Ultra Carnem
Capítulo 18
Acordou cercado pelos olhares confusos de Randy e Odeta. Ela estava magra e bonita de novo, segurando uma colher de madeira cheia de frango frito. Randy comia a mesma coisa, mas estava paralisado com o garfo no ar, assustado com o grito do pai. Marcos fazia o mesmo com seu talher.
— Marcos? — disse Odeta.
— Hã?
— Você não é obrigado a comer, se não quiser…
Ele continuou de olhos arregalados. Acabou soltando o garfo sobre o prato.
Não parecia um sonho, sua cabeça ainda queimava na parte de trás. Ele teve medo de levar sua mão até lá e encontrar um rasgo, sangue ou algo ainda pior e impensado. Apanhou o talher que derrubara e comeu um pedaço de frango. Pelo menos era carne branca. E ele, incrivelmente, sentia fome.
Uma hora depois, já digerindo o frango do jantar na cama king-size do quarto, pensamentos faziam jorrar adrenalina em suas veias. O que significavam aqueles apagões e os sonhos horríveis? O que fez durante as duas horas que ficou… ausente, como diriam. Com quem esteve? Será que realmente esteve? Marcos não lembrava como — ou se — tinha mesmo saído de casa antes do jantar — menos ainda os motivos dos demônios do trailer que resolveram acabar com ele. De onde vinha o interesse das trevas em persegui-lo? Culpa das traições? Das pornografias? Dos animais que torturou na infância? Pouco provável — se o Demônio perseguisse pensamentos e maldades infantis, nunca tiraria férias.
Porém, a pergunta que o afligia transcendia os limites daquela noite. O que o maldito Açougueiro queria com ele e com sua família ainda era seu maior interesse. Ali estava a razão dos seus pesadelos terríveis. Os apagões, os suores, as dores, as crises de consciência — tudo era culpa do maldito assassino.
Entre ideias de como resolver seus problemas e o medo que sentia, Marcos adormeceu. No entanto, suas perguntas tinham um nome grifado em vermelho antes que fechasse os olhos: Carol . Ela tinha que saber de alguma coisa, ela era a chave. Só ela podia ter aberto a porta do escritório para que o safado deixasse suas porcarias dentro do frigobar, só ela teria acesso à caneta que veio com o rapaz dos Correios. O teto do quarto continuou mostrando prelúdios de sonhos. Um projetor maldito retransmitindo os piores momentos da noite.