Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 90 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 13

Lucrécia permaneceu quieta por alguns instantes, olhando para o rosto indecifrável de Marcos sob a luz das velas coloridas. Havia algo escondido ali. Ela imaginava que se tratasse de saudade. Quando Marcos parava de tagarelar e olhava para o decote do seu vestido, ele ficava com os olhos perdidos, tomado pela vida que deixou de ter.

— Eu ainda não estou convencida. Minha verdade é que seu patrão me ofereceu um lugar entre os dele e poupou minha vida para que eu desse dicas sobre a humanidade. Ainda não tive tempo para pensar sobre o tipo de vida que levaria no Inferno. E agora vocês me aparecem com essa conversa mole de missão. Eu já tenho quase quarenta anos, sou esperta o bastante lá em cima, mas esse lugar me parece o mundo da mentira. Como vou saber o que será de mim depois que realizar os planos de Lúcifer?

— Você não vai saber — Marcos disse. — Mas garanto uma coisa: se decepcionar o chefe, se tentar contrariá-lo uma única vez, ele pode tornar sua vida um completo desastre.

— Mais? Eu só tive desastres até hoje. Nasci pobre, fui humilhada, agora estou no Inferno. O que pode ser pior do que isso? E acho engraçado você falar de vida… — ela disse e se moveu sobre a cadeira. Desceu uma das mãos e massageou a perna. Sentiu o relevo da cicatriz já consolidada.

— Você não está completamente morta, se é o que a preocupa.

Lucrécia arregalou os olhos de novo. Viva? Como alguém pode estar vivo no Inferno?

— Esse é outro engano sobre esse lugar. Apesar do que andam dizendo nas igrejas, o Inferno realmente existe. Não no fundo da Terra como era ensinado antes, é claro. Estamos em outra dimensão. Esse lugar abriga alguns vivos quando é conveniente, sabe? É o seu caso. Também o dos soldados que desceram junto com o chefe na primeira guerra e de uns poucos sortudos.

— E o homem negro? Aim?

— Ele nunca teve uma alma humana. É um demônio antigo. Lúcifer fez com que ele nascesse em um ventre humano e passasse uma vida na Terra, mas sua essência sempre foi outra. Talvez por isso o chefe tenha tanto interesse em você, uma humana casca-grossa, uma ovelha abandonada por D. que consegue circular pelo Inferno, em carne e osso.

Alguém tocou a porta e fez com que Lucrécia pulasse sobre a cadeira. Tranquilamente, Marcos deixou seu assento e caminhou até a saída.

— E então? Podemos começar? — Aim perguntou, sem atravessar a porta. — O chefe acabou de me dar uma prensa.

— Eu quero falar com ele — Lucrécia já estava de pé, apoiada na bengala e tentando ignorar a dor que sentia.

— Todos querem falar com ele — Aim respondeu com um sorriso e entrou na sala. — Mulher, você está esgotando nossa paciência, e junto com ela, sua sorte — meneou a cabeça. — Vou simplificar tudo. Você pode ficar aqui para sempre, perder o que ainda lhe resta de humanidade e ser a concubina número um dos demônios do Hades. Ou pode me acompanhar até o andar de cima e garantir uma aposentadoria tranquila em algumas centenas de anos. — Olhou para o relógio no pulso. — Eu vou lhe dar três minutos terrenos para decidir.

Lucrécia olhou para Marcos, tornou a olhar para Aim e, em cinco segundos, respondeu:

— Quando partimos?