tal destino? Transou com ele? Não… Se fosse isso, teria mais gente morta. Cansado de pensar, Marcos decidiu sentar-se e apreciar a tormenta. Colocou a cadeira em frente à janela que tomava quase toda a parede, puxou outra para apoiar os pés, jogou para longe a gravata. Encheu o copo com mais suco da Rússia.
— Ah, meu pai. O que eu não estou vendo?
O dia escuro continuava sonorizado por trovões. Talvez nem as nuvens gostassem do Açougueiro.
De gole em gole, o copo foi diminuindo suas visitas à boca. As tragadas no cigarro rareando, bocejos nascendo. Depois, um sono profundo e atordoado. Dessa vez, quando Marcos abriu os olhos, sabia que estava sonhando. Ele via de novo pelos olhos do Açougueiro.